“Vocês são O Futuro. É preciso ter Esperança”

Quando Roberto entrou na faculdade, ele queria mudar o mundo. Ele sempre havia se interessado por causas sociais, e tinha a ideia de quando se formar, trabalhar no Estado, dando aula para a população carente, e com isso dar oportunidade para que minorias pudessem melhorar de vida e consequentemente, melhorar o país.

Ao invés disso, Roberto acabou dando aula em um cursinho pré-vestibular em uma escola de elite de uma grande capital do país. Seu salário era superior ao de muitos outros professores com mais tempo de trabalho do que ele, e dezenas de vezes superior ao que ele receberia trabalhando no Estado. As vezes ele se sentia culpado por ter escolhido o dinheiro ao invés das causas sociais, mas de tempos em tempos, para se justificar na sala, ele dizia aos seus alunos:

– As vezes eu queria dar aula no Estado, para populações carentes… Mas eu penso também que aqui eu posso fazer uma diferença maior, por que vocês serão os médicos, advogados e juízes do futuro, e com isso vocês poderão fazer a diferença no país. Eu estou fazendo a minha parte. É preciso ter esperança.

Aquilo normalmente era o bastante. Quando ele dizia aquilo, ele se lembrava de uma professora que havia tido no curso preparatório que fez para entrar na faculdade onde se formou. O nome dela era Carla.

Quando Carla entrou na faculdade, ela queria mudar o mundo. Sempre havia se interessado por causas sociais, e tinha a ideia de que quando se formasse, iria trabalhar no Estado, dando aula para a população carente, e com isso dar oportunidade para que as minorias pudessem melhorar de vida e, consequentemente, melhorar o país.

Ao invés disso, Carla acabou dando aula em um cursinho pré-vestibular renomado em uma grande capital do país, onde ela conheceu Roberto, um aluno que queria se formar na mesma profissão que ela, e que, assim como ela, tinha ideias de mudar o país. Carla se viu nos olhos de Roberto, e, mesmo sabendo que ela havia traído seus valores iniciais e escolhido o emprego que dava mais dinheiro ao invés daquele que ajudaria as minorias, ela viu em Carlos sua chance de redenção, e disse para si mesma:

– Eu escolhi trabalhar para os ricos, mas aqui estou fazendo a diferença. Olhe para esse aluno e todos os outros: Eles serão os profissionais do futuro, que irão fazer a diferença no país. Eu estou fazendo a minha parte. É preciso ter esperança.

Aquilo fazia com que ela se lembrasse de seus tempos na faculdade pública onde havia se formado, e de uma professora que era sua heroína, e serviu de inspiração para seu interesse pelas lutas sociais. Seu nome era Maria.

Quando Maria entrou na faculdade, ela queria mudar o mundo. Sempre havia se interessado por causas sociais, e tinha a ideia de que quando se formasse, iria trabalhar no Estado, dando aula para a população carente, e com isso dar oportunidade para que as minorias pudessem melhorar de vida e, consequentemente, melhorar o país.

Ao invés disso, como o salário era ruim, ela se especializou, fez mestrado e doutorado, e quando um concurso público saiu, ela conseguiu passar e foi lecionar em uma universidade pública de renome na capital. Ela pensou que lecionando em uma universidade pública estaria ajudando a população carente a melhorar de vida, e assim cumprindo uma função social. O problema é que quase nenhum de seus alunos vinha da população carente. A maioria deles era filho de pais ricos e haviam entrado na faculdade após fazer um curso preparatório pré-vestibular de elite, como Carla, que adorava suas aulas. Nenhum deles estava ali por não conseguir pagar uma universidade particular, e sim para ter um diploma melhor, o que daria uma vantagem na hora de conseguir um emprego que pagasse um salário melhor.

Como o emprego de Roberto. Ou de Carla. Ou da própria Maria.

Ela se sentiu meio culpada por estar traindo seus valores iniciais, mas de tempos em tempos, ela dizia para si mesma, para se justificar:

– Aqueles serão os professores do futuro. Eles poderão trabalhar para o Estado, ajudar na rede pública e ajudar as minorias a melhorar de vida. Eu estou fazendo a minha parte. É preciso ter esperança.

