Quando Gerson me disse que finalmente iria se casar eu fiquei feliz por ele. Na média das coisas, teria que tirar meu velho paletó do guarda-roupa, talvez mandá-lo para lavar.

– Você aceita ser o padrinho? – Gerson perguntou.

Nós dividimos apartamento há alguns anos. Foi um período realmente divertido, não que minha vida fosse tão diferente do que era hoje, mas eu trabalhava para a industria e precisava morar perto do trabalho e Gerson, que também trabalhava no mesmo lugar, precisava rachar um apê.

O que faz curioso como duas pessoas que moram no mesmo lugar não necessariamente precisam se encontrar. Aquilo de todo mundo ter sua própria ilha, ser dono de eu próprio país. Nos encontros e desencontros que tínhamos no mesmo ambiente, as vezes eu cozinhava algo legal, tomávamos cerveja e dávamos risada.

Engraçado como minha promiscuidade contrastava com sua fidelidade. Gerson começou a namorar um rapaz do RH que nunca consegui lembrar o nome (Lucas, Leonardo, não sei). Cara gente boa, torcedor do flamengo doente. Ele chegou a me apresentar sua prima Cinthia, do qual demos uns rolês de casal e era divertido.

Mas um dia terminaram. Gerson precisava se mudar, iria passar uma temporada na França. Perdi o amigo e o colega de apartamento, não acredito em amizades à distância da mesma forma que não acredito em relacionamentos à distância. E no frio passar dos anos, também neste reencontro esporádico, Gerson parecia mais velho. Alguns fiapos de cabelo branco surgiam em sua proeminente careca. Ambos estamos ficando calvos, faz parte da vida masculina. Profundas olheiras tomaram conta de seus olhos, e não havia mais tanta graça em sua risada esganiçada.

– Bixa louca! – eu dizia nestes momentos. O melhor sinal de amizade é quando podemos nos insultar sem se machucar. Era meu crivo para separar os amigos dos bons amigos.

Ele me contou sobre o noivo, um professor de história de uma faculdade fodona do exterior. Seria no começo do próximo ano.

– Claro cara, aceito sim – digo num mix de sentimentos estranhos. Nunca fui convidado de nada, para nada.

Nos abraçamos e ele partiu. Fiquei tomando alguma coisa e pensando na evolução de tudo. O tempo não para, os amigos vem e vão e tudo é um breve momento de convivência. Curiosamente que as verdadeiras amizades, aquelas que por algum motivo estiveram presentes de uma maneira mais forte, permanecem apesar de todos os pesares.

Termino minha bebida, acendo meu cigarro e parto, a manhã de sexta-feira estava estranhamente bonita até mesmo para mim, que não vê beleza nas coisas. Estou envelhecendo.

Estou virando um velho sensível.

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