Olha, quando eu penso na merda em que o capitalismo se tornou hoje em dia, eu até que dou razão à igreja católica por ter considerado “usura” um pecado. Claro que ela vendia pedaços de corpos de “santos”, lugares no céu e apoiou a escravidão e o nazismo, mas talvez na parte da usura ela não estivesse tão errada.

Veja o exemplo dos bancos, por exemplo. Alguém gosta de bancos? Acho que nem os donos de bancos gostam de bancos, eles só trabalham com isso por que dá dinheiro. Ou algum de vocês já quis ser bancário quando criança?

Talvez isso aconteça por que nós frequentamos escolas que nos ensinam conceitos indispensáveis para a nossa sobrevivência, como o mito da caverna, a fórmula de bhaskara ou os nomes dos afluentes do Amazonas, mas não nos ensinam como lidar com finanças ou fazer o imposto de renda. Ou talvez nós continuássemos não gostando mesmo se soubéssemos como isso tudo funciona.

Eu abri minha primeira conta em um banco com 21 anos, quando terminei minha primeira faculdade e decidi ir para a capital para trabalhar e estudar. Como eu havia me matriculado em uma pós-graduação, isso me dava o direito de abrir uma “conta universitária”, que tinha uma taxa menor, e alguns “benefícios”. E no período que eu morei lá, isso foi bom.

Mas aí várias coisas aconteceram, eu decidi largar o curso e a minha carreira, e, algum tempo depois, minha conta passou para o tipo normal de conta, com uma taxa mais alta. Quando eu completei 24 anos, no entanto, acabei decidindo fazer outra faculdade, e decidi ir até o banco pedir que minha conta voltasse a se tornar universitária, para que a taxa voltasse a ser reduzida. E é meio que aí que a história começa.

Eu fui até o banco, peguei uma senha, esperei e então falei com uma gerente que queria transformar minha conta comum em uma conta universitária.

– Ah, eu sinto muito, senhor, mas atualmente não é possível transformar uma conta comum em universitária, você precisaria fazer outra conta. A menos que a sua conta já tenha sido universitária antes.

Isso me parecia uma burocracia desnecessária feita apenas para obrigar os usuários a gastar mais dinheiro e estresse cancelando e criando outra conta, ou desistir da ideia e continuar pagando as taxas mais altas. De qualquer forma, como eu me encaixava na exceção da regra, eu apenas disse:

– Ah, então tudo bem, por que a minha conta inicialmente era assim aqui.

– Ah é? Ok, então vou fazer o pedido para eles checarem no sistema e procurarem a sua conta para ver isso, eles me dão a resposta amanhã. Aí você poderia voltar aqui amanhã para continuar o processo?

– Pode ser – “mais burocracia, mas paciência”, pensei. Mas eu estava de férias e o banco era perto da minha casa, então eu relevei.

No dia seguinte, voltei lá, peguei uma senha e falei novamente com a gerente.

– Então, eu sinto muito, mas eles não encontraram no sistema que a sua conta já foi universitária.

Meu cérebro deu uma desligada por uns dois segundos. Eu não sabia bem o que pensar. O que aquela mulher estava dizendo? Que eu estava tendo uma falsa memória? Que eu estava mentindo? Eu apenas disse:

– Mas eu tinha uma conta universitária.

– Não, nesse banco você não teve.

As pessoas muitas vezes me acham grosso ou intolerante, mas eu não entendo como elas conseguem simplesmente sair desse tipo de situação sem se estressar. Para mim isso é como você apontar para um ser com tronco, galhos, folhas e raízes e dizer “isso é uma árvore”. E aí a outra pessoa fala “não”. Como você prova para alguém que uma árvore é uma árvore se ela simplesmente diz que não é?

 – Moça, o único motivo pelo qual eu fiz uma conta em banco era por que eu havia me matriculado em uma pós graduação e iria poder pagar a taxa de estudante – eu disse.

– Hum… Você pode me dizer mais ou menos o período em que você manteve a conta dessa forma?

– Como assim? Vocês não têm o histórico da minha conta?

– Temos, mas eu vou ter que fazer outro pedido pra eles checarem o registro, e aí é mais fácil se eles já souberem o período de anos que têm que procurar.

