Alguns dias atrás fiz minha primeira tatuagem. De maneira geral, acredito que a maioria das pessoas faça isso para marcar um momento especial, ou para expressar sua individualidade de alguma forma.

Muitas pessoas, no entanto, não entendem sobre esse significado de uma tatuagem. A maioria entende menos ainda sobre expressão da individualidade.

– Mas você faz um negócio que vai ser pro resto da vida. E se você enjoar dela?

– Você é casado – respondi – nunca pensou nisso antes de assinar os papeis?

– Mas as pessoas são diferentes… Você se relaciona com elas, elas mudam, se adaptam…

– Pessoas falam – interrompi – tatuagens não fazem isso. Deve ser mais fácil pra mim me adaptar a ela do que a outro ser humano.

Ele percebeu que nada do que dizia me fazia efeito. Parecendo não ter mais argumentos, decidiu apelar:

– É que eu acho uma besteira tão grande gastar dinheiro com isso.

– Ah, mas que surpresa, não é? O que, das coisas que eu gosto, você não acha que é perda de tempo ou dinheiro, não é?

Ele parou por um segundo, surpreso com a resposta. Então disse:

– Do que está falando? Eu sempre apoiei seus hobbies, sua escolha profissional, eu paguei pela sua faculdade!

– É, verdade… Você fez isso de verdade – eu disse – mas o que você pensava enquanto fazia isso?

– O que?

– Por exemplo, você sempre pagou por minhas aulas com instrumentos musicais e assistiu aos shows. Mas ao mesmo tempo, disse que achava que artistas eram idiotas porque “querem produzir o que eles gostam e querem que outras pessoas comprem”. Quando eu disse que o objetivo da artistas não era necessariamente fazer dinheiro com sua arte, você disse que isso não fazia sentido.

– E não faz mesmo. Vai me dizer que eles querem ser pobres?

Ignorei. Sabia que não valia a pena tentar ensinar sobre autenticidade e expressão artística a um zumbi capitalista.

– Eu tenho depressão, e me formei para ajudar pessoas com depressão, entre outras coisas, e você disse que isso é uma “doença de rico”. Que “quem tem que trabalhar pra viver não fica deprimido”.

– Não fui que inventei isso. Eu li em algum lugar.

– Eu sou um filósofo e um artista. A arte e a filosofia são a minha vida. E você não só disse que artistas são idiotas, como que filósofos só olham para o próprio umbigo e não sabem nada sobre como o mundo funciona.

– Os filósofos não seguem o método científico! Eles só ficam nas discussões deles, masturbações mentais sem fim, sem chegar em lugar nenhum, e, quando chegam, não têm como provar!

Não sei se ele percebia que quanto mais ele tentava se justificar, mais sua situação piorava. Mas não é como se pudesse haver conserto depois daquele ponto.

– Você não entende nada sobre autenticidade, e a vontade que um ser humano tem de expressar sua individualidade. É por isso que você não entende a arte. Depois que eu briguei com a minha mãe por causa de ela mexer no meu quarto, você disse que “entendia que adolescentes tem essa necessidade boba de ter um espaço que expresse quem eles são, mas isso é só um quarto. Arruma do jeito que ela pede”.

– Você já passou dessa fase.

– É – respondi, pensando em como continuar. Respirei fundo e disse:

– Bom, você perguntou por que eu disse que você acha que tudo que eu gosto é perda de tempo. Eu te disse o motivo, e tudo o que você fez foi comprovar ele.

– Deixa de besteira. Eu sempre apoiei tudo o que você quis, e sempre me orgulhei do que você alcançou.

– E que diferença isso faz, se tudo isso que eu alcancei não passa de uma grande “perda de tempo”? Você acha mesmo que eu deveria me sentir valorizado dessa forma?

– Você deveria se sentir grato – ele respondeu, com uma voz firme.

– Bom, eu acho que a gratidão é uma grande perda de tempo – respondi, com um sorriso cretino – assim como essa conversa. A tatuagem não vai se desfazer, não é mesmo?

Disse, e saí andando da sala.

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