Maria, Carla e Roberto pregavam para seus alunos que eles deveriam escolher o caminho que servisse para melhorar o país. Maria, Carla e Roberto criticavam os alunos que diziam preferir escolher o emprego que desse mais dinheiro. Maria, Carla e Roberto escolheram o caminho que pagava mais dinheiro.

 O mundo está cheio de Marias, Carlas e Robertos: Pessoas que ao invés de sacrificarem a si mesmas pela sociedade, gentilmente cedem seu lugar na fila para os profissionais do futuro em troca de um salário melhor. Elas não precisam se sacrificar, por que você é o futuro, e fará isso no lugar delas. Elas não precisam escolher o pior emprego, que paga menos e tem piores condições, por que você é o futuro, e fará isso por elas. Deixem que você, profissional do futuro, faça aquilo que elas não querem fazer, afinal, elas estão fazendo a parte delas – e recebendo bem mais do que você por isso.

Deve ser por isso que essas pessoas falam tanto sobre ter esperança: É preciso ter esperança no futuro, nas gerações futuras, nas crianças, nos alunos. Por que a esperança que elas tinham nelas mesmas, de fazer algo para mudar no presente já morreu há muito tempo. Ou talvez nunca tenha existido.

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Liberdade de morrer

Liberdade de morrer

O dia está chegando ao fim, o céu tomado por uma tonalidade de laranja, vermelho, amarelo, todos eles misturados e presentes ali. As poucas nuvens no céu brilham refletindo os raios solares. O sol está um espetáculo à parte, descendo calmamente no horizonte, trazendo o milagre diário do universo, onde o dia se vai e a noite vem.

Hoje é 31 de dezembro, ou seja, esse é o último pôr do sol do ano, dois mil e dezessete sairá de cena e oito oportunidades de ser feliz surgirão para a maioria. Que motivador, sou quase a versão feminina de Augusto Cury com essa frase.

Nem todos contemplarão o novo ano que chegará, quando o relógio marcar 0h, e os fogos de artifício explodirem no céu, provavelmente você estará vendo esse espetáculo sem imaginar que eu levarei alguém próximo a você.

Alguns me veem como a vilã da humanidade, a carrasca que leva embora seus sonhos, o pai que bate na mãe e priva os filhos de comer os vegetais, como canta aos quatro cantos a banda Supercombo. E, talvez, eu seja tudo isso para você e para muitos, entretanto, outros me convidam para suas vidas e me chamam de salvadora. Ora, jovem leitor ou leitora, não existe uma definição para mim, eu sou o que sou, eu sou o que você imagina que sou.

Decidi escrever essa história para contar como aprendi a me apaixonar pela vida. Que entre o meme do esquilo dramático com música de suspense. Se você não conhece, pesquise no Youtube.

Sim, a famigerada morte se apaixonou pela glamorosa e espalhafatosa vida. Às vezes eu gosto de falar sobre mim na terceira pessoa, não se preocupe com isso. A predadora de sonhos apaixonou pelo que ela jamais poderia ter e insiste em roubar. Provavelmente esses pensamentos estão perturbando a sua pequena cabecinha, e infelizmente não é só a sua. Então, se você chegou até aqui e não achou essa história um grande monte de merda (o que é possível, nem todo mundo entende o requinte estilístico da escrita da Grande Morte), vou te contar o que aconteceu.

Vem, vem, oh morte

Ele já vinha me chamando a vários meses, seu nome era Romulo. Seus dias antes do esquecimento se resumiam a chorar as lágrimas de desespero e clamar para sua libertadora. A vida tinha perdido o sentido, a decepção de se esquecer de todos que ele amava o consumiu, ele se afastou de todos e de tudo, se negou a fazer os tratamentos, e passava seus dias e noites deitado em uma cama de casal, que antes abrigava seu grande amor.

Apenas um ano antes de receber o diagnóstico de Alzheimer, ele tinha perdido a esposa, uma boa mulher chamada Barbara, sua estrutura emocional, sua vida. E como ele gritou sobre seu caixão no dia 30 de dezembro de 2016. Foi difícil e triste para mim levá-la tão precocemente, na verdade, sendo bem sincero com você, nem fazia parte dos meus planos. A combinação catastrófica de álcool mais volante fez sua vítima enquanto ela atravessava a faixa.

