Para quem passasse naquela rua, naquela hora, naquele instante, nada ouviria além do silêncio de um inicio de noite comum, caminhando para uma metade de noite comum. O relógio já estava no alto das 19:20, mantendo a tranquilidade de um bairro periférico. Nada além de um ou outro carro, nada além de cachorros latindo e gatos caçando seu próxima alimentação. Se pudesse nomear o silêncio, poderia chamá-lo de barulho do lugar comum.

Claro que, ao adentrar no segundo andar da casa de Léa, ouviríamos gemidos de quatro garotas se masturbando despidas e sentadas em um assoalho de madeira empoeirada. Todas em um circulo, apoiadas com um dos cotovelos no chão enquanto a outra mão deslizava em suas vaginas num movimento até agressivo. O gemido e o prazer fazia daquele ambiente silencioso, algo prazeroso e proibido. Claro que elas podiam fazer isso em suas próprias casas, no seu próprio silêncio, mas havia algo naquela troca de sabedoria, algo naquilo do “fazer em grupo”. Algo excitante no gemido alheio.

O vestido florido de Gardênia tocava um amancha escura de mofo, sujando-lhe as bunda. Ela não se importava, sua mão enterrada em sua boceta e os problemas diluindo pelo gozar fazia tudo mais parecer nada. Era meteórico, não haveria dor, não haveria sofrimento. Gardênia olhava para as outras meninas, no mesmo êxtase que ela, se sentia una com todas as outras, sentia que fazia parte de algo maior, ou menor, não importa.  Num ritmo frenético de suas próprias vontades, até mesmos dos próprios egoísmos, todas ali estavam por seus motivos. Talvez o abuso, o abandono, a solidão ou o suicídio. Era tudo que tinham, além de elas mesmas, uma droga, um álcool, uma vontade de existir.

Uma vontade de morrer.

Uma vontade de ver um novo nascer do sol. Mariena, de todas, a mais violenta, se masturbava enfiando dois dedos, sentindo uma espécie de dor, uma espécie de vontade de auto punição. Ela queria sentir algo além de dor, ela queria sentir algo além de ansiedade, algo além de uma carne marcada, dolorida, dilacerada. Masturbar-se para ela tinha algo além do sentindo único de auto conhecimento, talvez numa doença, talvez numa clemencia, ela queria sentir algo. Queria desejar que o sangue virginal nunca tivesse brotado, e que a história da sua primeira vez não precisasse ser um segredo sepulcral.

Tâmia estava ali sentindo-se uma líder, sentido-se importante por ter levado todas elas aquele momento ímpar de prazer. Quando sentiu a primeira vontade de gozar comunicou as outras e todas gozaram ao mesmo tempo, tornando aquele barulho prazeroso ainda mais alto, depois cessando em apenas suspiros e suor. O silêncio reinou, reinou e reinou. O silêncio agora era uma guia mestra após a Gomorra. Todas, em seus suspiros buscavam seus motivos, vontades, e forças para começar com mais uma rodada.

Todas estavam abraçadas. As quatro garotas nuas abraçadas em uma unidade.

Todas choravam. Cada uma com sua tragédia íntima.

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