– Mano, mano, é assim. Primeiro você coloca o fumo, depois você aperta como se tivesse apertando a mão de um bebê, saca? Depois, depois você coloca um pouco mais e aperta como se tivesse apertando a mão de uma mulher.

– Você não sabe como aperta a mão de uma mulher.

– Dane-se, dane-se, ai o último você põe o fumo e aperta como se tivesse cumprimentando um homem. Ai acende, espera queimar, as brasinhas é o que você fuma.

– E depois?

– Cara, dá para fazer isso com maconha também – Richarlyson leva a chave do seu carro até o nariz e dá uma bela cheirada na pequena linha de coca, se tremelica e volta a falar – eu conheço um cara que tem da boa pra comprar, da boa mesmo. Foi com ele que eu consegui a arma.

– Arma? – não me surpreendo que o merdeiro do Richarlyson  estivesse atrás de merda.

– Daqueles “corres”, tá ligado que eu fiquei com o ferro depois que pegaram o Maicão.

Maicão parecia um gorila gordo e grande. Precisaram de quatro policiais para prender o homem, que estava ferido com um tiro.

– E você foi visitá-lo?

– Nada, posso nem passar pelas áreas senão me matam. Falando nisto – Richarlyson tira do bolso do casaco um maço de notas – aqui tem quinhentos. Se dirigir para gente te dou mais quinhentos.

Eu olho aquele monte de dinheiro, ele também me olha. Penso em tudo que eu conseguiria pagar, também penso que não pagaria nada e gastaria com putas, bebidas e cigarros. Merda de vida.

– Eu combinei de só falar se você aceitasse de cara, mas porra mano – Richarlyson  me abraça – nós somos amigos de colégio mano. Te considero, te considero mesmo. Você não vai precisar entrar, só esperar a gente. Temos o carro, o esconderijo, tudo certo. É parada pequena, vamos estourar uma lojinha de celular, um dos ex-funcionários goelou o cofre que o idiota do dono guarda a grana. É natal mano, décimo terceiro, vai estar recheado. É entrar e sair, nem quinze minutos. Mil no teu bolso por dirigir “pá nois”.

O dinheiro me olha.

– Vai dá certo – digo – que horas?

Richarlyson sorri.

Vai dá certo.

Um tiro de 38 atinge fácil 700 km/h. Richarlyson foi atingido por três. Seu parceiro morreu no lugar do assalto e eu estou a 120 km/h num FIAT uno em direção a Deus sabe aonde. O carro corta a estrada escura, está muito difícil de dirigir, algum tiro deve ter acertado algum lugar, não sei, não dá para parar e ver o que acontece. O medidor de gasolina não é o meu melhor amigo. Prepararam o carro de fuga para algo próximo, não imaginaria que eu precisaria sair do estado com Richarlyson  vazando como um porco no banco de trás. Até onde eu sei um dos tiros acertou a coxa, outro o ombro e o último no intestino, o pior lugar para se levar um tiro.

– Merda, merda, merda – eu vou morrer.

Lembrei de Cães de aluguel.

O maldito do universo conspirou para que o primo do dono do estabelecimento a ser assaltado, policial militar, estivesse por lá visitando. Quando Richarlyson  e seu parceiro invadiram o PM não pensou duas vezes em fazer a arma cantar. Apenas Richarlyson saiu do lugar, pulou no banco de trás e fui cantando pneu. Não deu tempo de chamarem a polícia, mas a adrenalina me fez voar pelo asfalto. Provavelmente sabem a placa e o modelo do carro, precisaríamos nos livrar disto. Ron (de Ronemberto) morava muito longe. Ele tinha sido do exército, sabia fazer um curativo, ou algo do tipo. Telefonei, ele nos receberia de braços abertos na clínica veterinária do seu primo.

Os rostos dos meus amigos assaltantes estavam na televisão. O Policial tratado como herói e eu com os quinhentos reais mais caros de minha vida. Como o assalto não dera certo, eu me fodi no meio. Contei a história para Ronemberto, ele nos chamou de idiotas, como iriamos assaltar o lugar desta forma.

– Seus merdas – ele disse – são uns merdas! Não planejaram uma vírgula, lógico que a parada ia dar errado.

Ronemberto pegou 10 anos de cana por um assalto mal sucedido.

Ficamos em uma pequena cabana escondido por meses. Cagando em um balde, comendo uma comida azeda de quentinhas super-baratas enquanto nos escondíamos a favor na casa de Ronemberto. Me livrei do carro, o incendiando. Tinha que ficar afastado de tudo e todos. Richarlyson  estava catatônico. Ele vira seu parceiro morrer na sua frente, em uma bala endereçada a ele. Algo havia mudado. Agora eu precisava limpar e cuidar deste meu amigo que não conseguia mais juntar duas palavras. Seus intestinos nunca mais foram os mesmos.

Espirrando como o diabo, sujo de merda e mijo.

Pensando pelo lado positivo, eu tinha quinhentos reais. Gastaria com putas, bebidas e cigarros.

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