– Pelo menos não é como o David, que tentou colocar o diabo no corpo de uma mina.

– Como é?

Eu estava distraído, olhando alguma coisa na rua pela janela de passageiro da caminhonete de John, quando minha atenção foi trazida de volta por aquela frase, dita por ele. Eu estava tão surpreso quanto Sid, que vinha conosco no banco de trás, e disse:

– É engraçado quando você fala isso, John, por que de cara eu sempre acho que é mais uma das suas piadas sobre eu ser o demônio, mas aí eu lembro que é verdade, e eu tentei fazer isso mesmo.

– Como assim, cara? – Sid parecia afoito por saber mais sobre aquilo.

– Jimmy andou dando com a língua nos dentes então? – eu disse, enquanto pegava um cigarro e acendia.

– Bola um pra gente, David – John disse – e conta essa história direito.

– Eu já falei que não consigo bolar com o carro em movimento, John.

– Bicha – ele respondeu – ta bom, eu vou parar o carro e bolar um, enquanto isso você conta a história.

Ele fez isso. Nos levou no carro até um lote residencial abandonado onde costumávamos fumar e começou a bolar um.

– Não tem muito bem uma “história” a ser contada – eu disse – nada aconteceu.

– Como assim não aconteceu nada? O cara disse que você tentou colocar um demônio no corpo de uma garota!

– Mas não deu certo.

– O que aconteceu?

– No final ela deu para trás…

– Conta logo a história, Conatus – John disse. Ele havia terminado de bolar e agora parecia procurar um isqueiro para acender o beck.

– Então, vocês sabem que eu sou ateu, não é? Mas nem sempre eu fui assim. Eu comecei cristão, como a maioria das crianças começa, mas antes de perder totalmente minha fé, eu comecei a estudar sobre magia.

– Magia? Tipo wicca?

– Wicca é modinha. Um… Bem… Quase “mestre” que eu tive disse que as wiccas são como que as groupies dos magos de verdade, que faziam magia de verdade.

– Então de que magia você fala?

– Ah, um pouco de tudo… Satanismo, demonolatria, goetia, magia do caos, thelema, rituais asatru, magia mental, hermetismo, um pouco de cabala…

– Caralho!

– É, mas sempre foi muita leitura para nenhum resultado. Por isso eu parei.

– Mas e a garota? – ele parecia determinado mesmo a saber aquela história.

– Calma. Enfim, durante metade do ensino médio eu paguei de bruxo, mas daí eu parei de acreditar nessas coisas e criei um canal de ateísmo no Youtube.

Os dois riram.

– Você ta falando sério?

– Sua namorada tem um vlog sobre músicas coreanas, Sid. O meu não chegava nem perto do dela.

Ele parou de rir.

– Eu deletei o vlog quando entrei na faculdade. Estava querendo ser popular e achei que aquilo me atrapalharia. Mas aí no final do primeiro ano eu desisti de ser popular, e no terceiro eu conheci o Jimmy.

– O Jimmy da faculdade?

– Isso, e foi ele que contou a história para o John, pelo visto.

– Ele não me contou nada, só estava bêbado e disse por cima – ele respondeu e então passou o beck aceso para mim.

– Hum – respondi, e dei uma tragada fundo no baseado. Mais umas duas ou três daquelas e eu já estaria chapado. Dei mais uma e continuei:

– Jimmy tinha umas histórias e crenças estranhas. A gente fez uma festa em um sítio que uma amiga dele usava pra fazer uns rituais de quimbanda… Tipo umbanda hardcore, com sacrifícios. Nós conversamos a respeito das coisas que eu sabia e as que ele tinha vivenciado, e eu voltei a ter vontade de mexer com essas coisas.

– Assim de uma hora para outra? Você não era ateu?

– Eu alternei entre as fases de ateísmo e magia algumas vezes… Eu estava bem confuso. Antes eu acreditava em invocar demônios, mas então parei de acreditar. Mas aí aprendi sobre hipnose e PNL na faculdade e vi tantas semelhanças entre os rituais que havia aprendido e algumas técnicas usadas por eles, que achei que eles poderiam ser a explicação por trás dos fenômenos paranormais que eu acreditava antes. Eu era cético, mas estava disposto a ver até onde isso iria, e se algum demônio aparecesse, eu estaria no lucro.

– Entendi. E aí vocês arranjaram a garota?

– Não. Nós estudamos e fizemos os primeiros rituais de devoção da demonolatria. Estávamos usando a goétia da demonolatria por acharmos que seria hipocrisia se usássemos a tradicional, judaica. Uma das coisas que deveríamos fazer era escolher um daemon para nos dedicarmos.

– Daemon?

– Vem do grego, significa “espírito de sabedoria”, é a palavra base de origem para a palavra “demônio” e blábláblá, mas na prática, é como eles chamam os demônios. Demônios da goétia, por exemplo. Eu escolhi Ronové, o demônio da sabedoria, e Jimmy escolheu Paymon, um rei.

– E aí vocês se dedicaram a eles?

– Nah. Eu não lembro bem o que aconteceu… Acho que ele não conseguiu arranjar o sítio pro dia certo, disse que era muito cedo, não tinha muita certeza sobre aquilo, aí decidimos adiar… Mas aí eu conheci a Selene, uma das minhas ex em um grupo de Rosacruz. Ela também era “quase ateia”, e nós acabamos “virando ateus” juntos.

– E o Jimmy?