Depois de vários meses clamando por mim, a sua hora finalmente havia chegado, não exatamente a programada, mas a que ele estipulou.

Naquela semana, ele não tinha saído do quarto uma única vez. O único momento que levantou-se da cama foi quando seus filhos Raul e Ana K foram visitá-lo. Ele os abraçou, falou que os amava, contou algumas histórias que a doença ainda não havia levado, eles riram, se emocionaram, e na hora da despedida passaram quase 30 minutos entre abraços e declarações, até parecia que eles sabiam que aquele seria o último encontro terreno deles. Não estou dizendo

Não estou dizendo que eles vão se encontrar no paraíso, inferno, sol ou qualquer outra coisa que você acredite, até porque sou ateia.

Ele preparou cada detalhe da sua partida com perfeição e cuidado. Pediu à Soraia, a empregada/cuidadora, que ela comprasse veneno de rato, pois tinha escutado barulhos estranhos nas paredes e acreditava que eram camundongos enormes. Ela não questionou, ficou até feliz por ele ter falado com ela naquele dia, mesmo que seja sobre os supostos roedores gigantes, afinal, ele raramente se comunicava com alguém.

Procurou na pilha de caixas velhas no armário, onde as coisas de sua amada estavam empacotadas o CD do Rubel e o separou, queria escutar a música preferida dela.

Todos esses detalhes foram fáceis de preparar, o que mais exigiu do seu emocional, já abalado, ele havia deixado por último, a carta de despedida, mas depois de uma longa madrugada de lágrimas, soluços e tristezas ela saiu.

*****

Quando o derradeiro dia chegou, ele ligou o rádio, colocou o CD do Rubel para tocar. Foi apertando o próximo até chegar na faixa 10, a música preferida da sua amada. Ela gostava de cantar “quando bate aquela saudade”.

Calmamente ele dirigiu-se até o armário, pegou uma caixa amarela lacrada. Na embalagem estava escrito, racumin, com destaque para as letras largas no quadrado branco no centro da embalagem que diziam: Cuidado, veneno!  Ele  tinha 50 minutos, tempo da Soraia ir até o mercado.

A dúvida antes do suicídio é algo completamente normal, muitos psicólogos dizem até que cometer tal ato é extremamente difícil, pois não fomos concebidos para tirarmos nossa própria vida, então a dúvida bate na porta de nossa mente, e temos segundos para decidir, só que no caso de Romulo, foi totalmente diferente, ele não tinha dúvidas sobre partir, tudo aconteceria como combinado, normalmente.

Minha grande surpresa foi quando ouvi ele me chamar.

– Morte, oh, Grande Morte, eu sei que você está aqui para me levar, só está esperando que eu tome o veneno. Você pode me conceber um último desejo? Eu não quero morrer sozinho!

Aquele foi o desejo mais estranho que já me fizeram. Não que me façam muitos, só pra constar. Estranho a ponto de me intrigar. Por que um homem à beira do suicídio gostaria da minha presença? Sem muito pensar a respeito, decidi atender o seu último desejo, afinal, não se pode negar esse tipo de coisa.

– Olha, isso é pouco ortodoxo, você poderia até ser excomungado da sua religião por isso, mas como sou uma morte muito boa, mereço até o céu das mortes. Será que existe? Vou atender o seu desejo, desde que você tome o veneno rápido – falei enquanto me tornava visível para ele.

– Muitíssimo obrigado, Dona Morte.

– Vamos encurtar logo esse papo de caridade. Entorna logo o veneno, porque eu tenho outras pessoas para buscar.

– Tomarei em um minuto, só vou voltar a música novamente. Espero poder encontrar com a Barbara. Eu vou, né? – falou enquanto olhava para trás esperando uma resposta.

– Olha, sendo bem sincero com você, eu não faço a menor ideia, meu trabalho é só buscar as pessoas. Onde elas vão parar, não é muito da minha conta… – falei enquanto puxava a cadeira para sentar

– Que consolador, a morte não sabe nem para onde vamos.

