Eu já pensei seriamente em ficar um ano sem falar. Me expressar através de gestos. Descer do ônibus apenas quando alguém alheio a mim desse o sinal. Quando o cansaço mental e a frustração na vida se põe como um alerta vermelho no corpo, apenas o desejo de dormir e viver num mundo diferente, o sonhar, me deixava feliz. Quando passei por um período de desemprego eu dormi praticamente um mês inteiro. Comia uma vez por dia e dormia. Viver no mundo dos sonhos era menos doloroso que viver no mundo real. Tudo bem que nem sempre eu sonhava, mas meu corpo entendeu que eu tinha sonho.

Daí dois ídolos de minha adolescência se suicidaram e esta ideia aparecia em minha mente como pinturas amarelas em um quadro negro.

Pensava que existia a derrota patológica, ou genética. Com o tempo passando e a velhice chegando como uma doença cronica (eu tinha vinte e tantos anos) via em pessoas que se tornaram aquilo que eu queria ser uma dor pungente. Nisto, o tempo de infância também vinha a tona, todos aqueles dias solitários. A solidão que foi até a adolescência, quando todos estavam em seu primeiro relacionamento e a solidão me acompanhava. Claro que hoje eu entendo minha parcela de culpa: a solidão se torna uma boa companheira, talvez a mais fiel. Acabei acostumando e hoje me sinto melhor só, como um remédio amargo que se tornou agradável.

Algumas coisas melhoraram, mas ao pensar no passado, do qual ir para um hospício não me parecia uma ideia ruim, vejo que existiu alguma evolução, mas a loucura é algo que nunca sairá de você. Pensar em ficar calado, em dormir para sempre, ou até em suicídio são flashes que papocam em uma mente escura. A lucidez trás clareza para a eterna escuridão que invade os meus pensamentos.

Eu gostaria de voltar no tempo, conversar com meu “eu criança”. Dizer que solidão não tardaria a terminar e que aprenderia a tratar com a sociedade de maneira melhor. Que as mulheres não eram uma realidade tão distante e que existem vícios a serem evitados.

Isso acalantaria aquela alma de peixe fora d’água.

Mas não nego, com quase mais uma década completada, e ainda mais distante do meu eu esquizoide, esta loucura incauta ainda fala comigo, talvez em momentos de raiva, ou em pura angústia. É uma luta diária contra aquele que quer me fazer dormir para sempre ou silenciar.

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