O “período”? Eu tinha aquela conta há quatro anos, não quarenta! Eles só precisavam procurar a informação necessária em uma conta simples de quatro anos e queriam dicas? E são essas as pessoas que cuidam do dinheiro de grande parte da população brasileira?

– Tá, acho que foi em 2015.

– Ok, eu vou fazer o pedido para eles procurarem de novo. Aí teria como você retornar aqui amanhã para nós continuarmos o processo?

– …

– Senhor?

– …

No dia seguinte, voltei lá, peguei uma senha e falei novamente com a gerente.

– Tenho boas notícias, eles encontraram a sua conta, ela realmente já havia sido universitária antes. Agora eu só preciso da sua assinatura para completar o processo.

Meu cérebro desligou por uns dois segundos de novo. Eu não entendi exatamente o que aconteceu naquele processo. Ela disse para “eles”, (quem quer que esses “eles” fossem), “procurem pela conta”, e eles não a encontraram. O que ela disse para “eles” depois? “Procurem com mais empenho”? Eu assinei a merda do processo, me certificando de que ele havia sido de fato concluído, e então perguntei:

– Mas eu não entendi, como eles não encontraram antes? Eles não tinham procurado no período inteiro desde que fiz minha conta?

– Não, né? – ela disse, com sarcasmo na voz – se não eles teriam achado, você não concorda?

Aquilo foi a gota d’água. Eu havia tolerado a incompetência e/ou desonestidade daquele lugar até aquele momento, mas eu não iria tolerar ironias vindo de uma funcionária me atendendo.

– Eu não sei, me diz você – respondi – eu achei que isso era a porra de um banco, não o quarto desorganizado de um adolescente em que ele fala que não consegue encontrar as cuecas, mas aí a mãe dele entra no quarto e encontra em dois segundos.

Dessa vez, foi o cérebro dela que pareceu desligar, e ela ficou alguns segundos com a boca aberta e os olhos esbugalhados. Enfim, engoliu seco e disse:

– Senhor, por favor, fique calmo, é que acontece que é um sistema com muito usuários, e…

– Que ficam arquivados na porra de um computador, não é? Não é como se alguém tivesse que subir em escadas e procurar em um punhado de estantes como um bibliotecário. É só um sistema em que você digita palavras, e aí informações aparecem na sua frente em uma tela de cristal líquido. É tipo mágica. 500 anos atrás teriam achado que isso era mágica. Mas nós estamos em 2019, isso não é mágica, isso é real.

– Senhor, por favor, se acalme.

– Me acalmar o caralho! Não, tipo… Primeiro que banco já é uma merda: Eu só queria um lugar pra enfiar o meu dinheiro pra que eu não precisasse ficar levando ele comigo no bolso, e aí vocês já vêm com um punhado de merda de taxas e investimentos e valores mínimos e o caralho a quatro. Aí eu penso “tá bom, banco, pode pegar suas taxas, só não me enche o saco”. É tipo “você quer comer o meu cu? Pode comer o meu cu, eu não vou reclamar”.

– Senhor…

– Mas não adianta só deixar vocês comerem o meu cu, eu ainda tenho que ficar vigiando vocês pra ver se vocês não vão colocar areia nele, né? Eu não posso simplesmente me alienar como qualquer brasileiro comum e pensar “ah, não é tão ruim assim”, vocês precisam me lembrar constantemente que eu estou sendo fodido. Aposto que vocês gostam de contato visual na hora do sexo, não é?

– Senhor, o senhor precisa se retirar – eu ouvi uma voz dizer, ao meu lado, e quando olhei, o segurança que costumava ficar perto da entrada, estava ali, de pé, com cara de poucos amigos. Quando olhei em volta, percebi que outros funcionários e clientes assistiam a cena.

– Ah, tá tranquilo – eu disse, me levantando e indo em direção à saída – eu já assinei essa merda mesmo, o processo já foi concluído, eu só precisei vir aqui três vezes pra garantir.

– Agora, senhor! – o segurança disse, e me empurrou na direção da porta giratória. Antes que ele pudesse me enfiar nela, no entanto, eu consegui olhar para ele e dizer:

– Você não me empresta a sua vaselina pra eu passar também?

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