Sobre Livre Arbítrio e Responsabilidade

Antes de debater se o livre arbítrio é ou não real, precisamos primeiro definir o que significa ser livre. Isso não é tarefa fácil, já que acaba envolvendo outros conceitos como os de responsabilidade, autocontrole e destino. Vejamos o que alguns autores têm a dizer sobre isso.

A concepção mais comum de “liberdade”, e que as pessoas costumam usar para argumentar sua não existência, é a de que liberdade é “fazer o que quiser”. Se não posso fazer o que quero o tempo todo, não sou livre. Tomás de Aquino, no entanto, tinha outra ideia de liberdade: Simplesmente fazer o que quer quando se tem vontade é ser escravo de seus desejos. Para ele, a liberdade consistiria na disciplina, que seria a capacidade de dizer “não” a algo que se deseja muito, por que se escolhe fazer isso.

Já Sartre afirmou que o homem é condenado a ser livre. O homem tem controle e é responsável por todas as suas ações, e dizer que ele agiu por qualquer outro motivo que não pela sua própria vontade, é cometer má fé. Essa visão se aproxima da dos estoicos, que diziam que nós não temos controle sobre nada do que acontece no mundo ao nosso redor, exceto de nossas próprias escolhas, pelas quais somos responsáveis.

Esses filósofos, junto da maioria dos racionalistas e positivistas, acreditavam que o homem possuiria controle de si mesmo, e com isso, livre arbítrio. Eles consistem no lado mais numeroso de pensadores na história da filosofia, mas sempre existiram aqueles que foram contra essa ideia:

Schopenhauer foi um deles. Esse pensador se interessou por estudar não a razão, mas a vontade humana, acreditando ser este o motor das ações do homem, e diminuindo o poder que ele acreditava ter sobre si mesmo. Foi ele o autor da frase “o homem pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”. Nesse sentido, mesmo que tenhamos controle sobre nossas escolhas, tudo o que podemos fazer é escolher ir a favor ou contra ao nosso desejo, sendo que é ele, e não a razão, que têm o maior poder sobre nós.

Outros filósofos “antirracionalistas” também acabavam questionando o livre arbítrio do homem: Hume afirmou que a razão é escrava das paixões, sendo sua função apenas a de encontrar a melhor maneira para satisfazê-las. Espinoza, por sua vez, escreveu sobre o conatus, ou “potência de agir”, a energia que move o homem, e afirmou que o homem desconhece as causas reais por trás de seu comportamento, e por isso pensa que é livre.

Mas talvez o mais famoso dos filósofos a seguir essa ideia tenha sido Friedrich Nietzsche. Nietzsche afirmou que, na verdade, nos comportamos como se houvesse dois de nós, sendo um deles nossa parte consciente. A sensação de livre arbítrio acontece quando essas duas partes entram em acordo e você consegue fazer aquilo que deseja.

Por exemplo: Quando você sente vontade de comer um bolo, mas consegue resistir e seguir sua dieta, você tem a sensação de que tem controle sobre suas ações, e que, por isso, o livre arbítrio é real. Já se você tenta fazer o mesmo, mas fracassa, aí então sentirá como se não tivesse escolha, e como se forças externas mais poderosas controlassem suas ações. É interessante que nesse caso, a definição de liberdade acaba se aproximando da ideia de Tomás de Aquino.

Nietzsche afirma que, quando assumimos o crédito por uma de nossas ações, é como se um rei assumisse o crédito de uma vitória sozinho, quando na verdade todo o seu reino participou da batalha. Para o filósofo, nossas ações são causadas por constantes conflitos internos entre forças inconscientes ativas e reativas, dos quais só vemos o resultado. A ideia de liberdade, portanto, existiria pelo fato de não termos acesso direto a essas forças, que são a causa do nosso comportamento, da mesma forma que Espinoza havia escrito.

As ideias de Nietzsche foram muito utilizadas por Freud na criação da sua psicanálise, com algumas pessoas chegando a afirmar que ela seria a filosofia nietzschiana aplicada à clínica (apesar de adeptos da esquizoanálise odiarem isso). Freud chamou as forças internas de Nietzsche de “pulsões”, a vontade de potência de “desejo”, e o conatus ou força vital de libido. Para o autor, a relação entre nossa consciência e nosso inconsciente, ou nosso desejo, seria como um cavaleiro sentado sobre seu cavalo: O cavaleiro está no controle, aparentemente, mas só na medida em que o cavalo permite ser controlado.

