Eu percebi uma coisa engraçada hoje: Eu morri. Sim, eu sei que já disse isso várias vezes, mas dessa vez, acho que consegui descobrir o momento exato de minha morte.

Cioran disse que ele costumava mergulhar de cabeça em problemas antes de eles acontecerem, para que, quando acontecessem, ele não fosse pego de surpresa. Eu acho que eu também costumava fazer isso. Desde que eu era criança, eu costumava assistir filmes de terror e tentar não sentir medo ou nojo deles.

Não sei exatamente por que. Talvez por causa de um colega ter me assustado enquanto eu assistia um deles e todos na sala terem rido de mim. Só sei que comecei a pensar que ser afetado por esse tipo de coisa era um sinal de fraqueza. Além disso, eu imaginava que pudesse haver algum tipo de segredo em filmes como aqueles, que a maioria das pessoas nunca iria ter acesso por não ter estômago para assisti-los, mas que eu poderia descobrir se fosse corajoso o bastante.

Eu acho que foi aí que minha desumanização começou. Irônico, sendo que eu aprendi muito mais sobre a humanidade – por uma visão realista – com as minhas fontes, livros e filmes do que com as pessoas ordinárias do meu dia a dia. Não se pode aprender sobre sexo fazendo perguntas a um padre, não é mesmo?

Então eu aprendi sobre a maldade, a tristeza e a crueldade humana. Eu descobri sobre todas as mentiras que minha família e os adultos ordinários haviam me contado para que eu acreditasse que a vida era um conto de fadas. Afinal, eles precisavam acreditar em um para continuar vivendo, então eles não podiam saber da verdade.

Mas eu me recusava a acreditar nesse tipo de coisa para sobreviver, e continuava, ao meu ver, me fortalecendo, enquanto aprendia cada vez mais. Minhas primeiras crises existenciais aconteceram aos 14 anos, quando comecei a questionar meu professor de filosofia da 8ª série e a mim mesmo sobre coisas como a utilidade de se ser ético e o sentido da vida. Nenhum dos meus colegas de sala parecia passar pelos mesmos problemas que eu.

Foi nessa época que me tornei ateu, e abri mão de outro dos grandes contos de fadas. Passei por uma grande crise no ensino médio que me levou a fazer terapia até o final da faculdade. Durante essa, eu descobri as drogas. Comecei pelas legalizadas, como a maioria faz: Álcool, cigarros. Aí então maconha, lança perfume, pó, crack (só uma vez, para experimentar), LSD… Nenhuma delas me matou. Eu nunca quis morrer, na verdade. Eu queria testar meus limites e me tornar mais forte, assim como fazia com aqueles filmes de terror na minha infância.

Em uma das ocasiões eu havia tido um sonho estranho e que parecera bem simbólico para o meu psicólogo. Eu ainda tinha metade de um blotter de ácido que havia usado pela primeira vez com Norman – em uma viagem muito boa – e decidi que iria induzir uma bad trip em mim mesmo. Eu havia ouvido falar que nas bad trips o que acontece é que você é obrigado a encarar seus demônios, e eu decidi que queria tentar. Os detalhes dessa experiência não importam para este texto, apenas o fato de que essa foi uma das primeiras experiências na qual considerei ter contato com o “Abismo” ao qual Nietzsche se referia.

Não me arrependi da minha viagem, no entanto, e me considerei mais forte depois dela. Não conhecia ninguém que houvesse induzido uma bad trip em si mesmo para explorar seu inconsciente e enfrentar sua própria Sombra (como os junguianos gostam de chamar), e, naquela altura, estava me sentindo como Ulisses se amarrando no mastro para ouvir o canto das sereias sem ser morto por elas.

Uma amiga minha, entusiasta da astrologia, dizia que por eu “ter muita terra no meu mapa” eu tinha um tipo de “âncora”, que me permitia presenciar todo tipo de coisa e explorar o mundo sem que eu corresse o risco de me “perder do meu caminho”. Eu não acreditava em boa parte do que ela dizia, mas gostei dessa idéia de uma “âncora” como símbolo do que considerava ser minha força.

Por fim, a faculdade acabou e eu tinha que decidir o que iria fazer. Minha idéia era ir com algumas pessoas morar na capital, dividindo um apartamento, arranjar um emprego e fazer uma pós graduação. Eu não gostava da mentalidade de meus professores ou colegas de sala, mas achava que aquilo poderia ser algo do interior, e que, na capital, as coisas seriam diferentes.

