Levantei

No brilho mais tênue das noites mais escuras, eu escolho o meu lado. Não serei bom nem ruim, serei apenas fruto do meio em que cresci. Se isso fará que quem me rodeia apodreça em desgosto e amargura, paciência. Cortarei o mal pela raiz, ouvirei as vozes em minha cabeça que me mandam retalhar e impugnar o mal que absorve o mundo em suas mais obscuras descrenças

Acreditei piamente que tudo que me rodeava, quando criança, seria um sonho quente de uma noite fria. Tentei acreditar em deuses pagãos como uma figura de linguagem ou uma pura ironia. Não existe ironia quando você pretende que o sarcasmo sobreviva a tudo que é politicamente correto. Não existe política correta e meu coração, ao bater nesta manhã desejaria que tudo acabasse em treva, calor, dor, ódio e pânico.

Os fantasmas que invadem o pobre corpo da criança que, ao não saber do que acontece permite-se deliberadamente destruir seu eu interior, sua chama piloto, seu motor de ignição. Ao autodestruir-se, ao se sabotar, aquela criança, agora alcoolizada e embebecida do mais puro álcool inflamável da natureza, ateá-se fogo desejando a morte mais rápida, porem dolorosa. Tudo que ela não quer é viver neste mundo de dor. Tudo que ela quer é uma promessa que tudo, realmente tudo dure um piscar de olhos.

Agora jaz nos noticiários, as coisas mais podres que a humanidade fez. Agora morre em pedra tudo aquilo que, nunca mesmo, importou. Mulheres agredidas, homens feridos, jovens no seu leito de morte. Viver é sofrimento, meditemos sobre tais ensinamentos budistas. Claro que ao entardecer, todos nós estaremos mortos e  vivos, talvez vivendo, talvez morrendo, talvez voltando para casa e encontrando nossas esposas, estupradas, violentadas, mortas, tudo isso porque nunca deixamos a idade média para trás. Frutos do meio, animais pensantes, Descartes estava errado, penso, logo morro.