Oi Janela, das madrugadas que passei debruçado em ti, espiando a vida alheia e, as vezes, imaginando como seria a fatal queda daqui tento lembrar.

Talvez lembrar para tentar esquecer.

Quando as fotos destas pessoas me saltam os olhos me fazendo lembrar dela, dela e dela. Agora na calmaria do lugar vazio em que estou. Na solidão de apenas observar o marulho da cidade. Na filosofia vã de não acreditar em nada além da própria destruição eu lembro…

Lembro do barulho da artilharia voraz, dos gritos daqueles que morreram, do cheiro da sangue e das explosões.

Lembro do caos, lembro de não saber para onde chegar. De me perguntarem o que eu quero e nenhuma resposta sábia sair de meus lábios.

E que no mês de março foi a última vez que te vi para te ver e nunca mais te sentir.

Agora apenas a janela trás a luz de lembranças, ora idiotas, ora sábias. Uma vã vontade de voltar ao fronte, afastar de mim esta enebriante monotonia. Uma sedenta vontade de perder toda a paz conquistada e pisar novamente em solo desconhecido.

– Mas tu não tens mais a idade para isso – diz a janela.

E eu concordo. Foram-se dez, quase vinte, e contando.

Mas você continua do mesmo jeito.

Aproveito os tempos de paz,

vivi os tempos de guerra.

A guerra é algo que vive na alma dos pacíficos

que utiliza o silêncio como principal arma.

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