Minha primeira desilusão veio ao perceber que isso não era verdade: As pessoas da pós pareciam tão limitadas e desinteressantes quanto as da minha graduação. Depois disso, me desencantei ao ver que mesmo a elite da minha área de formação parecia não ter poder algum para gerar mudanças na sociedade, e que parecia mais preocupada em manter uma imagem e aumentar seu currículo.

Por fim me desiludi com meu próprio campo de trabalho, ao ver que todos pareciam mais preocupados em atender ao mercado e gerar lucro do que realmente ajudar as pessoas. E me desiludi várias vezes com a humanidade ao ouvir falar sobre filhos que batiam em suas mães, mães que levavam seus filhos a tentar suicídio, e ao ver militantes hipócritas que achavam estar mudando o mundo quando só faziam julgar os outros sem nunca olhar no espelho, nem ver quanto sofrimento eles também causavam às pessoas à sua volta.

Eu senti que estava no abismo novamente, mas dessa vez não era só esperar o efeito do ácido passar, já que não havia ácido nenhum. Com toda minha angústia, recorri à uma psicanalista e à filosofia. Voltei a estudar o existencialismo, mas dessa vez tentando ir o mais fundo que fosse humanamente possível. Eu já sentia que estava em um buraco, e achei que o único caminho para fora dali seria continuar cavando. Primeiro os filmes de terror, depois as drogas, e agora a filosofia.

Comecei com Nietzsche, Schopenhauer, mas os achei otimistas demais (sério). Descobri Cioran, e então Camus. Li O Mito de Sísifo e Notas do Subsolo, esse último de Dostoievski. Não li Kierkegaard, por que sabia que sua resposta final para a angústia seria o salto da fé cristão. Depois de me interessar pela angústia de Heidegger e ver uma palestra sobre o assunto na qual Clóvis de Barros Filho citava Sartre, eu li A Náusea.

Me identifiquei com os protagonistas dos três livros como nunca talvez tenha me identificado com alguém antes. Eles eram os colegas de sala com os mesmos problemas que eu queria ter tido na minha adolescência. Finalmente eu entendia o motivo do meu sofrimento. Infelizmente, isso não o fez diminuir muito.

Eu fui levado ainda mais para o fundo quando todos os meus planos na capital começaram a desmoronar: Depois de uma crise de nervos por causa do trabalho eu desisti. Larguei meu emprego, a pós e minha carreira. Decidi que não iria mais trabalhar com aquilo. Ao mesmo tempo meus colegas de apartamento – os quais eu odiava – decidiram se mudar, e sem previsão de encontrar substitutos para dividir o aluguel, fui obrigado a cancelar o contrato e voltar para a casa de minha família. Com isso também tive que sair da banda que eu havia entrado, e que era uma das únicas coisas que eu ainda gostava naquela cidade de merda. Absolutamente tudo dera errado.

Esse foi o momento mais baixo da minha vida. O vazio que eu sentia em meu peito era como… Era indescritível. Meu mundo, meu futuro e minha identidade não existiam mais. Eu não existia mais.

Quase três anos se passaram. Foi um longo caminho, e eu consegui reconstruir muita coisa. Mudei de carreira, voltei a estudar, saí de novo da casa da minha família, tenho novos planos para o futuro. Melhores do que os que eu tinha antes da minha primeira faculdade.

Eu reconstruí tanta coisa que cheguei a pensar que nada tivesse sido destruído. Pensei que talvez os últimos anos tivessem sido um longo cântico de uma sereia, mas que minha âncora havia funcionado, eu continuava firme no barco, como sempre, e meus limites ainda não haviam sido encontrados. Mas agora eu percebi que não é esse o caso.

Agora eu sei que aquela estadia na parte mais profunda do abismo foi o meu limite, e que parte de mim nunca voltou de lá. Me sinto como aqueles fantasmas de filmes, que não percebem que morreram, e continuam agindo como se ainda estivessem vivos até se darem conta de sua mudança e “seguirem em frente”. Só que não existe mais “seguir em frente” para mim. Não quando não se acredita em mais nada.

Nunca achei que o tal conselho do Nietzsche pudesse ser levado de forma tão literal: Aquele que luta com monstros deve de fato tomar cuidado para não virar também um monstro, e se você encara muito tempo o abismo, o abismo realmente encara você de volta, e não existe “âncora” ou fortalecimento prévio com terror, drogas ou filosofia que possa te preparar para isso. Então fica aí o meu aviso.

Se você olha por muito tempo para o abismo, o abismo olha para você. A questão é: Que tipo de monstro eu terei me tornado?