Quando cheguei à essa cidade, uma das primeiras coisas que fiz foi encontrar uma biqueira. Uma amiga me recomendou que eu fosse até uma favela próxima ao centro, onde havia um pequeno mercado que vendia cerveja, cigarro, seda, entre outras coisas. Algumas casas ao lado, ela disse que haveria uma velha que ficava ali, sentada, que é com quem eu deveria falar.

– Uma velha? – perguntei rindo, enquanto fumávamos um.

– É, cara, eu também não acreditei quando me disseram. Mas eu fui lá e era ela mesmo.

Eu disse que só acreditaria vendo. No dia seguinte, fui até o local de bicicleta. A pé eu levaria 40 minutos só para chegar até o centro, mas a bicicleta que eu havia arranjado tornava as coisas mais fáceis. Segui a placa que dizia “bebida 24h” (a única da cidade) e cheguei à rua principal onde ficava a tal favela.

Eu havia dito para meus amigos que aquela cidade parecia com o velho oeste, mas eu nunca imaginei que veria algo daquele jeito: Havia uma única rua de barro no meio, e de ambos os lados dela, várias casas de madeira padronizadas, com telhado retangular, construídas uma ao lado da outra. Não fossem os dois ou três moradores que eu vi trabalhando em uma horta, eu diria que aquilo era uma verdadeira cidade fantasma.

Pedalei com dificuldade por entre os buracos, pedras e lama, da rua irregular, e cheguei até o lugar indicado. Vi mais alguns moradores me olharem, com olhar suspeito, e então vi a tal velha, sentada em um sofá, na varanda de uma das casas de madeira, ao lado de uma mulher com cabelo azul.

Eu desci da bicicleta e caminhei até elas. Estava cansado e suado, e fazia muito sol, então minha cara não estava a das melhores. Eu usava uma regata azul e bermuda preta. Me aproximei delas, as cumprimentei e disse:

– Tá tendo chá?

– Opa, tá sim, meu filho, ele vai pegar pra você.

Ela disse, e um homem saiu de dentro da casa. Ele devia ter uns vinte e poucos anos, e usava um boné vermelho. Eu disse a ele a quantidade queria, e ele voltou para dentro. A velha disse:

– Você chegou assim, vestido de azul, todo marrento… Fiquei assustada.

– Por quê? – eu perguntei, e ri. Ela respondeu, de bom humor:

– Achei que podia ser polícia.

Não entendi as razões dela para pensar isso, mas não questionei. O homem do chá estava demorando, e decidi fumar um cigarro. Peguei a caixa preta com caveiras e abertura de mola onde os guardava, e a abri para pegar um deles. Foi aí que a mulher do cabelo azul disse:

– Ei, o que é isso aí? – ela devia ter por volta da minha idade, uns 25 anos, era magra e bonita.

– Ah, é uma caixa pra guardar cigarros – eu respondi – eu coloco o maço aqui dentro, e aí ela abre quando eu aperto aqui.

– Ah, que massa.

– É bom que não amassa, molha, nem espalha o cheiro.

Enquanto eu dizia isso, o homem do boné vermelho voltou. Eu o paguei pelo produto. Me despedi dos três, e fui em direção à minha bicicleta.

– Quando precisar, é só voltar aí! – a velha me disse, simpática. Eu agradeci, subi na bicicleta e fui embora.

Eu voltei até aquele lugar mais algumas vezes, antes de encontrar um fornecedor melhor. Comparado a outras biqueiras que eu havia conhecido, a biqueira da velha não era assim tão ruim.

Eu não posso voltar lá para comprar mais de seu produto, no entanto. Isso por que eles estão mortos.

Segundo os jornais, alguém de uma facção rival da região armou uma emboscada naquela casa, e matou com mais de 10 tiros o homem do boné vermelho e a mulher do cabelo azul, assim que eles voltavam do mercado com compras. A velha aparentemente estava no quarto ao lado, e morreu do coração. Talvez aquele fosse mesmo o velho oeste.

Minha amiga disse que nesse dia havia saído de casa para ir comprar erva da velha, mas que encontrou uma amiga no ponto de ônibus e acabou ficando conversando com ela, até ver as ambulâncias passarem em direção ao local. Agora ela não quer pensar no que poderia ter acontecido se não tivesse encontrado sua amiga.

Eu não sei também, eu tive um sentimento estranho ao saber disso tudo, e achei que deveria escrever sobre isso. É estranho imaginar que pessoas com quem você conversou dias atrás não existem mais, por terem tido suas existências violentamente terminadas por outra.

Nós não voltamos lá desde então. E não falamos mais sobre isso.