Eu vi as melhores cabeças da minha
 geração destruídas pela loucura…

                                                                – Allen Ginsberg

I

Embebedai-vos de vossas vicissitudes e demostrai o quão pobre tua alma és! Sôfrego tal juventude embebecida nos umbrais do tempo. Aos pedantes que nas calçadas jazem ímpios a própria carne. O diabo no fundo da alma daqueles que nunca mais voltaram das suas vicissitudes sorrirão. Ao mesmo tempo que os miasmas de uma quente noite de sexta-feira encharcam a vida e lama de uma puta sociedade.

– Aonde estão teus filhos!!? – gritai em plenos pulmões nos ditames do jornalismo policial. Almoçaremos com os cadáveres daqueles que, dito pela sociedade, mereceram foder-se com tiros nos rostos.

Vinde a mim vento norte que trará o desespero.

As vozes dos diabos obscuros trarão graça e desespero para todos aqueles que se fazem de loucos para que podem furar filas. Os eternos coletivos lotados com suas cadeiras reservadas. Os excessos daqueles que se fazem de pobres & enfermos para simplesmente tomar-lhe o dinheiro da cachaça.

Ei-lo de representar a lua com suas nudezes.

Ei-lo de representar, ganhando a vida a soltar malfeitores.

Ei-lo casto e puro pelas catracas rolantes da vida moderna. Sabes que aos enegrecidos espelhos não escaparão. E que a caça dos monstros inexistentes, aqueles de bolso, não trataram de nenhuma épica vitória além d’alma da vida póstuma. Se tais versos fazem fronte as primeiras tristezas do homem, trata também da mais bela primavera do ser.

Ígneo o espírito dos bêbados – todos eram jovens.

Incólume era a vaidade das meninas até que o estuprador viril as atacou – todas eram jovens.

Ignóbil caráter desfigurado da humanidade que protege o crime e criminaliza a vítima. Eis o aborto! Eis o aborto! Monstro de Frankenstein que andará errante pelas aturdidas terras viscerais e que terá que comer o fruto do trabalho em um “Call Center” maldito.

Diga-me óh senhor dos inférteis, por onde andam as mentes sãs do nosso mundo?

Diga-me óh senhor das profundezas, por onde andam as mentes que não decaíram como átomos a pleno pus.

Com o âmago machucado irei deitar para que os sonhos não atrapalhem a minha realidade. Com o triste pesar que os dias não tardaram a deslizar pelos ditos umbrais que o tempo trata a esconder, trata a maltratar, trata a trazer a tona, mostrando que vermes & insetos tratarão de subir em minha perna enquanto jazia em sono. O festim diabólico estará preparado para todos aqueles que tentarem brindar com abóbadas craneanas como fizera outrora Byron.

Brindo pela ganância.

Brindo pela velocidade de internet.

Brindo pelo “streming”

Brindo pelos heróis mortos.

II
O ruar do jovens em plena madrugada trás de maneira ignóbil seus vícios para o mundo. Munido do pior vinho e dos piores cigarros, os mesmos andam pelos carros que belicosamente buzinam buscando chegar até suas residências para terem paz e sossego. Em plena algazarra tal massa virulenta desfila em suas vergonhas, janotamente com os mais caros panos comprados por seus velhos com a maior boa vontade do mundo. Gritam como uma nova geração em guerra buscando liberdade & princípios dos quais não sabem qual. Gritam entre os veículos mostrando suas pendeguices, suscitando guerras sem tergiversar ao mundo sobre suas pacóvias ideias.

– Gritemos – disse sobre um dos carros a pular balançados bandeiras de times de futebol.

– Gritemos – disse um ao outro por festejar uma festa que não eram deles. Batalha ganha sem uma batalha.

– Gritemos – e o silêncio destinou uma brincadeira pueril.

Todos estarão caídos ao amanhecer, com água nos rostos jogadas pelas fétidas urinas dos asfaltos encharcados. A fina chuva da noite quente lavará a alma daqueles que ainda acordados percorrerão as infindáveis estradas de escuro petróleo.

Em passos largos andarei por entre estes, olhando seus rostos sem censura. Não encontrarei irmãos de consciência, muito menos consciência nestes irmãos. Nada poderei indagar, visto que suas pupilas dilatadas mostram o que fora consumido perante a madrugada. Apenas manterei meu silêncio, minha cabeça baixa, e meu senso de humor ferino ao observar aquela guria de cabelos azuis-esverdeados gritar para os quatro cantos do inferno o quão feliz estava.