Saindo agora do campo da filosofia, vejamos o que a ciência tem a nos oferecer sobre a ideia de livre arbítrio.

Russel K. Standish define livre arbítrio como sendo a capacidade de agir contrariamente à razão. Saber qual é a escolha mais racional a ser tomada, e, ainda assim, agir de outra forma, é possuir livre arbítrio. Pode parecer uma definição estranha, mas faz sentido quando você pensa que outros animais agem da maneira que foram programados – seja por seus instintos, seja por condicionamento – e que inteligências artificiais não conseguem agir de forma irracional, e talvez por isso sejam tão perigosas.

Mas o fato de sermos capazes de agir de maneira irracional significa que possamos escolher agir dessa forma? Ou essa decisão é simplesmente tomada por nós e nós apenas sentimos ter uma escolha?

Segundo Standish, uma das teorias evolucionistas que explica o surgimento da autoconsciência, que é o primeiro passo para o desenvolvimento da ideia de livre arbítrio, é a seleção natural, que atua na competição entre predadores e presas: Ambos os competidores possuem vantagem sobre o outro se forem capazes de prever seu comportamento, e estão em desvantagem se seus movimentos forem previsíveis. A racionalidade e os instintos tornam os comportamentos dos animais e humanos previsíveis a um observador atento, então a capacidade de agir contrário à lógica, ou até mesmo aleatoriamente, em uma situação de confronto, pode ser questão de vida ou morte.

A autoconsciência surgiria, então, da contínua autoanálise do homem sobre seu próprio comportamento e da observação do comportamento dos outros. E o homem conseguiria, portanto, refletir sobre suas próprias ações e as consequências delas no ambiente a sua volta, tornando-se cada vez mais consciente de sua própria existência no mundo.

Essa autoconsciência, diz o autor, daria a ideia errônea ao ser humano de que, só por que ele tem consciência das suas próprias ações, ele seria capaz de controlá-las. Pior do que isso, faria o ser humano acreditar que ele, sua parte consciente, é causa primária de todos os seus comportamentos.

Isso não poderia estar mais longe de ser verdade, já que além da contribuição dos filósofos e psicanalistas para a discussão, hoje possuímos o auxílio da neurologia. Essa ciência descobriu recentemente, para a surpresa e indignação de muitos, que nosso cérebro toma decisões por nós segundos antes de termos consciência delas. Isso talvez comprove a ideia defendida por fulano, já que faz da consciência um mero observador dos processos de decisão que ocorrem em nossa mente. O que acontece é que esses processos são inconscientes, e ocorrem tão rapidamente que acreditamos ser a fonte deles.

Então, ao que parece, a ideia de livre arbítrio pode ser apenas um mito. Mas como ficaria então a questão da responsabilidade sobre nossos atos? O fato de não termos liberdade nos exime dela?

Paradoxalmente não, e essa é a tragédia da existência humana que Lacan descreveu em seu seminário sobre a Angústia, ao usar da tragédia grega para explicar a condição humana. A peça escolhida por ele para análise foi Antígona, de Sófocles, a terceira parte da trilogia de Tebas, iniciada com a famosa história de Édipo, já analisada por Freud anos antes.

A peça conta a história de Antígona, filha-irmã de Édipo, que desafia o rei de Tebas, que havia proibido o sepultamento de seu irmão Polinice, mesmo sabendo que seria condenada à morte por isso. Antígona afirma não ter escolha, já que as regras sagradas, as leis não escritas dos deuses a obrigam a realizar aquela tarefa, e essas leis são maiores do que qualquer proibição de um rei mortal.

Lacan afirma que essas leis não escritas tratam-se da lei do desejo, que é aquilo que move o ser humano. Essa lei condena o indivíduo a buscar a realização do seu desejo, independente das consequências que tal busca possa lhe acarretar. Isso vai além do princípio do prazer freudiano ou de qualquer moral externa que o homem possa criar.

O ser humano, portanto, é movido pelo seu desejo, independente de sua vontade, ou de estar consciente disso. A intencionalidade ou o uso da razão são irrelevantes, já que o inconsciente do sujeito (ou o sujeito do inconsciente) se moverá, de qualquer forma, na direção de seu objeto de desejo. Por isso, para este psicanalista, assim como para Freud, estamos mais pertos de nosso desejo real – e, portanto, das forças ativas por trás de nosso comportamento – quando nossos atos falham, e não quando acertam.

