Todas elas estão reunidas na casa de Léa. O segundo andar estava desabitado desde que sua vó havia morrido. Nunca tiveram coragem de tirar os móveis, então tudo ali parecia ter sido deixado por uma outra pessoa. A poeira se acumulava em todo, todos os pertences esperando a não tão simpática senhora retornar do hospital.

Isso nunca aconteceu.

Agora apenas acumulam cama, guarda roupa, mesa de centro, uma pequena cozinha útil e desativada e uma geladeira azul bebê que ninguém tem coragem de abrir. Apenas se aproximar do aparelho já causa enjoo pelo fedor que aquele refrigerador exala. Tâmia perguntara diversas vezes a Léa o que tinha ali.

– Quando minha avó morreu não tiraram a comida. Tem pelo menos dez anos de comida estragada ai.

– Caralho – disse Tâmia.

Todas estavam sentadas em um semi-circulo. Um silêncio em comum mantinha o lugar lúgubre. Elas ficavam silentes. Respiravam de maneira acelerada. O celular no centro, com a lanterna acesa, iluminava aqueles joviais rostos. Como se houvesse uma fogueira pronta para ouvir as melhores histórias de vida. Mas elas eram muito novas, talvez novas demais para terem histórias boas o bastante. O que elas queriam contar, de fato, sobre abuso, abandono, depressão, desespero não enchesse a garganta de um todo.

Então elas se reuniram na casa de Léa.

Então elas começaram a se despir.

 

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