Não importa se é meio-dia ou meia-noite, tudo o que eu preciso é de uns bons cigarros dentro do maço e dirigir em um estado meio alcoolizado pela orla. Nas esquinas as prostitutas, garotas humildes de famílias pobres que se debruçam na janela do carro e fazem suas propostas indecentes. Elas querem foder e ganhar um trocado para o outro dia, não é diferente de ninguém que eu conheço. Partir e deixá-las para trás, procurar um outro cliente em um outro lugar. Apenas as vejo desaparecer no retrovisor, é vida que segue. A minha já seguiu.

Meu carro deslisa pelo asfalto.

Um meio de semana qualquer, mais um gole na garrafa, a coloco em segurança no banco do passageiro. A fumaça escapa pela janela. Não estou usando cinto de segurança. Foda-se esta merda, tudo o que eu vejo são borrões coloridos dos hotéis e dos postes, não consigo ler os anúncios, logo não sou tentando a nada. Apenas sigo em linha reta, com a minha torta loucura abraçando-me. No banco de trás preservativos e pacotes de salgadinhos. Olho para o meu próprio reflexo no retrovisor. São sete horas da noite e estou com óculos escuros. Meu bigode fede a cigarro e minha camisa tem respingos de uísque. Dou um sorriso. Está tudo perfeito.

Estaciono o carro. Estranhei porque o flanelinha não veio me extorquir. Entro com meu uísque leve na mão. Tinha apenas dois dedos e para esta noite solitária eu precisava de no mínimo um palmo. Uma lojinha de conveniência, quase um mercadinho. Vendiam de tudo um pouco e é uma mão na roda. Este não é 24h, mas dá muito bem para o gasto. Um grande amigo meu diz que quando um silêncio sufocante repousa ao seu lado é um anjo que está caminhando junto a ti, eu sempre achei isso uma besteira, mas toda vez que eu ouvia esta porra de silêncio eu lembrava destas palavras idiotas. Eram quase oito horas, a loja deveria estar cheia, mas apenas o silêncio tomou conta de mim. Olho para o balcão do caixa e a pobre coitada, pálida como um fantasma, me olha com o medo estampado.

– Deita no chão! Deita no chão! – gritou o imbecil no meu lado. Quando venho a mim, umas seis pessoas deitadas no chão e um outro cara, um sujeitinho com jeito de rato, saindo no balcão, pegando o dinheiro do caixa.

Não sei o que eles queriam de verdade. Não pareciam perigosos, pareciam uns moleques mesmo, nada demais. O sujeitinho gritando do meu lado tinha no máximo uns 20 anos, dedos magros e ossudos, talvez desesperado por um pico. Eu o entendo, quantas vezes já bebi cerveja velha em fundos de garrafa. O outro, não pude enxergar bem, parece mais calmo, letárgico também. Segurava um revólver xexelento, mas até as armas mais merdas podem matar.

Nestas horas que fazemos as coisas sem pensar, eu apenas virei meu pesado corpo e explodi a garrafa de uísque meio vazia na cabeça do assaltante. O uísque era bom, e a garrafa era pesada. O noia desequilibrou e caiu, acho que o susto o pegou mais desprevenido do que a própria garrafada. Andei em direção ao outro, ele disparou o revólver uma vez e só tinha uma bala. Talhei um corte no pescoço do desgraçado com o caco da garrafa e ele caiu morto.

Os jornalistas chegaram primeiro, depois os policias e por último a ambulância. O noia tinha me dado um tiro no ombro, passou de raspão, apenas rasgou minha camisa e fez brotar um pouco de sangue. Minhas mãos tremam. Peguei uma cerveja no freezer e comecei a beber enquanto recebia os primeiros socorros. Agradecimentos e agradecimentos, mas eu fiz merda. Matei um noia e fodi com outro. Poderia ter morrido, alguém poderia ter morrido.

Não existe boa ação sem punição.

Eu sou um filho da puta. Tive que ir embora de Uber, não poderia voltar dirigindo com aquele monte de polícia lá…