Todo o processo de planejamento e deliberação de nossas ações ou falas é feito pelo nosso Eu (ego), nossa parte consciente. Mas como uma das funções do Eu é reprimir o conteúdo inconsciente perturbador, muitas ideias acabam sendo censuradas, e não chegam à nossa consciência quando estamos fazendo planos. Já quando somos surpreendidos por uma palavra dita ou um gesto feito na “hora errada”, pode ter certeza que este é o seu desejo reprimido que conseguiu se manifestar pelo lapso.

Dessa forma, mesmo que o indivíduo não tenha controle total sobre suas ações, sendo escravo de atos falhos e desejos reprimidos, e por isso não sendo totalmente livre, ainda assim, seus atos são a manifestação de seu desejo inconsciente, e portanto, ele é responsável por eles.

Essa não é uma conclusão muito animadora, mas é uma forma de aliar a ideia de livre arbítrio e responsabilidade com a do determinismo psíquico dos irracionalistas: Não somos livres, porém, somos responsáveis pelas escolhas que nosso inconsciente faz à nossa revelia.

Somos dois, como Nietzsche havia escrito. Resultados de forças internas das quais não temos conhecimento ou controle, como Schopenhauer e Espinoza haviam afirmado. Mas ainda assim, condenados à responsabilidade por nossas ações, sem direito a recorrer à má-fé, como Sartre nos ensinou.

Essa coisa de existência é realmente complicada.

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Feministas Nutella

Estávamos em um pequeno café perto da faculdade, depois da aula. Minhas colegas haviam ocupado duas mesas em uma pequena varanda que dava para a calçada, e tive que me sentar sozinho em um banco que ficava encostado na parede. Não me importei, afinal não pretendia conversar com elas. Ao invés disso peguei um livro e comecei a ler enquanto esperava o tempo passar até o começo das aulas. Não havia levado meus fones, no entanto, então fui obrigado a ouvir a conversa delas enquanto lia:

– Eu fui naquela balada no sábado – uma delas disse.

– E então? Como foi?

– Ai, eu não gostei não. Só tinha gente feia e pé rapada por lá.

– Sério?

– É. Eu achei que ia me sentir bonita perto delas, mas acabei de sentindo mais feia por estar lá.

Eu não sabia se aquelas pessoas eram bipolares ou só hipócritas, mas era sempre interessante ver como na sala de aula, durante as matérias sociais, a maioria era feminista e defensora das minorias, mas quando estavam em seus grupos na cantina ou fora de lá, eram um nojo de pessoa. Aquilo não era nenhum pouco incomum:

Um dia, logo depois de uma aula onde uma delas havia falado sobre “meu corpo, minhas regras”, nós fomos até a cantina comer alguma coisa. Estava calor, e a esmagadora maioria das garotas do campus usava shorts curtos. Apesar de eu não ver diferença nenhuma nos shorts, parece que entre elas devia haver um limite mínimo do tamanho deles, por que elas não deixavam de julgar outras garotas que usavam shorts um ou dois centímetros mais curtos. Uma delas dizia coisas como “nossa, olha aquela lá, está mostrando até a polpa da bunda, que coisa de biscate”.

Mas naquele dia, enquanto estávamos sentados em uma das mesas da cantina, uma garota gorda de outro curso passou pelo pátio. Ela usava um top, que deixava exposta sua barriga saliente, com a qual ela parecia não se importar. Uma das “feministas” da minha sala viu aquilo, e não resistiu em dizer:

– Nossa, olha aquela garota. Como que ela tem coragem de usar uma roupa daquelas?

– Verdade, né – uma outra respondeu – ela podia esconder aquilo, ninguém é obrigado a ver esse tipo de coisa.

O nível daquela estupidez me era doloroso, e eu disse:

– Então parece que o lance do “meu corpo, minhas regras”, e que ninguém deve julgar como uma mulher deve se vestir, só vale se elas forem gostosas, certo?

Elas ficaram surpresas, talvez por eu as ter contrariado, ou talvez por que o ego delas as havia feito esquecer que eu estava sentado na mesa.

– Ah, mas vai dizer que você acha aquilo bonito? – uma delas disse.

