Estávamos sentados em um bar, conversando e bebendo, como sempre, Sid, Norman e eu. Norman havia trazido uma amiga do bar LGBT onde trabalhava como DJ naquele dia. Ela, como a maioria dos frequentadores daquele bar, era esquerdista. Norman parecia querer manter a paz entre nós, mas Sid parecia querer me provocar.

A conversa seguiu por um ponto, até que ela disse:

– O que você tem contra o comunismo?

– Nada, ué – respondi, enquanto acendia um cigarro.

– “Nada”! Sei! – Sid exclamou, parecendo já estar bêbado – como nada? Você fala merda deles o tempo todo!

– Tenho tanto contra o comunismo quanto você tem contra deus, Sid – disse, dando um gole em minha cerveja.

– Como assim? – a garota perguntou, parecendo tímida.

– O Sid e o David são ateus – Norman explicou – ele quis dizer que não tem como eles terem algo contra deus, por que não acreditam que ele exista.

– Assim como o comunismo – completei.

– Como assim? – a garota perguntou novamente – o comunismo existe!

– Claro que existe. Assim como o cristianismo ou os asatru, cada povo tem sua própria mitologia.

– Mitologia? Do que você está falando?

– Por exemplo: Os nórdicos acreditavam que o Ragnarok ia acontecer, e eles tinham que lutar e morrer para ir pra Val Halla. Os cristãos acreditam que jesus irá voltar e eles devem se preparar para o Apocalipse. Os comunistas acreditam que uma revolução socialista vai acontecer e nos levará até o comunismo, e nós devemos viver de forma a realizar essa utopia. Mas é só isso: Uma utopia. Não diferente de Val Halla ou do Paraíso.

– Você não pode estar comparando o comunismo a uma religião, não é? – a garota parecia estar ficando mais irritada. Sid parecia segurar o riso. Soltei uma baforada de cigarro e disse:

– É engraçado, ateus comunistas parecem com aquelas pessoas que zoam terraplanistas, mas acham que astrologia é aceitável.

Sid não aguentou e começou a rir. Depois ele me disse que a amiga de Norman vivia postando sobre astrologia em seu perfil. Eu já imaginava, pela forma que se vestia, e pelo resto do que sabia dela.

Norman pareceu ficar um pouco irritado, e viu que a garota ficou desconfortável, então disse:

– Se você não acredita, deixa os caras acreditarem, ué. Ninguém tá te obrigando a acreditar em nada.

– Claro que não, Norman, até por que, eles nunca fazem isso, não é? Eu já disse que não tenho problema com o comunismo, assim como não tenho problema com deus, por que ele não existe. Mas os cristãos, eles sim existem e enchem o meu saco. Assim como os comunistas também o fazem.

– Enchem o seu saco? – a garota se manifestou – você não acha que é intolerante demais?

– De jeito nenhum, eu acho que eu tolero bastante, mas tudo tem limites, não é? Por exemplo, se um asatru fica falando o tempo todo que o Ragnarok vai acontecer, ok, por que isso me importa? Se um cristão fica falando “Jesus vai voltar e você tem que ir pra igreja”, ok, é meio irritante, mas é fácil de ignorar, e ninguém leva eles mais a sério. Agora quando uma pessoa fala que por você não acreditar nas coisas que ela e não viver a vida da mesma forma que ela, você é um merda egoísta privilegiado fascista alienado que não devia existir… Aí fica meio difícil de tolerar.

Achei que aquilo iria fazer a garota me atacar com mais violência, confirmando o que eu havia acabado de dizer, mas, ao invés disso, ela pareceu ficar envergonhada, e disse, timidamente:

– Mas não é sempre assim…

Imaginei que sua timidez significasse que ela era uma das pessoas que agia assim na internet, ou pelo menos que conhecia pessoas assim, e continuei, de propósito:

– Nessas horas eu penso “porra, eu tolerei até agora esse seu delírio esquizofrênico de bosta, sem falar nada, por que aprendi a respeitar o ponto de vista dos outros… Pra aí você começar a me ofender por não ser tão retardado quanto você?” E são essas as pessoas que vêm falar de empatia, tolerância e sobre “tentar entender a visão do outro.” É uma piada.

– Já chega, David, você tá exagerando! – Norman disse – e tá generalizando, além de tudo!

– Eu estou falando com base na experiência que eu tive… No dia em que eu vivenciar uma experiência diferente, quem sabe eu não mude de opinião… Até lá, eu prefiro que os comunistas fiquem longe de mim. Até por que – olhei para a garota – o que é que vocês fazem além de ficar reclamando da vida em textões na internet?

– E como isso é diferente do que você faz?

Norman disse, e por alguns segundos, a mesa ficou em silêncio. Sid segurou o riso, e os dois com certeza acharam que iriam me calar com aquilo, mas eu já esperava que a conversa fosse chegar nesse ponto, e disse:

– Por que eu não defendo causa nenhuma. Eu não falo que sou niilista para combater o cristianismo apenas para abraçar o humanismo ou o comunismo. Eu não acredito em contos de fada. Stirner¹ estaria se revirando no túmulo se eu fizesse isso.

– E por que é que você escreve, então?

Norman perguntou. Esvaziei meu copo e me encostei na cadeira. Traguei longamente o cigarro, enquanto olhava para o céu, pensativo, até que finalmente disse:

– Sinceramente eu não sei. Vai ver é como o Rust Cohle disse: “Por que está na minha programação e eu não tenho disposição para o suicídio.”²

Norman começou a rir, junto de sua amiga, de certo achando minha fala previsível, e disse, ironicamente:

– Realmente, esse é um motivo muito melhor para se escrever textões do que o comunismo, David!

Terminei de encher novamente meu copo e dei a última tragada no cigarro. Apaguei-o no cinzeiro da mesa e respondi:

– Pelo menos é mais honesto.

 

 

¹ Max Stirner: Filósofo e escritor niilista que criticava como humanistas substituíram a ideia de um deus idealizado pela de um ser humano idealizado, e que a crença em causas sociais não era diferente da crença em ideais cristãos.

² Resposta de Rust Cohle, detetive pessimista da série True Detective, quando perguntado sobre por que continuar levantando da cama todos os dias.