Existem certas coisas que parecem ser “cíclicas” na história humana, ou que esta parece alterar entre dois extremos. Por exemplo: Na política, é possível notar uma alternância entre conservadorismo e progressismo, enquanto na arte e na filosofia, percebe-se uma alternância entre o enaltecimento da razão e o das paixões. Quando você consegue perceber esse padrão, você começa a se questionar se vale realmente a pena escolher um lado nessa história.

Mas existe uma coisa que eu acho que, se você olhar em toda a história da humanidade, nunca foi cíclica. Bom, talvez no começo, com a formação das primeiras sociedades, mas desde então, isso segue aumentando em uma única direção, sem nunca mudar de curso. Estou falando do individualismo.

Pense bem: A idéia de “indivíduo” é nova na humanidade. Por muito tempo, os seres humanos se consideraram apenas partes de um grupo. Servos, defensores, ou simplesmente cidadãos de cidades ou nações. Mas com a modernidade, várias coisas contribuíram para que o homem começasse a pensar em si mesmo como um indivíduo, senhor de sua própria vontade.

A relação do protestantismo com o capitalismo e a “morte de deus” na filosofia foram algumas das coisas que contribuíram para a isso. O iluminismo com as idéias de igualdade, colocou todos ao lado uns dos outros, sem ninguém acima deles para guiá-los (como havia na monarquia). Talvez isso tenha sido um passo necessário para o surgimento, décadas depois, do Existencialismo, que iria colocar o homem como sozinho em um universo indiferente, e, portanto responsável por seu próprio destino.

O Existencialismo voltou com força no período entre guerras, onde ficou claro que, de fato, deus havia abandonado a humanidade. E de lá pra cá surgiram os demônios do liberalismo e neoliberalismo que fizeram com que o capitalismo competitivo dominasse o mundo, o que por sua vez aumentou nossa competitividade, e, portanto, ainda mais nosso individualismo.

Vocês vêem o padrão? Entendem o que estou dizendo? Na Idade Média, a maioria de nós eram camponeses analfabetos que achavam que deviam servir aos nobres por que era parte do plano de deus. Aí decidimos que não queríamos mais ser coadjuvantes na história dos nobres, nós queríamos ter nossa própria história. Então nós matamos os nobres e nos tornamos “indivíduos”.

A maioria das pessoas considera que isso foi algo bom. Então por que é que tantas pessoas ficam surpresas, incomodadas, ou até tentam lutar contra o “individualismo da modernidade” hoje? Quando foi que ele deixou de ser algo desejável e passou a ser o mal do século? Será que foi quando os indivíduos modernos se tornaram egoístas solitários?

Qual elas achavam que seria o próximo passo? Como elas achavam que seria o futuro? Elas por acaso achavam que iríamos alcançar um equilíbrio entre a individualidade e o altruísmo, ao invés de nos tornarmos canalhas egoístas que tomam antidepressivos para lidar com a solidão?

Talvez esse seja um período de adaptação, na verdade. As pessoas não estão acostumadas a ser solitárias, mas estão se adaptando a isso. Talvez no futuro, novas gerações já cresçam familiarizadas com a solidão existencial, e não precisaremos mais de antidepressivos. Ou talvez isso aconteça e nós precisaremos de muitos mais deles.

A questão é que eu acho estranho tantas pessoas valorizarem a expressão da individualidade que torna cada ser humano único, e conceitos com “autenticidade”, e ao mesmo tempo ficarem surpresas que isso aumenta o egoísmo humano. Não é difícil entender como as duas coisas estão relacionadas.

“You can’t have your cake and eat it tôo¹”, como diz o ditado. Todas as escolhas trazem conseqüências: Escolhemos matar nossos deuses e, junto da liberdade, ganhamos o vazio existencial. Escolhemos nos tornar indivíduos e, junto de nossa autenticidade, nos tornamos egoteístas².

Resta agora descobrir uma forma de lidarmos com isso.

 

 

¹ “Você não pode ter o seu bolo e comê-lo também”. Significa que você não pode ter o melhor dos dois mundos, como o que é escrito no texto.

² Idólatras do ego, que consideram deus como sendo uma expressão de seu próprio Self.