– Você fala isso, mas duvido que você iria querer ficar com ela! – a outra acrescentou, me chamando de hipócrita, e elas riram.

– Eu não tenho que achar bonito, nem que chamar ela para sair. Ela que se vista da forma que quiser. Mas se ela não segue os padrões de beleza e ainda assim se veste dessa forma, acho que vocês deviam parabenizá-la por sua coragem, e não rir pelas costas dela.

Débora era o nome de uma das garotas que estava naquela mesa, e a missão de sua vida, além de se formar na faculdade, era emagrecer. Não por motivos estéticos, é claro, pois isso seria fútil, e sim pela saúde. Ela também fazia aulas de pole dancing e vendia lingeries e artigos de sex shop, mas que também não tinham nada a ver com sexo ou sensualidade. Os artigos eram apenas para dar dinheiro extra, e a pole dancing era apenas por que “é um esporte muito difícil, que força muito os músculos do seu corpo, não tem nada de sexual naquilo”.

Ela morava na casa dos pais, em um dos condomínios mais luxuosos da cidade, e eram eles que pagavam todas suas despesas com academia, pole dancing, produtos de beleza, cabeleireira, psicóloga, gasolina, baladas e todos os gastos que tinha com seu cartão de crédito. Mas talvez seu gasto mais importante fosse com sua nutricionista, que a estava ajudando a emagrecer. Uma das dicas que a profissional havia dado a ela, foi a de que “dificultasse um pouco sua vida”, por exemplo, estacionando o carro “um pouco mais longe” da faculdade, para que assim ela tivesse que andar mais e gastasse mais calorias.

Essa era uma estratégia perigosa, no entanto, por que um dos dias em que ela fez o trajeto a pé, me disse que foi assediada no meio do caminho.

– O que aconteceu?

– Ah, eu tinha acabado de voltar do almoço, saí do carro e estava andando a avenida, e tinha um cara do outro lado da rua, acho que ele tava trabalhando na casa, era um jardineiro ou algo do tipo. Quando eu passei, ouvi ele fazendo uns “psiu”.

– “Psiu”? – perguntei.

– É, ele fez uns “psiu” umas vezes. Eu não olhei, só continuei andando, mas ele continuou fazendo até eu sair da avenida.

– Ele foi atrás de você?

– Não, ele ficou lá parado fazendo “psiu”, não disse mais nada.

“Puta assédio”, pensei. Fico revoltado quando esses machos opressores e privilegiados que não têm o ensino médio completo e que fazem um trabalho braçal de sol a sol em troca de um salário mínimo assediam as pobres burguesinhas universitárias que já têm de lidar com o sacrifício que é estacionar o carro dos pais 500 metros mais longe do portão da faculdade para queimar algumas calorias. É triste de se ver.

Alexandra era o nome de outra das garotas da mesa. Ela nunca havia se importado muito com esse tipo de coisa, mas aí começou a namorar com um advogado engajado nas causas sociais e decidiu começar a estudar assuntos sobre feminismo. E por “estudar”, eu quero dizer compartilhar textos de páginas nas redes sociais, já que não me lembro de ela ter lido sequer um livro sobre o assunto. Ela queria fazer parte daquele grupo, se identificar com ele, mas considerando sua classe social, deve ter sido difícil para ela encontrar algo do que pudesse reclamar, já que a única opressão que ela conseguiu pensar que sofria foi:

– Eu me sinto oprimida a passar maquiagem, por que acho que se eu não me arrumo, as pessoas vão olhar feio pra mim! Eu não consigo, por exemplo, ficar um dia sem tomar banho sem ficar me achando nojenta, mas os homens não têm esse problema, por que a sociedade não cobra isso deles como da gente.

As primeiras feministas, aquelas raiz, lutavam nas ruas para garantir seus direitos de voto, participação política e igualdade aos homens. E por causa disso elas eram presas, espancadas e mortas, mas isso não as impedia de lutar. Me pergunto o que elas diriam para essas feministas nutella que se sentem oprimidas a tomar banho e passar maquiagem, não por que do contrário são agredidas ou violentadas, mas por que “olham feio” para elas.