– Não gostou muito disso, disse que eu tinha traído os demônios por uma mina, depois disse que era brincadeira. Ele acabou tendo que mudar de horário na faculdade pra ajudar no emprego do pai, e aí paramos de nos falar.

– E a porra da garota, Conatus? – John disse, e eu passei o beck para ele. Sid não fumava. Eu ri. Sempre demorava muito com meus backgrounds quando tinha que contar uma história simples para as pessoas. Deve ser por isso que resolvi ser escritor. Afinal, você está lendo até agora, mesmo eu tendo dito no começo do texto que nada acontece no final da história, então talvez eu não seja tão ruim nisso.

– Um ano se passou. Eu e a Selene tínhamos terminado a algum tempo, e aí Jimmy voltou a aparecer, do nada. Ele falou comigo pelo celular e disse que havia voltado a praticar aquilo que havíamos feito antes e estava tendo resultados.

– Que tipo de resultado? – Sid perguntou.

– Ele tinha umas visões no quarto dele. E além disso ele disse que se dedicou a Paymon e que pediu a ele uma sacerdotisa pra ajudar ele com os trabalhos… Ou algo assim.

– O cara fez um pacto com o diabo em troca de uma mina pra transar!

Sid disse, e os dois caíram na gargalhada. Eu também ri, aquilo parecia ridículo, e eu estava chapado, mas então eu disse:

– Pode ser, não importa. O que importa é que o diabo respondeu.

Eu disse, e os dois ficaram sérios por um momento. Antes que Sid pudesse perguntar, eu continuei:

– A tal garota que vocês queriam tanto saber apareceu do nada para ele depois disso. Ela era da faculdade, mas eles não se conheciam. Ela adicionou ele em uma rede social e os dois começaram a conversar. Eu não sei o que ele disse pra ela, mas ele me disse que ela disse pra ele que ela era médium, e que tinha tido experiências sobrenaturais no passado.

Eu peguei o beck de volta e fumei novamente. Segurei um pouco a fumaça, e então continuei:

– Ele disse que queria uma mulher para fazer os rituais com ele e ela concordou. Assim, do nada. E aí ele resolveu me chamar.

– Caralho – John disse, parecendo impressionado.

– Acontece que… Bem…

– O que?

Eu traguei uma última vez o beck e o devolvi a John.

– Eu disse que ela era da faculdade, não? Eu conhecia a tal garota. Ela era amiga e colega de sala de uma ex minha, e essa ex tinha me dito que essa garota era borderline ou algo do tipo.

– Ela era louca? – John perguntou.

– O que é a loucura, não é? – eu disse, pegando um cigarro – estamos aqui falando sobre colocar um demônio no corpo de uma pessoa… E essa talvez não seja a coisa mais estranha que já conversamos.

Os dois ficaram pensativos. Eu continuei:

– Além disso, existem aqueles que acreditam que esquizofrênicos, ou pessoas com outros transtornos mentais são médiuns que não têm controle sobre a própria mediunidade, e por isso são perturbados. Nesse caso ela ser médium e ter um transtorno de personalidade faria sentido.

– Tá, mas a questão não é essa – Sid disse – a questão é que você iria tentar fazer isso com alguém mentalmente instável.

– E se a instabilidade dela fosse prova da mediunidade dela?

– E se não fosse? O que você pretendia conseguir com isso, de qualquer forma? O que você iria pedir ao demônio?

– Nada. Bom, primeiramente eu iria provar se aquilo era real ou não. Era por isso que eu havia aceitado participar.

– E como você iria provar?

– Perguntando ao “demônio” algo que não teria como a hospedeira saber. Se ela acertasse as respostas, significaria que ela estaria tendo acesso àquelas informações de alguma forma “sobrenatural”, e então eu poderia acreditar na existência de alguma entidade ou fenômeno paranormal.

– E o que aconteceu no final? – John perguntou.

– Como eu disse: Nada. Eu passei exercícios de meditação dos meus livros para a médium treinar, a Jimmy contou a ela sobre como o ritual funcionaria. Acho que ele disse a ela para se familiarizar com Paymon, para facilitar a incorporação. O problema é que ela começou a ver a imagem dele quando tentava meditar e a ter uns pesadelos estranhos… Aí ficou com medo e desistiu da idéia.

– Que merda! – Sid disse. Ele parecia ainda esperar por um final mais interessante que aquele.

– Você acha que ela estava sendo influenciada pelo tal Paymon? – John perguntou. Ele era o único do grupo que ainda acreditava abertamente nesse tipo de coisa.

– Bom – eu disse – por um lado, nada aconteceu que não pudesse ser simplesmente coincidência e coisa da cabeça dela. Por outro… Nós nunca saberemos, não é mesmo?

– O que vocês fizeram daí? – Sid perguntou.

– Jimmy ficou puto com o que aconteceu. Depois que a garota saiu do grupo, eu propus que continuássemos fazendo os rituais juntos, mas ele disse que achava melhor que cada um seguisse seu caminho. E aí nós meio que paramos de nos falar de novo.

– Que merda – John disse.

– É… – eu respondi.

– Mais um pra lista de amizades perdidas, não é David? – Sid disse – será que vai sobrar alguém no final?

– Vai ver esse é o preço que você paga por mexer com demônios, Sid – eu disse, tragando o cigarro – as pessoas não duram muito perto de mim.

– Não – ele respondeu – é só por que você é um babaca mesmo.

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