“Eu sou Zaratustra, o ímpio.
Onde encontrarei outro igual a mim?
São iguais a mim todos aqueles que por si próprios
definem sua vontade e se livram de toda resignação”
– Friedrich Nietzsche
                                                                                   

Não sei sua idade.
Também não sei seu nome.
Te vejo pelo reflexo da janela do ônibus
e imagino como você ficaria bonita com rosto de gemido.
O teu sorriso numa cama, numa noite, depois de gozar.
Seu sorriso perdido nas trevas do seu próprio interior.
Deste seu corpo, deste seu ser desconhecido, tenho para
apreciar apenas uma casca.
Tenho para apreciar apenas os pensamentos ímpios
daquele que silente vai na condução pensando
nas horas de prazer que nunca aconteceriam.
Sou pego pelo susto de achar que você também está olhando
para mim.
Sou pego no susto do vagar do assento ao meu lado.
Sou pego no susto de você sentar e eu experimentar
uma pequena dose do perfume de seus cabelos.
Estou lendo Nietzsche, noto que você sabe quem é.

– Zaratustra, conhece? – digo.

Ela faz filosofia na faculdade.

Deus ajuda aos cafajestes
da mesma forma que simpatizava com as prostitutas.

Pensei nisto tudo acordando nesta manhã, com Nietzsche na minha cabeceira
e com ela na minha cama.