Lorenna tirou a pedra de gelo do meu copo e pôs na boca. Ele não tinha começado a derreter, mas mesmo assim consegui ouvir o quebrar da pedra fria na boca quente daquela guria. Os dedos anda molhados de uísque tocaram o meu rosto e um beijo estalou em minha barba. Ambos sorrimos num espectro entre o fraternal e o não fraternal. Tento buscar um adjetivo que me sirva bem para aquela fração de segundos, mas meu bolso está vazio destas práticas linguísticas. Logo após ela me apresentou ao seu noivo.

– Eu o conheci num dos saraus da faculdade – ela disse para o seu noivo (referente a mim) sentando-se ao meu lado – um grande escritor. Você precisa ler o último livro…

– Menos, você sabe que fico sem graça com elogios – apresento-me para o rapaz. Ele devolve o cumprimento, ainda um tanto sem graça. Era visível que aquilo não era o seu habitat. Vestia-se como um advogado recém formado. Não havia o menor sinal de calos nas mãos, quando eu o cumprimentei, deduzi que provavelmente nunca tenha feito trabalho pesado. Um homem muito pálido, com um jeito de “ar-condicionado”. Vestindo-se impecavelmente bem – é bom conhecer um advogado, sempre tem alguém tentando me processar.

Ele riu querendo me perguntar como eu sabia que ele era advogado.

Me decepcionei horrores quando ele pediu um suco de laranja natural. Este era o tipo de homem que estava atraindo Lorenna? Ela ainda continuava uma mulher muito interessante. O seu jeito de falar, de agir, de sorrir. Havia uma força sobrenatural naqueles olhos caramelos. Agora um homem que pede suco de laranja natural em um bar? Não que eu estivesse no canto mais barra-pesada da cidade, mas suco de laranja natural? Qual era o pecado? O gelo engordá-lo?

Talvez Lorenna quisesse uma segurança, um homem que trouxesse um sustento emocional que eu não poderia dar. Tudo bem, sou um porra-louca, nunca daria uma segurança exata, do jeito que ela queria, e só fazê-las gozar não é um caráter genético de suma importância. No mais, a interação de ambos era complicada. Sua força feminina e seu passado, que eu conheço muito bem, destoava com a figura que aquele rapaz representava.

Ela pediu Martíni. Senti em seus olhos uma censura, também notei que ele estava desesperadamente querendo sair dali.

– Vamos encontrar alguns amigos – diz Lorenna, provavelmente só amigos dele – marcamos nestes barzinhos pelas redondezas, são bem alegres. Alias, o que você, o senhor ogro está fazendo nestes barzinhos alegrinhos hein!?

– Dia de quarta a cerveja é dobrada, aproveito para tomar com uísque. Dai fico com meus fones de ouvido e minha bebida.

O noivo tenta conversar comigo sobre música, mas ele tem o gosto musical de um bebê. Logo o assunto volta para Lorenna. Descubro que ela foi demitida do seu último trabalho, mas procura algo como designer.

– Conheço umas pessoas – digo – posso ajudar.

O noivo diz que vai ao banheiro, após terminar seu fatídico copo de suco de laranja. Sinto que quando ele voltar, nunca mais verei ambos.

– O que você viu neste cara? – pergunto.

– Eu precisava de alguém para me dar segurança. Você é legal, mas não sei se quero viver pulando de bar em bar. Ele é legal, atencioso. As vezes trabalha muito, mas me respeita demais.

– Você poderia ter adotado um cachorro.

– Ah, num fode. Tô na pior financeiramente e emocionalmente. Você saiu da minha vida, perdi meu trabalho, as coisas não estão andando como eu queria.

– Seus sonhos de adolescente, sei – me aproximo, afago sua nuca. Eu e ela sabemos que ela gosta disto – podemos ter alguma coisa ainda. Te ajudo com seu trabalho, damos um rolês, de bar em bar sem precipitações. Se você continuar neste caminho, vai acabar virando uma crossfiteira natureba.

– Não é tão simples – ela afasta minha mão – as coisas não são este conto de fadas bukowskiano que você vive.

– Eu moro no mesmo lugar, ainda, se você mudar de ideia…

O noivo chega, disse que falou com seus amigos e que precisava ir.

– Também foi um prazer – eu disse cumprimentando aquelas mão macias – pense no que eu disse Lorenna.

Eu sabia que o noivo iria perguntar para ela o que eu tinha dito e ela mentiria.

– Conto de fadas Bukowskiano – eu ri.

Mas minha vida seria assim mesmo? Pensei nisto no caminho de volta. No tarde da noite, com mais três garrafas de cerveja no bucho, ouvindo João Gilberto no toca-discos. Existe uma serenidade em envelhecer assim. Os dias seriam os mesmos, a vida passaria corriqueira diante de meus olhos. Ganhar algum dinheiro na escrita, tirar dinheiro de alguns otários na bolsa de valores. A vida do verme, o conto de fadas. Mas se Bukowski tivesse escrevendo isto tudo seria diferente. No alto da madrugada a campainha tocaria e pelo olho mágico eu veria Lorenna, com um vestido preto de alcinha no meio das coxas. Segurando um pacote com algumas garrafas e um sorriso sem graça.

Se fosse um conto de fadas Bukowskiano eu abriria esta porta e ela entraria me dando um oi e me beijando rapidamente na boca. Ela colocaria a sacola na minha mesa da cozinha, eu a agarraria e a beijaria de maneira profunda e poética.

Iriamos para cama e treparíamos, foderíamos, e etc.

Beberíamos e fumaríamos num ante foda.

– E seu noivo? – eu perguntaria.

– Ele acha que fui para casa porque estava com dor de cabeça – Lorenna diria, e provável treparmos mais uma vez.

Minha imaginação é cortada pelo barulho da campainha. Eu estava num semi-sono, semi-sonho.

É Lorenna. Errei a cor do vestido, é um azul que lembro termos comprado juntos.

Bukowski, do céu ajuda aos cafajestes.

Abro a porta, ela entra e me dá um beijo. Pergunta se poderia passar uns dias comigo. Tinha abandonado o noivo.

Ela trás algumas garrafas de cerveja.

E assim vivemos felizes para sempre.

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