E claro, eu podia ter dito a ela que convivi a maior parte da minha vida com mulheres, e que foram elas (incluindo aquelas que estavam na mesa) que me disseram a minha vida toda que eu deveria sorrir mais, falar mais, emagrecer, fazer academia, corrigir minha postura, cortar meu cabelo, usar roupas melhores, parar de fumar, parar de beber, sair mais, transar mais, entre outras coisas. Eu podia ter dito isso, mas é claro que isso não faria diferença para nenhuma delas, já que meu cromossomo Y faz com que eu pertença à classe privilegiada e opressora, e me torna imune a qualquer tipo de cobrança ou estereótipo que a sociedade possa ter sobre os homens. Talvez por isso eu não conseguisse entender por que aquele “psiu”, era algo tão grave assim.

Na verdade eu, como homem, não deveria nem ao menos estar escrevendo esse texto, já que sou incapaz de compreender o sofrimento pelo qual todas aquelas feministas burguesas passam em toda sua vida. Mas fazer o que? Talvez eu seja apenas mais um machista opressor querendo tirar a legitimidade da causa pela qual essas heroínas lutam diariamente. Ou talvez eu só esteja cansado da hipocrisia delas.

Detento

Era uma terça feira, e como em quase todas as terças-feiras, eu estava indo para a rodoviária pegar um ônibus para São Paulo. Normalmente eu vinha direto do curso, o que me deixava tempo o suficiente apenas para comprar a passagem, almoçar e pegar ônibus, mas como eu estava de férias, eu havia almoçado em casa, e depois que comprei a passagem, fiquei um tempo sem nada para fazer na estação.

Decidi fumar um baseado.

Saí da estação, indo até uma rua sem saída deserta, um lugar que costumava ir antes, quando tinha mais tempo para isso, acendi e fumei rapidamente, olhando em volta para ver se nenhum carro ou pessoa se aproximava. Depois que senti o grau batendo, acendi um cigarro para disfarça o cheiro e voltei para a estação, indo na direção de um banco de pedra onde costumava ficar sentado fumando antes do ônibus chegar. Coloquei meus fones de ouvido e liguei em uma música qualquer, me sentei e continuei fumando e esperando o tempo passar.

Estava sentado no banco, quando o vi se aproximar. Levei a mão ao fone meio que instintivamente, por saber que não conseguiria evitar aquela conversa. Assim que o tirei, pude ouvi-lo dizer:

– Não fuma essa merda, cara! Tão jovem, tá querendo morrer?

De novo instintivamente, devo ter feito a cara de maior desprezo que consegui demonstrar e disse:

– O que você quer?

– Primeiramente sua educação – ele respondeu, de maneira firme, mas com um sorriso, não se mostrando intimidar pela minha face – posso falar com você?

– Fala.

– Então irmão, eu sou detento do presídio ali atrás, saí em indulto pro natal, mas seguinte: Não tenho dinheiro pra voltar pra casa pra ficar com a minha família. Aí pensei “pô já faz nove anos que tô preso, vou fazer o que? Vou roubar? Não, né”, aí eu tô juntando – ele me mostrou um maço com várias notas de dois reais – se você puder me ajudar…

Normalmente eu não ajudaria. Depois que havia me reconciliado com meu egoísmo e aceitado-o, eu havia decidido que não daria mais esmola quando me pedissem. Mas não sei o que foi, talvez o momento em que eu estava, talvez alguma coisa na forma como ele se impôs, talvez a visão do maço de notas de dois me fez lembrar que eu tinha várias notas de dois na carteira das quais eu queria me livrar… De qualquer forma, dei uma das notas a ele.

– Valeu. Ah, vou fumar um cigarro também – ele disse e se sentou ao meu lado no banco de pedra.

– Aí, caralho – eu disse, ao ver aquilo – estava reclamando de mim agora pouco!

Depois que disse aquilo, me lembrei que estava falando com um detento ainda cumprindo pena em uma penitenciária, e que ele já havia reclamado da minha educação, e pensei em que merda eu tinha na cabeça para falar daquele jeito com ele.

– Nah, é que você é jovem. Eu fumo desde criança – ele respondeu, tranquilamente – ei, você fuma maconha?

Ele perguntou, e percebi que ele estava olhando meus olhos e rindo. Não vi motivos para mentir.

– Fumo. Por que?

– Tu tem uma cara de maconheiro.

– Ah, é que eu estava fumando um agora pouco.

Mais uma vez me veio o pensamento à cabeça de que eu não deveria ter dito aquilo. Por que eu havia dito, afinal? Eu estava com vergonha? Querendo explicar para o presidiário que minha cara só ficava assim quando eu fumava?

