Não sei se isso é verdade, mas um professor de história que tive no ensino fundamental contou para minha sala que Monteiro Lobato, quando era estudante, tirava 7 de propósito nas provas, por que sabia que se tirasse 10, iriam exigir mais dele, e ele não queria ter que se esforçar. Minha mãe disse que odiou esse professor por dizer isso pra mim. Isso não me surpreendeu, considerando que era exatamente o que ela fazia comigo.

Eu costumava ficar na frente do computador com meu contrabaixo no colo. Eu lia um pouco, falava com meus amigos, estudava, tocava um pouco de baixo, tudo ao mesmo tempo, na frente do computador. Eu nunca tive dificuldades na escola (com relação a notas, é claro), e isso parecia incomodar minha mãe.

Ela dizia que eu não estudava o suficiente, que nunca me via estudando, que não sabia como eu conseguia ir bem na escola. Quando eu mostrava meus boletins, ela se mostrava incrédula, e sempre buscava defeitos, as matérias em que eu havia ficado na média, ao invés de ter tirado 9 ou 10.

Enquanto isso, eu ouvia meus colegas estúpidos falarem que haviam ganhado uma bicicleta, um videogame ou uma viagem por passarem de ano sem reprovar em nenhuma matéria. Os estúpidos eram premiados por ficar na média. Eu só recebia reclamações.

Já era tarde demais para me fingir de estúpido para minha família, mas eu tive outras oportunidades de usar essa estratégia na escola, o que acabou me favorecendo.

Eu odiava as aulas de educação física. Quer dizer, eu acho que nunca tive uma aula de educação física de verdade. Tudo que eu tive foram “professores” que eram pagos para olhar alunos enquanto eles jogavam bola. E eu odiava jogar bola.

No meu ensino médio, o “professor” nem precisava se dar ao trabalho de montar times ou mandar os alunos se aquecerem, já que eles faziam isso por conta própria. Ele só precisava fazer a chamada e então se sentar em sua cadeira e esperar a morte chegar.

Ele obviamente não se importava com a educação dos alunos, mas ele não nos deixava simplesmente não fazer a aula. Isto é, a menos que você tivesse esquecido de fazer a tarefa da aula seguinte e pedisse para ele deixar você terminar na aula dele. Eu já havia visto dois alunos fazerem isso.

Eu nunca tive problemas com notas ou para entregar “tarefas” no prazo. Mas, para aquele professor, eu comecei a ter. Toda aula eu dizia para ele que havia dormido tarde e esquecido de fazer alguma tarefa, e ele então me liberava da aula e eu podia me sentar em paz. Eu era recompensado por ser estúpido.

Um dia ele até me deu uma lição de moral sobre como eu deveria me dedicar mais aos estudos, por que era irresponsável sempre deixar para fazer a tarefa nas aulas dele. Eu achei irônico.

Já na faculdade, tive um problema parecido com meu TCC.

O projeto consistia em entrevistar uma pessoa. Não sei se a pessoa que entrevistei falava demais, ou se eu era um bom entrevistador, mas consegui tudo o que precisava dela em duas sessões, e aí em uns seis meses fazendo a parte teórica, transcrição e análise, o trabalho estava praticamente pronto. Mas meu orientador não concordava.

Eu tinha reuniões semanais com ele, nas quais ele me mandava alterar detalhes insignificantes em certas palavras de algumas páginas. Eu mudava a palavra e ele falava que eu teria que reescrever a sessão para fazer sentido. Passei mais alguns meses perdendo meu tempo com isso.

Mas aí eu percebi algumas coisas: Primeiro, ele era bem ocupado, tinha outros orientandos, remarcava algumas reuniões, e por isso era tolerante quando eu não conseguia cumprir algum prazo. Segundo, nossos encontros eram nas terças, e ele pedia para que eu enviasse os escritos até sexta para ele analisar. Mas, como ele era tolerante, eu conseguia enviar para ele aos domingos sem problemas.

Eu não precisava de mais tempo, no entanto, eu apenas fazia isso por que percebi que quando eu enviava meus textos aos domingos, ele não tinha tempo de ler com calma, e dizia que estava tudo certo. Depois de certo tempo, eu passei a levar o mesmo texto várias vezes para ele ver, mas a mudanças que ele sugeria eram tão insignificantes, que ele não conseguia perceber a diferença.

Eu também faltei em algumas reuniões, e disse a ele que estava tendo dificuldades para fazer o trabalho por que tinha que estudar para as provas que se aproximavam. Ele sempre foi compreensivo, mas não conseguia deixar de pensar que estava sendo recompensado quando falhava e punido (com mais trabalho) quando fazia meu trabalho.

No final, ele ficou preocupado por que ainda havia algumas coisas que queria ter mudado, e achou que a banca reclamaria disso, mas eu acabei tirando 10, apesar das neuroses dele.

A tal frase do “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” esquece de dizer que nem sempre você é recompensado por cumprir suas responsabilidades. Talvez raramente, dependendo do que você faz. Ela também esquece de dizer que você não é obrigado a aceitar as responsabilidades que vêm com os poderes.

Mas é claro que, se as pessoas souberem dos seus poderes, vão achar que você está sendo egoísta por não estar querendo usá-los para ajudá-las, ou por não estar “atingindo todo o seu potencial”. Nenhum deles pensa que talvez você tenha um motivo para isso. Nenhum deles pensa que talvez você não dê a mínima para o seu potencial, e só queira viver uma vida tranquila.

Por isso acho que as vezes é melhor fazer como Monteiro Lobato, e não mostrar os seus “poderes”. Se o trabalho que você faz não é realizador, se ele não te estimula nem te recompensa, se você tem consciência de que o faz apenas por ser um escravo do capitalismo como todos nós, não há problema em fazer o mínimo (claro, a menos que você precise de dinheiro e/ou queira ser promovido).

Você pode se fazer de estúpido em ambientes alienantes, como no trabalho ou na escola, e usar sua criatividade para fazer algo que realmente gosta com o tempo que lhe sobra.

Em Roma, como os romanos. Na boiada, como os bois.

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