Ligue 188

Ligue 188. Você pode conversar com um voluntário do CVV ..

Com os ventos em seus cabelos ele tinha duas decisões: se jogar nos braços da morte, uma longa queda de 22 andares até o duro asfalto, ou tentar novamente. Quantas vezes ele havia tentado nos seus 22 anos? Quantos anos ele havia passado sozinho, em seu quarto, assistindo a filmes antigos, na vã sensação que aquilo seria uma companhia para sua machucada alma? Quanto tempo ele achou que seu único amigo, um cão vira-lata iria durar? Ao partir, vendo-se solitário, talvez o último salto de fé fosse a solução final para todos aqueles problemas que, sim , eram temporários.

“Que clichê.” Pensou.

Mas era, morrer era clichê, bastava estar vivo. Com o vento em seus cabelos e as lágrimas secas a sua única dúvida era o que ficaria depois disto tudo, se não havia nenhum sentido na vida, porque ele estava hesitante? O medo da morte é primordial ao ser humano, pois o salto do desconhecido, com o abismo olhando de volta, deixa de ser poético, torna-se assustador. Olhar para seus últimos minutos de vida, sabendo que encerrara ali todos os esforços da humanidade de chegar até ali. Em um microssegundo ele pensara que ancestral por ancestral sobrevivera, reproduzira, morrera até aquele dado momento onde uma linhagem milenar encontraria seu fim no duro asfalto 22 andares para baixo.

Não era tão fácil decidir.

Morrer dói?

Ele havia pensado nisto, também em outras formas que eram indolores. Ceifar a própria vida era um pensamento que vinha e voltava, de tempos em tempos. Também de tempos em tempos tudo estava bem, depois tudo estava mal. O abismo voltava a olhar para si, junto com as noites mal-dormidas, com os velhos filmes, com sua solidão, seu desajuste.

Terminara o colégio sem um único amigo, vivera os tempos de faculdade sem um único amigo, era isso, não conseguia se unir ao conjunto social, aos risos e aos prazeres de estar junto. Via o mundo com uma estranheza ímpar, sim ele gostaria de fazer parte, mas ao estar misturado menos ele sentia que fazia parte. Um lampejo de memória, no aniversário de Brenda, todos festejando e rindo, alguém chegou e dissera que algum fulano morreu. Estava doente ou algo do tipo. Em um circulo, do qual também participara, todos rezaram um pai-nosso pelo recém falecido. Pensou: se morresse também rezariam?

Não, não aconteceria. Ele não fazia parte. E logo, afastado, sozinho, ridículo, tomava o rumo de casa com sua própria humilhação. Com os sussurros da morte em seu ouvido. Aos dezessete pensara em entupir-se de remédios e desistir. Não dera certo, foi um alarme vermelho para todos aqueles que o rodeavam, mas nunca levaram tão a sério. Como diz o ditado: apenas fazem seguro depois que o carro é roubado.

Mas então seria isso? Todos os instantes de sua vida numa única decisão, se jogar, cair, morrer. Com o silêncio da sua mente e com o medo no coração talvez ali não fosse a hora, desistira. Precisava de mais uma chance, mas sabia que cedo ou tarde ele estaria ali de novo, diante da decisão mais difícil.

Ligou para sua mãe.

Disse que precisava conversar.