A mãe de Maria Clara preparava as roupas para lavar. Sua mente vagava nas diversas perguntas que nunca teriam respostas, mesmo que insistisse em perguntar. Talvez pela alma mentirosa, herdada de seu avô, Maria Clara se atrevesse a dizer que aquelas manchas brancas na parte de trás do vestido fossem qualquer outra coisa. Mas no fundo, aquela dulcíssima senhora conseguia reconhecer as duas nódoas de esperma muito bem derramadas e já endurecidas pelo tempo. Com o coração apertado ela tinha que engolir este sapo, deixar aquilo tomar o curso da vida. Mesmo com o coração apertado, colocando no tanque o vestido com material genético de um homem desconhecido do qual ela apostava ser Marquinhos.

Um flash de pensamento surgiu, Maria Clara de quatro com Marquinhos mandando ver.

Tinha visto aquela menina crescer para, agora, ser penetrada de quatro e esporrada nas costas, manchando aquele lindo vestido.

Ela também havia encontrados cigarros no quatro de Maria Clara, alguns muito bem escondidos. Os olhos felinos de uma mãe que encontra as coisas erradas da filha, mas como proceder? Falar e apontar o dedo no rosto daquele pequeno anjo? Brigar, proibir? Não existia uma resposta, talvez não exista a resposta certa.

Nem quado ela encontrou aquele pacotinho com maconha.

Muito menos a garrafa de rum escondida na segunda gaveta do guarda-roupa.

Até mesmo os exames de gravidez que, graças a Deus, deram resultado negativo. Todos os sete.

E aquela verdade estampada nas costas do vestido, as gotas de esperma, o jorro de verdade branca e rugosa no tecido delicado da peça de roupa. Marquinhos esteve com ela naquela mesma tarde, daquele mesmo domingo. Os gemidos abafados pelo domingão do Faustão. O vídeo gravado que, depois, fora vazado na internet da branca bunda feminina de sua filha assistida por milhares e milhares de punheteiros.

Ainda sim ela continua com este Marquinhos, mesmo depois que ele foi preso por tráfico de drogas e apresenta uma tornozeleira eletrônica.

O que ela poderia fazer, além de lavar as roupas sujas com esperma? Não existiria uma realidade ímpar para aquele jeito de cuidar. As noites foras, as festas, as voltas para casa. Maria Claria se tornou desforme com cada ano ganho, mesmo nunca notando que fazia tempo que não conversava com sua própria mãe, fadada a lavar os esporros de Marquinhos junto com seus vestidos.

De fato nada poderia ser feito. E viajando para um futuro não tão distante, estaria lá, a Mãe de Maria Clara lavando as roupas de estranhos, grandes pacotes de roupas por um preço ínfimo. Precisando juntar centavo por centavo, pois a pensão do marido falecido não seria o bastante para pagar um advogado.

Ela também precisava juntar dinheiro para a condução, e também para os biscoitos, café, e itens de necessidade pessoal

Ela lavaria cuecas e calcinhas de desconhecidos, lavaria roupa até os calos surgirem e as suas mãos sangrarem.

O Juiz ainda não sentenciou, mas Maria Clara está presa, por levar droga escondida na roupa numa visita íntima a Marquinhos.  Isso acontece muito, disse o juiz. Marquinhos tinha voltado para a prisão, depois de um assalto mal sucedido. Precisava se manter e Maria Clara foi a mula. Também mal sucedido. Agora Marquinhos está fora de novo, e Maria Clara aguardando julgamento.

Marquinhos nunca vistou Maria Clara.

Mas a mãe está lavando os vestidos, juntando dinheiro, machucando as mãos.

Mantendo os olhos fechados, imaginando que tudo isso é normal nos dias atuais.