O cigarro é o melhor amigo do homem solitário. Ao fumar, você aproxima seus lábios e sussurra seus segredos para aquele pedaço de morte lenta. Ele vai te escutar e se matar, tal qual uma missão dada para o Ethan Hunt. Ele vai te escutar, ele vai guardar o seu segredo.

Tenho mais doze destes amigos no meu bolso.

Agora com o punhado de momentos nostálgicos que refletem em minha cabeça, nesta longa esperada pela condução. Período noturno, o ônibus que passa na madrugada, normalmente vamos apenas eu, o motorista e o trocador, no nosso silêncio amigável. Não se pode fumar no ônibus, mas acender um cigarro na parada é um belo sinal para chamá-lo. Ainda sim, nesta madrugada distante, tudo se torna confuso ou diferente. Apenas eu na rua, ouvindo o silêncio daqueles que dormem, na meia madrugada sem sinais de um alegre amanhecer. São que horas? Três da manhã? Nunca ousaria tirar meu celular neste deserto de aflições.

Não ousaria respirar neste mundo de morte.

Parado aqui eu me sinto uma presa, uma zebra tomando água no rio cheio de crocodilos. Sou um alvo fácil, um pequeno pedaço de bife sozinho, implorando para ser a vítima do jornal da manhã. Os jornalistas adoram quando um trabalhador morre, inversamente proporcional as lágrimas soltas pela morte do bandido. Não haverá ninguém que chorará pela mão trabalhadora morta, às 3 da manhã numa parada de ônibus na beira do inferno.

O inferno é silencioso.

Ele me olha de volta da mesma forma que eu olho para ele. Sim, ou o ônibus estava atrasado ou eu o havia perdido. Precisaria ver o dia nascer antes do sono chegar. Sim, eu havia o perdido. Talvez tivesse passado um ou dois minutos mais cedo, talvez eu tivesse me demorado um ou dois minutos a mais. A impontualidade do sistema de transporte é pontual. Me dou o tempo de mais um cigarro, e agora mais outro e os meus doze amigos se tornam dez e me vejo como um atirador ficando sem balas. No alto das 3:40 desisto. Quero perder meu status de alvo fácil. Sacrifico mais um amigo mas não o termino. Um lento carro desponta duas esquinas para o final da avenida e lentamente vem em minha direção. O silêncio é cortado por aquele motor, tal qual um rugido. Me vem a mente os olhinhos dos crocodilos deslizando na água, prestes a abocanhar a débil zebra. Com o ponto de luz vermelho em minha boca, tal qual um vaga-lume assopro a fumaça pelas narinas e o carro desliza passando por mim. Os vidros fechados o mistério em seu interior. Ele vira a esquerda e desaparece. Meu coração acelera e decido sair daquele lugar.

Viro a direita em direção a uma praça. Olho para trás e noto que o carro havia dado uma volta no quarteirão e estava passando exatamente onde tinha ficado, porém agora ele não poderia me seguir, pelo menos eu acho. Retorno para a praça que fica em frente aonde trabalho. Mendigos tomam conta do lugar como se fossem seu lar. Uns dez ou doze. Deitados nos bancos, dormindo, esperando a morte chegar. Eles são alheios a violência ou ao medo. Suas preocupações basilares são se alimentar e resistir. Como moro em uma cidade quente, o frio não os aflige, menos uma dor para a carne carcomida destas pobres almas. O demônio da madrugada não os amedronta, alias, posso dizer que são filhos deste demônio, moradores do inferno, logo nada disto que me faz temer os faz temer. Tudo é apenas dia após dia, e para eles, que não importa se é terça ou quarta, se vai estrear um filme famoso no cinema ou se o time de futebol ganhou, o amanhã é mero jogo de palavras.

Sentado no duro banco vejo o amanhecer chegar. Pouco a pouco o céu se ilumina e a luz sobrepõe as trevas. Os ônibus voltam a rotina e o dia a dia vira o dia a dia. às cinco da manhã meu ônibus volta a passar normalmente, com o céu cinza e a alma cansada retorno para minha casa.

Deixo a fome, a solidão e a tristeza para os moradores da praça.

Ligo a televisão. Só durmo com a televisão ligada. O jornaleiro diz “homem é morto em assalto na parada de ônibus nesta madrugada”

E o mundo faz suas vítimas enquanto eu durmo.