Um dos meus filmes de comédia de zumbi favoritos (sim, isso existe) é Shaun of the Dead, ou, como é conhecido em português, “Todo Mundo Quase Morto”. Em uma das cenas mais famosas, o protagonista acorda em sua casa depois de o apocalipse zumbi ter começado, mas não percebe que isso aconteceu. Ele então sai de sua casa para sua rotina matinal comum, encontrando zumbis pelo caminho, que pensa serem mendigos, e então os ignora. Só mais tarde, quando volta para casa, é que percebe que algo de errado aconteceu.

Estou escrevendo essa introdução apenas para que entendam como o título do texto se relaciona com o resto dele. O resto que, no caso, é a minha história.

Aquele parecia um dia como outro qualquer, e, como de costume, acordei perto do horário do almoço. Estava com fome, e pensei em ir ao restaurante barato que costumava comprar – marmitas, como sempre fazia. Mas foi aí que me lembrei de que era domingo.

– Merda.

Quando se é um niilista, parece que uma das primeiras coisas que você começa a se desinteressar por contar é a passagem do tempo. O tempo é algo contínuo, do qual não podemos escapar – “time never dies*”, como eu digo em uma música – logo, a menos que haja uma diferença marcante entre os dias da semana, é fácil se perder nele (este é meio que o ponto desse texto).

No caso, eu havia acabado de voltar de férias, que passei na minha cidade de origem, e ainda não havia me acostumado novamente com o ritmo da faculdade. Outra coisa que eu havia esquecido era de que os restaurantes e lojas em geral naquela cidade não abriam aos domingos.

Nesses dias eu tinha três opções: Comer algo que houvesse comprado no dia anterior, ir até algum posto 24h que vendesse salgados, ou ir até uma das duas churrascarias que ficavam a 15 minutos a pé da minha casa. Claro que eu também poderia cozinhar, mas eu nunca tive muito interesse por isso, e digamos que a caixa onde eu morava – uma kitnet de 20m quadrados – não me estimulava muito a aprender.

Eu já havia comido salgados de almoço no dia anterior, então decidi que iria a uma das churrascarias. Estava um pouco frio. Vesti uma bermuda jeans, meus tênis de caminhada, uma camisa de manga comprida preta com capuz, minha fiel camisa flanela vermelha grunge e parti.

O único caminho até as churrascarias – e até qualquer lugar naquela cidade – era por uma rodovia federal. Eu andava pelo acostamento dela para ir pra faculdade, para o centro ou para esses restaurantes, que ficavam do outro lado. Depois de andar por alguns minutos sozinho e em silêncio, vendo os carros passando pela rodovia, eu já estava conseguindo enxergá-los.

O estacionamento da primeira churrascaria parecia completamente lotado, e eu nem pensei em tentar ir nela. “Aquele restaurante é mais famoso”, pensei, “esse deve estar cheio e o outro mais vazio”. Decidi continuar andando até o próximo.

Quando cheguei até ele, a situação parecia pior: Além do estacionamento lotado, havia uma fila de pessoas que dobrava a esquina. Aquilo não era normal.

– Que merda está acontecendo?

Eu nunca havia visto um aglomerado tão grande de pessoas naquela cidade. Na verdade, eu nem esperava que houvesse tantos moradores por lá. Eu só queria um lugar para almoçar e então voltar para o conforto da minha caixa, mas já estava começando a pensar em desistir dos restaurantes e comprar um salgado em algum lugar.

– Mesa pra doze! Liberou? – eu ouvi uma das garçonetes do local, que nesse dia pareciam trabalhar também como porteiras, dizer.

– Não, tem que esperar – a outra respondeu, depois de checar dentro do local.

– Mesa pra dez – ouvi uma pessoa dizer para uma delas, que anotou seu nome.

Quando vi a fila pela primeira vez, achei que fosse um aglomerado de vários casais individuais e que o local estivesse realmente lotado, mas então percebi que todos eles faziam parte de dois grandes grupos de pessoas que haviam ido almoçar juntos.

“Quem diabos chama dez pessoas para almoçar?”, pensei, “eu não devo ter dez pessoas nem na minha família toda”.

– Moça, tem mesa pra tipo… Um? – eu me aproximei e disse. A moça e as pessoas em volta pareceram me dar um olhar estranho.

– Um?

– É, eu estou sozinho.

– Espera aí um momentinho.

Ela abriu a porta e perguntou para outra mulher, de trás de um balcão.

– Tem mesa pra um?

– Um?

– É, ele vai comer sozinho.

Aparentemente uma mesa simples havia acabado de vagar. Comemorei mentalmente o fato de não ter outras pessoas comigo, que poderiam fazer com que minha espera demorasse ainda mais, e segui a garçonete-porteira até ela.

O local estava realmente lotado, como eu nunca havia visto antes, e eu tive que desviar de várias mesas enormes e crianças que brincavam para conseguir pegar a comida. Aquilo continuava sendo um mistério para mim, e pensei em perguntar para a garçonete-porteira se havia acontecido alguma coisa, mas quando me virei, ela já havia desaparecido para ajudar outra família a se sentar. Não me importei.

Depois de pegar a comida, me sentei sozinho em meio a todo aquele falatório, e vi que algumas pessoas da mesa ao lado pareciam olhar para mim. Achei aquilo estranho, já que eu já havia almoçado sozinho várias vezes naquele local, e não é como se fosse um rodízio japonês ou algo do tipo, onde se espera que seja sempre um evento social ou de casais – apesar de eu sempre ir sozinho – era apenas comida.

Enquanto mastigava, comecei a divagar em meus pensamentos, como costumo fazer, e várias imagens e memórias aleatórias da semana começaram a vir à minha mente. Uma delas era um post de um colega que dizia:

– Feliz dia dos pais é só para quem pagou a pensão.

Puta que pariu, é dia dos pais”, pensei.

E foi nessa hora que o Shaun dessa história percebeu que o apocalipse zumbi havia acontecido, e que todas aquelas pessoas em volta eram zumbis, e não mendigos. Eu olhei em volta e comecei a rir do tamanho da minha alienação social.

Na verdade o que eu percebi é que o motivo para praticamente a cidade inteira resolver almoçar nas únicas churrascarias que abriam no domingo – e para pessoas e garçonetes estranharem que eu estivesse sozinho – era o fato de que aquele era dia dos pais. Mas como eu disse: Quando se é um niilista (ainda mais sem pai) feriados desse tipo perdem todo o sentido.

Eu não considero que tenha um pai. Não desde os quatro anos de idade, quando ele “foi comprar cigarros” e parou de me visitar. Na verdade meus pais se divorciaram pouco antes de eu nascer, ele formou uma nova família e acho que com o tempo perdeu o interesse. Pelo menos até eu completar 18 anos, mas aí era eu que não tinha mais interesse nele.

É claro que eu poderia saber sobre esse feriado se algum de meus colegas ou familiares tivesse me lembrado, mas, quando se é um niilista, manter esse tipo de relação social também acaba perdendo o sentido. Na verdade, tudo acaba perdendo o sentido.

Eu não considero que tenha um pai, e tenho amigos que pensam igual. O abandono paterno parece ter se tornado uma pandemia atualmente. Considerando isso, e tudo o que foi narrado no texto, achei que poderia encontrar um título melhor do que “dia dos pais”, e que refletisse melhor essa situação em que tantos de nós se encontram (e não desse spoilers do final).

Preferi chamá-lo de “dia dos mortos”.

 

*Procurar por “David Conatus – Time Never Dies” no Youtube