– Sabe como é, né? – continuei – duas horas de viagem… Chato pra caralho… Fumar um para relaxar…

– Sei… – ele respondeu – ou, me dá um baseadinho?

– O que?

– Me dá um baseadinho.

– Ah… Eu não tenho, aquela era só uma ponta que eu terminei de fumar e joguei fora – tive de mentir. Na verdade ainda havia boa parte dele escondido no meio dos cigarros.

– Ah… – ele pareceu desanimado por alguns segundos, mas logo mudou de assunto:

– Eu fumava pra caralho antes… Ainda mais depois que fui preso.

– Ah é? Vocês fumam lá dentro?

– Se fumo? Lá é o que mais tem!

– É? – perguntei, surpreso, e olhei a hora em meu celular. O ônibus partiria em 10 minutos.

– É… Cara, se o cara receber 50 mil pra levar 50 quilos de droga pra dentro o cara leva…

– Saquei. Bom, eu vou lá que meu ônibus tá chegando – disse e levantei do banco de pedra.

– Tá certo irmão. Valeu pela ajuda e boa viagem!

– Valeu.

Respondi e segui andando em direção da plataforma de embarque.

Não me parece muito sábio deixar detentos saírem no final de ano sem terem dinheiro para chegar em casa.

Sem Ideia

Você acorda e abre os olhos: está escuro.

Não. Ainda está escuro. A janela do seu quarto dá de frente para o muro, então você nunca sabe se já é tarde ou ainda é cedo. Você olha no relógio e são 06h50 da manhã. Merda, muito cedo para escrever qualquer coisa. Mas você sabe como resolver isso.

Você pega a ponta escondida, quer dizer, guardada, você não se importa mais em esconder, entre os maços de cigarro vazio do criado mudo e sai para o quintal para fumar. Uma ponta e um cigarro, sempre um depois do outro. Volta para a cama e desmaia.

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David Conatus – Drogas, Sexo e Medicina V

Para mais músicas originais, acessem meu canal:

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David Conatus – Drogas, Sexo e Medicina V

Letra e Música por David Conatus

Todos os Direitos Reservados 2018

 

Amnésia

Acordei sobressaltado, e vi que não estava em meu quarto. Ouvi o apitar das máquinas, olhei em volta, e vi algumas pessoas deitadas em camas como a minha, todas ligadas à máquinas. Havia um tubo transparente enfiado em meu braço, mas ele não estava conectado a lugar algum, e eu sentia dores por todo o meu corpo.

“Que merda que eu estou fazendo aqui?”, pensei, olhando para o teto. Fiz a primeira coisa que me veio à cabeça, não de maneira racional, mas quase que instintiva: Levantei e abaixei meus quatro membros, um de cada vez. Perna esquerda? Ok. Perna direita? Ok. Braço direito? Ok. Braço esquerdo? Ok. “Pelo menos está tudo funcionando”, pensei. “Bom, vou ficar aqui de boa, até alguma enfermeira passar por aqui, aí eu pergunto para ela o que aconteceu”.

Meu rosto e minha mão estavam enfaixados. Eu usava uma camisola grande, sem cueca, e estava coberto por um fino lençol. Pensei que se tivesse uma ereção ali, com alguma das enfermeiras passando, seria o fim, mas então pensei que aquilo devia ser a menor das minhas preocupações.

Do meu lado direito havia várias pessoas dormindo, mas do meu lado esquerdo, apenas uma. Era um homem branco, careca, ainda vestido com as roupas corpos, apenas descalço. Seus pés estavam sujos, suas roupas eram humildes, e ele tinha um corte na cabeça com vários pontos fechando-o. Eu me perguntei o que teria acontecido com aquele homem. Seria uma facada? Uma garrafada? Seria ele perigoso? Talvez fosse apenas um acidente de moto.

Algum tempo se passou enquanto eu pensava, e uma enfermeira entrou no quarto e começou a olhar os pacientes dormindo. Quando ela se aproximou da minha cama, eu perguntei:

– Moça, você sabe o que aconteceu comigo?

Ela olhou para o meu rosto enfaixado por alguns segundos, então olhou em alguns papeis que estavam presos na borda da cama, e então disse:

– Você foi acidente de moto.

