As coisas estão começando a mudar. Aos poucos. Ando tendo muita sorte com as coisas, sabe? Ganhei duas promoções, uma bolsa para um curso e consegui credencial para ir em um evento que eu não teria como pagar o ingresso. Tudo o que eu precisava agora era um emprego. Mas um emprego legal, algo que não vá me deixar deprimida todo dia útil depois de dois meses. Talvez eu esteja sendo exigente, mas não seria legal se todas as pessoas pudessem trabalhar em algo que gostem, ou pelo menos que não consuma a alma delas.

A gente é tão acostumado a essa vida toda planejada que quando vemos alguém que quer algo um pouco diferente achamos esquisito, ou sentimos raiva, ou não compreendemos. O curso “natural” da vida é nascer, crescer, estudar na escola durante onze anos, se você tem recursos (ou bolsa) fazer uma faculdade, se não tem arranjar um emprego (às vezes até antes de terminar os estudos), conhecer alguém, casar, ter filhos, se aposentar, tentar aproveitar o melhor da velhice e morrer.

Não é triste isso? Até mesmo em questão de faculdade ou emprego, se você não faz algo que te garanta certa reputação você é mal visto. Quando eu já estava matriculada na faculdade de Teatro, encontrei a minha professora de matemática no metrô. Fui toda contente contar a ela que tinha entrado na faculdade e quando ela soube o curso disse “Mas você é tão inteligente”. Oi? Atores e artistas em geral não são inteligente? Fale isso para os grandes autores de peças políticas, como Augusto Boal.

Não é fácil sair da “corrida dos ratos”. A gente é visto como louco, e olha que eu nem sou das mais subversivas. Calcule se eu quisesse vender minha arte na praia. Devia ser algo garantido por lei viver daquilo que te faz feliz, daquilo que faz seus olhos brilharem. Mas nada é tão simples. Eu mesma não tenho mais esperanças de viver de ser atriz. Faz muito tempo que saí da faculdade e até hoje não emplaquei em nenhuma peça. Talvez eu consiga como uma atividade de fim de semana, um hobby.

(suspiro)

O jeito é tentar seguir. Buscar se não aquilo que sonhamos, pelo menos algo que não nos faça sofrer. Afinal, somos apenas almas que vagam por aí, tentando sobreviver a mais um dia. E um dia ainda iremos acordar empolgados em uma segunda-feira.

Tomara…