Quanto tempo eu não vinha aqui…
Este muro das lamentações onde morri tantas vezes e nasci tantas outras. Foi neste quartinho onde
eu amarrei a corda e ameacei me jogar da cadeira.
Tem sangue na sala.
Antigos papéis jogados na escrivania, a caneta já bem velha não escreve mais. Alguns espelhos muito sujos onde a poeira já tomara conta de seus passados. Vi meu reflexo pálido e me vi morto ontem, morto hoje e morto amanhã.
Tem sangue no quarto.
Minhas roupas sujas ainda estão lá, espalhadas pelo chão, o cheiro do vômito antigo, e a madeira fria que continha as lembranças de meu cachorro morto.
Eu ainda sinto as mesmas angústias que antes, só que agora bem piores.
Os quadros ainda me encaram, apontam seus dedos para mim e me chamam de puramente covarde!
mas sou?
Não sei. Faz parte do crepúsculo dos deuses se tornar um deles. Não tenho Deus no coração, mas o vazio em minha mente é uma oficina para o seu oposto.
Quando as nuvens de chuva chegarem ao oposto da praia, estarei lá sem roupas.
Cairei ao chão, morrerei novamente.
O apocalipse, a mudança, serei eternamente grato por ter partido mais cedo para a terra dos esquecidos.
A poeira tomara conta de tudo, os meus antigos escritos, tudo se tornara cinza nesta massa de dor e sofrimento do qual transformei em versos.
Sento-me na cadeira da qual eu teria me jogado nos braços da dor. Lembro-me da infância feliz e dos campos verdejantes que eu vi. O riso franco dos meus amigos em um jogo de futebol, medalhas…
Um relâmpago divino em um céu arlequinal.
Mas tudo passa, e minhas memórias enfraquecem, naquela tumba do meu amanhã.
Minha paranoia.
Minha febre.
Penso em estar morrendo pouco a pouco, as vezes até desejo isso
Mas ao me afogar eu aprendo que a dor de desistir é sempre maior.
Espero que tenha volta…