E então saiu andando rapidamente para fora do quarto. “Você foi acidente de moto”, essa frase nem ao menos fazia sentido, mas eu a entendi. “Bom, eu não tenho carta”, pensei “então devo ter sido atropelado por uma”. Mas eu não conseguia me lembrar. Fiz um esforço, mas as últimas imagens que vinham à minha cabeça eram eu saindo de casa para cortar o cabelo. Tranquei o portão, subi na minha bicicleta, desci com ela da calçada, e… Nada.

Minha família entrou no quarto um tempo depois. Pareciam bem preocupados, mas felizes em me ver acordado. Minha mãe disse que eu havia tentado cruzar a avenida na esquina da nossa casa com minha bicicleta, e uma moto me acertou no lado dela, me jogando no asfalto. Os vizinhos chamaram ela e ela estava lá quando o socorro chegou. “Mas o médico disse que você não quebrou nada”, disse. Ela disse que eles fizeram vários exames, tiraram minha roupa e me deram pontos depois que me trouxeram para o hospital. Eu não me lembrava de nada.

“Foi um milagre”, ela disse. Eu ri daquilo. Minha tia disse, mais tarde, que era meu anjo da guarda que me havia salvado. “Claro que foi”, pensei com ironia enquanto tomava um shake estranho que eles continuavam me servindo no hospital.

Tive alguns flashes de lembranças da cena de médicos ou enfermeiros me levando pelo corredor em uma cadeira de rodas, tirando minhas roupas e me colocando debaixo de um chuveiro frio. Eu estava tremendo, minha mão doía muito, e eles esfregavam um sabonete em minhas feridas, o que ardia bastante. Tirando isso, o dia correu normal. Uma enfermeira veio colocar uma fralda em mim um tempo depois. Disse que era para eu “não ficar com o bumbum de fora”. Eu estava mais preocupado era com a parte da frente, na verdade, e ela viu tudo.

No dia seguinte eu fui para casa. Eles me levaram em uma cadeira de rodas até a entrada, mas na verdade, nem era preciso. Nunca soube do motoqueiro. Minha família disse que ele havia chamado a ambulância e prestado auxílio até o final, então eles não iriam processá-lo. Meus membros estavam todos funcionando, então não me importei.

Um tempo depois, acho que no dia seguinte, estava contando para um amigo meu sobre o acontecido, e me lembrei de um sonho que havia tido no dia anterior ao acidente.

– Foi estranho, cara – eu disse – sonhei que estava deitado no asfalto quente da rua. Tinha algumas pessoas em volta, os vizinhos. Estava muito quente, mas aí senti um deles jogar água gelada de uma garrafa na minha testa, e o agradeci mentalmente por isso. Eu sentia uma dor inimaginável no meu corpo. Parecia como se cada osso do meu corpo, a parte central de cada membro e das minhas costas, doesse na mesma intensidade, e eu sentia aquilo e não conseguia me mexer, nem abrir os olhos, por causa do sol. “O que aconteceu?” perguntei. “Você sofreu um acidente”, um deles disse. “Não se levanta, o resgate já está vindo”, outro disse. “Levantar?”, eu pensei, “viado, eu não consigo nem me mexer!”.

Eu ri na hora que me lembrei dessa parte do sonho. Parecia surreal pensar naquela resposta naquela situação.

– Você falou isso para ele?

– Não, eu… Eu acho que só pensei. Aí uns bombeiros chegaram e foram me colocar na van do resgate, e eu me lembro que a dor que senti quando eles me levantaram para me colocar na maca chegou a um nível extremo. E aí eu ouvi eles fechando a porta da van. Espera aí…

– O que foi?

– Caralho, isso não foi um sonho, cara. Foi isso o que aconteceu mesmo!

Minha memória, não completamente, é claro, havia voltado, mas não da maneira que eu esperava. Eu simplesmente me lembrei de um “sonho” que havia tido antes, e voilá, lá estava ela de volta.

Eu não sei o que é mais bizarro: Você lembrar de uma dor excruciante que você tecnicamente não sentiu, mas sabe que sentiu por que as memórias dolorosas voltaram, ou pensar que quando eu estava agonizando no asfalto, a primeira resposta que seu cérebro conseguiu pensar em dar a um gentil cidadão que o estava ajudando foi com sarcasmo. Parece que o sarcasmo já virou parte de mim.