Triste criança.

Mas amanhecerá, e os primeiros raios de sol iluminaram os dias e as noites. As igrejas baterão os seus sinos e os carros buzinarão em logos engarrafamentos. A vida começará a andar novamente e a morte esperará o primeiro acidente da semana.

A vida voltará ao normal.

Acordarei assustado perante ao alarme do celular. Não terei noites de sono tranquilas enquanto o atraso me custar o salário.

Acordarei assustado com a vida. Não tardarei a dormir novamente enquanto o fantasma das eras me tomar as rédeas impedindo-me de rejuvenescer.

Ao Horizonte Perdido de Milton dou-me a rota impertinente. Não sobreviverei aos frios do Himalaias, muito menos às provações dos velhos e eternos sábios.

Perderei diante do jogo da vida, sem tempo para ler os grandes clássicos ou assistir as maravilhosas séries da Netflix.

Mas eles estarão lá. Doentes de sono e dor.

Doentes de narcóticos.

Engasgando-se com o gástrico suco de seus estômagos.

Mil garrafas do mais barato vinho pelos bueiros & córregos.

Não haverá mais vida, não haverá mais juventude. Tornará a chover o enegrecido chorume da peste & dengue. Tais cientistas de um futuro dístope, emburrecidos pelas mídias e pelas massas, traçarão os rumos de um futuro perdido em caóticos redemoinhos de puro gozo e luxuria. Faltará gramáticas, faltará adjetivos para levantar a fleuma de bandeiras partidas. Serão massas de manobras de políticos partidos parcos, tratando os petizes com sua pérfida versão do Necronomicon, utilizada para controlar a mente daqueles viciados no pouco estudo.

Estarão nas faculdades.

Estarão nas universidades.

Construirão templos.

Assassinarão a ciência.

Apenas um único túmulo com a inscrição de “aqui jaz o futuro”

III

O tempo não tardará a terminar.

Os imponentes versos dos antigos sobreviverão as massas ignorantes e a queimada dos livros.

Walt Whitman estará guardado na minha estante.

Hermann Hesse estará guardado no meu coração.

Chuck Palahniuk está guardado na minha mente.

Clarice Lispector está guardada na minha metafísica.

Jean Jacques Rousseau será de quem roubarei o nome.

Nos autos do Neo-Iluminismo, acenderemos a luz diante a escuridão pernóstica de crentes & infames. Seremos guilhotinados, de certo, porém marcaremos a fogo a história dos indecentes.

Lutaremos até a morte, como Hemingway o fizera.

Esnobaremos com o humor negro de Woody Allen.

Aristóteles será meu amigo de bebida.

Willian Blake será o porteiro do meu inferno pessoal.

Descobriremos todos juntos os deuses perdidos dos cantos abissais da natureza. Enegrecidos e impiedosos deuses impronunciáveis. Trazidos até nós através da magia literária e dos pentagramas e outros símbolos cabalísticos. Traremos até nós deuses inventados pela literatura apenas para que possamos rechear os versos sádicos de um desocupado noturno.

Aos monstros de Howard Phillips Lovecraft.

Aos loucos de Stephen King.

Ao corvo de Põe.

Levantaremos os cálices e brindaremos às escondidas, pois lá fora a guerra arde, a batalha arde, a peste arde. Não seremos reféns de religiões imorais ou deuses monetários apenas para o sustento do homem comum. Através do estudo e da ciência traremos um novo mundo, mesmo que imaginário, mesmo que impossível, mesmo que apenas como uma ficção pobre e inútil.

Levantai-vos.

Desmoronai.

Frugal o verso declamado em tão simples poema, feito de maneira mesquinha, feito de maneira inútil. Fleumática será a ideia aplicada como uma tênue semente, plantada na mente sã por um louco psicopático, porém muitíssimo funcional.

Levantará pela manhã, desejando os cinco minutos finais.

Levantará e olhara, com olhos embotados de lágrimas, os perdidos abismos da loucura.

Entenderá que tudo é uma mera teoria

E como teoria.

TUDO
CONVERGE
AO
CAOS.