Eu tinha passado por ela no ônibus. Seu vestido branco ressaltava o ar interiorano. Eu ignorei, estava com um bom livro na bolsa e o trajeto era curto, conversas no ônibus não são interessantes. Também não consegui me concentrar no livro, a paisagem estava muito boa. Consegui sentar logo que entrei, na parte traseira, do lado direito. O sono das 5 da manhã misturou minha mente e estava realmente difícil manter-se acordado. Com o trajeto de vinte minutos sem tanto trânsito mais uma quantidade de passos numa caminhada matutina misturava-se na rotina trabalhista. Já estava nesta vida a muito tempo, sabia que não ficaria nisto por mais tempo.

O sol fraco escondido nas nuvens, o cheiro de asfalto e o barulho de ir e vir dos carros enchem meus sentidos. Tomo o meu caminho e noto que a garota do vestido branco está indo na minha direção. Em sua mochila botons do Sex Pistols e do Van Gogh. Eu, quando via uma mulher, talvez o estado que ela estivesse no momento me chamasse mais a atenção do que a beleza física. É algo meio metafísico, mas os botons em contraste ao vestido branco e a aparência interiorana da garota me fizeram sentira quela sensação de explosão. Sim ela era bonita, mas tinha um algo mais.

Aumentei a velocidade do meus passos. Algo que aprendi com os homens de hoje é: aborde, ninguém tem coragem de fazer isso.

— Oi, bom dia — ela provavelmente achou que eu era um vendedor, tentei colocar o máximo de sorriso na voz, mas, ainda sim, ela me olhou amedrontada — te vi no ônibus agora e te achei muito interessante. Vi que você tem um bottom do Van Gogh e fiquei com muita vontade de te conhecer.

Ela sorriu, sem graça, e eu me apresentei.

— Prazer, Samantha — ela disse. Eu estendi a mão cordialmente e a cumprimentei como se tivesse iniciando uma venda — você está indo para a faculdade? O que você estuda?

— Psicologia.

— Sério!? Eu quis estudar psicologia no passado, fiz alguns semestres mas acabei mudando de área. Porque você começou a estudar psicologia?

— Eu sempre quis estudar a mente humana. Minha mãe queria que eu fizesse medicina, mas consegui convencê-los que era a mesma coisa.

— Você tem um jeito interiorana, aposto que não é daqui de Fortaleza.

— Sim, sou do Crato.

Ela iria atravessar a rua e nosso caminho em comum findaria. Fiz o último movimento no tabuleiro: o telefone. Na época desta conversa não havia facilidades como whatsapp.

Ela me passou o número. Tinha grandes chances de ser falso. É um movimento às cegas, mas a chance de vitória, por menor que existisse, existiam.

Calculei o horário do almoço para retornar a ligação. Seria o melhor horário para ligar sem correr o risco de parecer chato ou pegar num momento ruim. Claro que se o número fosse verdadeiro. Perguntei por Samantha e ela era, um ponto muito positivo, Cronometrei uma conversa de no máximo 8 minutos com um “call to action” ir comer alguma coisa no sair de sua faculdade.

Ela saia as 18, eu saia as 17:30.

Ela estava me esperando com aquele vestido branco. Não sorria, ela não era de sorrir muito. Fomos ao barzinho, tomamos vinho e conversamos sobre nossas vidas. Fiz mais perguntas para ela do que respondi as que ela me fez. Não sou um livro tão aberto.

— Olha, eu não planejei ficar fora até esta hora — ela disse — realmente, ninguém nunca me abordou como você me abordou. Quis saber até onde isto chegaria.

Era a terceira garrafa de vinho na noite, só a terceira.

— E aonde você quer chegar nesta noite de quarta-feira?

Ela morava com a amiga Rebeca num apê perto da faculdade. 30m² dividido para duas pessoas. Rebeca notou que Samantha estava um pouco bêbada.

— Ela tomou vinho não é?

— Sim, e dos mais baratos — ri, e estendi a mão cumprimentando-a  — prazer.

Me apresentei para Rebeca, Samantha me levou para o seu quarto e começou a me beijar. Ela não beijava muito bem, tinha um jeito que nunca fizera tantas vezes isso. Conduzi da melhor forma. Puxei seu vestido para cima deixando-a apenas de sutiã e calcinha. No calor dos beijos , com ela ainda em pé, ela me deu um suave empurrão. Existia um pouco de vergonha naqueles olhos amendoados. Seus cabelos negros e cacheados estavam colados as costas graças ao suor. O pequeno ventilador rosa não vencia o calor daquele cubículo.

— O que aconteceu? — perguntei.

— É que estou com um pouco de vergonha.

— Não precisa ter vergonha, mas se quiser que eu vá embora agora também não tem problema.

Ela segurou meu braço. Sussurrou no meu ouvido como se realmente mais alguém pudesse escutar.

— É que desde que eu cheguei aqui em Fortaleza eu não pude me depilar, então estou com muitos pelos… sabe?

Eu ri. Disse que não tinha problema. Deitei-a na cama e tirei sua calcinha. Mergulhei naquela mata atlântica.

Naquele dia Samantha nunca imaginou que gozaria ao cair da madrugada.