Ah não, me lembrei de algo mais bizarro do que isso. Quando disse para minha mãe que havia recuperado parte da memória, contei a ela a parte do vizinho gentil que jogou água sobre minha cara enquanto estava no asfalto quente. Quando disse aquilo, sua expressão se tornou uma de desconforto, ou até nojo, e ela disse:

– Ninguém jogou água na sua cara enquanto você estava no chão, filho – ela revelou – aquilo era seu sangue.

As vezes é bom você não lembrar de algumas coisas.

O Dia em que virei Embalsamador

Dizem que você nunca esquece o primeiro cadáver que embalsama. Mas eu não me lembro do meu. Acho que era uma velha. Mas os primeiros três ou quatro eram tão parecidos: Velhos, gordos, frios, mortos que não consigo me lembrar ao certo.

Me lembro que uma delas era fumante… As veias da perna estavam tão entupidas que a máquina não conseguia bombear o formol pra dentro do corpo. Normalmente nessa hora é quando o sangue, empurrado pela pressão da máquina, começa a jorrar pelo nariz e boca do cadáver. Mas no caso da fumante, tudo o que saiu foi um líquido preto que parecia cheio de fuligem, serragem, ou carvão.

Um dos embalsamadores teve de abrir o peito dela com um costótomo – um alicate grande que serve para cortar costelas – para drenar o resto do sangue. Ele removeu o coração e os pulmões – que estavam negros – os embebeu em formol e os colocou de volta, enchendo o resto da cavidade de serragem de madeira, o que iria impedir que qualquer resto de líquido dentro dela vazasse.

Enquanto uma das alunas limpava o rosto do defunto com uma esponja e detergente, eu fui costurar a incisão que havia sido feita em sua coxa para a injeção de fluido na artéria femoral. E vou te dizer: Rapaz, aquilo foi difícil. O excesso de gordura debaixo da pele tornava aquilo muito escorregadio. A gordura entrava entre os dedos das luvas cirúrgicas e fazia com que a agulha escorregasse e quase perfurasse minha mão.

– Nunca costurei nem roupa – eu disse, lutando com aquela pele banhada em gordura cor-de-cheddar – tinha que começar logo com ela?

– É bom que daí você já aprende no modo hard! – o professor respondeu, enquanto observava os alunos trabalhando. Eu olhei de novo para aquele líquido preto que descia pelo ralo na mesa de metal e disse:

– Então esse é o nosso futuro? – me referia ao fato de eu e ele termos acabado com um maço de cigarros em uma tarde de plantão naquela funerária.

– Isso? Filho, o pulmão dela deve estar bem melhor que o meu!

O humor dos embalsamadores era, como esperado, mórbido. Pareceu o lugar certo pra mim, depois de ter decidido abandonar minha carreira brilhante ao lado da elite intelectual paulistana, indo a congressos e cursos renomados para aumentar o meu Lattes.

O que aconteceu? Bom, pra falar a verdade eu nunca gostei muito de pessoas, mas acho que isso já deu pra notar. Muitos me disseram que seria loucura seguir uma carreira na área da saúde ou da educação sendo um misantropo. Mas eu odiava a área de exatas. Eu havia feito um curso técnico de mecânica e odiado aquilo. Então eu havia caído em um dilema: Eu odiava trabalhar com pessoas, mas também não queria trabalhar com máquinas. O que restava então?

“Corpos”, foi a resposta que me veio à cabeça no antigo apartamento em São Paulo, enquanto assistia a um filme no qual um garoto embalsamava corpos no necrotério com sua mãe. Estando em São Paulo, não foi difícil encontrar um local que oferecesse um curso disso, e eu não pensei duas vezes.

E lá estava eu, durante quatro dias, em um plantão de oito a dez horas por dia, aprendendo a milenar arte da preservação de cadáveres. Tá certo, não a milenar, eu não aprendi a arrancar o cérebro de corpos pelo nariz com uma pinça para mumificá-los (apesar de ter arrancado quilos de algodão pelo nariz com uma pinça para embalsamá-los), mas eu aprendi a como preservar um corpo e prepará-lo para uma última visita da família.

É engraçado, agora que pensei… Eros e Tanatos, sexo e morte. Eu me tornei um estudioso da sexualidade humana pela psicanálise e agora começo os estudos da morte pela tanatologia. Acho que Freud ficaria orgulhoso. E me pergunto em que resultarão todos esses estudos.