Capítulo 2 – Não vemos nenhuma linha que divide o céu

Meus olhos se abriram com pesar, assim que meu pulso vibrou por causa da pulseira inteligente. Passo o dedo nela para sinalizar que acordei.

–Alexa. Falo e aguardo o som que sinaliza que a inteligência artificial me ouviu, então emendo –Bom dia.

–Bom dia, espero que tenha descansado bem essa noite, responde a Alexa com uma voz natural e bem humana por sinal.

Qual o primeiro pensamento do seu dia? Aquele, que surge a partir do momento que você toma consciência que está acordado?

A “Alexa” não tem consciência, como sou engenheiro de software de um dos maiores bancos da América latina, eu posso afirmar isso sem dúvidas, mas como pessoa, sapiens e bípede que sou, tenho minhas dúvidas de onde surge a consciência, será que um dia vou conseguir reproduzi-la em meus códigos?

Eis a grande questão, fica aí no ar.

Mas vamos voltar para o momento que noto que o meu dia começou e, geralmente é quando eu preciso levantar, e não posso demorar, se não o peso do mundo não vai deixar que eu saia da cama e, muito menos do meu quarto escuro.

O complicado de estar mentalmente adoecido, é que todos querem que você aja normal, e eu sigo em paz, assim como os cemitérios da cidade.

Uma das piores entre tantas coisas que a depressão causa e sendo um dos primeiros sintomas que sempre noto, é que essa doença tira a sua higiene.
Calma, eu explico.

Você consegue ficar dias deitado, mas não consegue levantar.

Tomar um bom banho, escovar os dentes, esses rituais simples de toda manhã, de qualquer cotidiano, parecem impossíveis de serem realizados.
Todas as manhãs são horríveis, porque você precisa fazer isso tudo para oficialmente “começar o dia”.

Então o máximo que você consegue, é se frustrar cada vez mais e mais. São dias realmente difíceis.

Tateio o criado mudo em busca das insulinas e de algumas seringas. O meu ritual matinal se inicia.

É incrível às coisas que nós, humanos, nos acostumamos.

A um ano atrás, eu virava o rosto para tirar sangue em qualquer exame que eu fizesse. Lembro do meu pai falando em minha infância:
–Se você não olhar é mais fácil, seu medo é da agulha e não dá dor.

Mal sabíamos que uns 15 anos depois, o meu ritual matinal seria se furar duas vezes, isso até o dia que eu morreria.

Depois de aplicar a insulina NPH e a R, é hora dos meus remédios; um pantoprazol para o estômago, um bup e um velifit para depressão, a noite se eu precisar, tomo um Patz para conseguir dormir.

Biologicamente meu corpo tá bem fodido para vinte e seis anos.
Quais remédios você precisa tomar para ser você meu caro leitor? para conseguir ter um dia produtivo, onde consiga trabalhar, sorrir e não se esconder dentro do seu quarto.
Nenhum?

Talvez um cigarro, ou maço?
Pode ser que seja maconha?
Ou então álcool?

Provavelmente a droga mais pesada de todas; amor?

Não, acho que não, pode ser que seja os fast foods, vai me dizer que não sabia? o negócio do mc’ donalds não é vender humbuerguer, é vender a sensação de felicidade.
BOOM! Mentes explodindo nesse instante.

É a serotonina que faz você ficar querendo mais e mais de qualquer uma dessas drogas que citei acima, e estou falando de cada uma delas, existe tantas outras que eu poderia passar o dia listando, mas não preciso, você conhece suas válvulas de escape melhor do que eu.

Às vezes me pergunto o que é felicidade, o que me move, qual o momento exato que a serotonina e dopamina vão agir e me dar um pouco de ânimo, aquele para continuar um dia depois do outro.

Mas eu não sei.

Algumas coisas acabam muito cedo, muito antes de precisarem acabar, e sinto que poderiam ter sido diferentes, muito diferentes, mas não foram.

Fica somente a saudade de um dia que não aconteceu, de um beijo tão bom, que no final, os lábios sorriram automática mente. Dizendo um para outro; me beija mais, eu quero mais de você.

Sem precisar dizer nenhuma palavra, o corpo fala.

Os olhos, o toque, o cheiro, a aceleração do peito, a respiração entre cortada, os gemidos baixinhos quando toco em pontos estratégicos do corpo.

Provavelmente se estivéssemos dispostos, se eu insistisse mais, se não fosse uma tarefa impossível eu correr atrás, se meu coração não fosse tão petrificado pelas medusas que encontrei no percurso até aqui.

Talvez, só assim pudéssemos ser um pouco felizes. Talvez assim andássemos por aí de mãos dadas, imagina que cena feliz?

A gente ia ficar curtindo a companhia um do outro, ao invés de curtir por aí com outros alguéns.

Nesses devaneios diários, às vezes me lembro de quando disse a você que eu não queria precisar procurar você em outros corpos. Hoje vejo o quão inocente eu fui. Não existia a menor possibilidade de nossos corpos se unissem para todo sempre em uníssono, em uma orgia sinfônica de amor, sexo e rock n’ roll.

Tínhamos um ao outro, mas um pássaro livre, nunca fica na gaiola.

E eu retiro o que eu disse, eu preciso encontrar outros corpos, você também e, digo mais, precisamos de outros sorrisos, outros odores, talvez outros universos, mas se um dia o acaso brincar de nos apresentar, quero só lembrar daquele “amor 3000” que te disse a última vez que nos vimos.

Se dependesse de mim, nossa alegria não seria cancelada, mas a voz que escuto diz que cheguei a estação conceição. O mood Thiago engenheiro de software irá assumir e todos meus devaneios irão sumir.
Em um, dois e três.