– Você pediu companhia e não uma guia espiritual, mas já que estamos aqui e você já gastou parte do meu tempo, por que vai se matar?

– Eu amei muito uma mulher, ela era meu caminho, minha luz, minha vida…

– Pula toda essa parte, o diagnóstico com Alzheimer, pode pular tudo isso, já conheço a triste saga de Romulo.

– Nossa que delicada e sensível.

– Disponha – falei enquanto fazia uma cara de boa menina, a morte no caso.

– A verdade é que a morte da Barbara me entristeceu e tirou muito da minha vontade de viver, mas, ainda assim, eu conseguiria continuar vivendo com as lembranças, com as memórias felizes, mas sem elas, eu não sou ninguém, me resumo a uma casca oca que respira.

– Parece uma história trágica de Shakespeare, em que os pombinhos apaixonados, desiludidos com a vida, decidem acabar com ela, só que no caso, o seu amor morreu antes. A vida é realmente muito ruim e injusta.

– Por incrível que pareça, eu não concordo com isso.

– Não? Como assim? Ela tirou tudo que você tinha, sua esposa, tudo bem que essa parte foi eu, mas não vem ao caso, e agora? Suas lembranças? Ela te deixou brincar no seu parque particular, usufruir dele, aproveitar, rir, chorar, se lembrar e agora tirou tudo de você!

Ele encarou o copo com veneno e começou a chorar, as lágrimas escorreram pelo seu rosto já úmido, quando finalmente chegaram aos lábios. Ele passou a língua sugando-as.

– Sabe de uma coisa? Você está errada. Viver é maravilhoso, a possibilidade da decepção, do sofrimento, de amar, odiar, beijar e brigar, e tudo isso existindo e acontecendo dentro de nós. Ela é egoísta, não por termos que brincar dentro das suas leis, mas, simplesmente, porque sem você, estaríamos fadados a brincar eternamente.

– Como assim? – falei enquanto me inclinava para ficar mais perto.

– Viver é maravilhoso, mas principalmente ambíguo. A mesma mão que traz a felicidade, dias ou meses depois trará a tristeza, o caos, o ódio, e sem você, morte, nós teríamos que viver nessa prisão que se torna a vida. Só existe uma coisa melhor do que a vida, e é você.

– Assim, eu sei que sou simplesmente maravilhosa. Mas me ver como Moises,  versão feminina, claro, é meio estranho.

– Sim, se você não existisse, estaríamos fadados a brincar eternamente no parque da vida, presos às mesmas coisas, e por mais clichê que pareça, passaríamos a não mais viver, mas simplesmente a cascas ocas sem emoções. É a possibilidade de morrermos que faz a vida ser interessante, na verdade, ouso dizer que a morte é o tempero diário que temos que experimentar, afinal é a possibilidade de te conhecer um dia que nos move a fazer e sermos melhores, pelo menos a maioria.

– É uma boa forma de pensar. Mas, se você acredita que morrendo agora estará com a Barbara no paraíso, isso não é meio contraditório ao seu discurso?

– Não. Temos a necessidade de pensar na vida após a morte na maioria das vezes porque estamos presos em empregos que não gostamos, relacionamentos sufocantes, vivemos vidas cheias de dogmas religiosos que nos entristecem e muitas outras coisas, mas se você decide aproveitar o momento e abandonar as prisões imaginárias, não terá problema se não existir um paraíso.

– Legal, bom discurso por sinal. Já pode ser o próximo presidente do Brasil, afinal, ninguém está aguentando aquele que não se pode ser nomeado, mas por que você vai se matar então? Não viveu toda a sua plenitude com a Barbara?

– Experimentamos de tudo, fizemos sexo de várias formas, viajamos, cantamos, dançamos, simplesmente aproveitamos plenamente nossas vidas, mas eu não quero esquecê-la e me tornar uma casca oca que só respira. Cheguei à conclusão que mesmo que eu continue respirando, ainda assim terei morrido, minha alma terá deixado meu corpo.

– Não vou dizer que entendo, mas é uma ótima forma de pensar.

Ele esticou suas mãos ao encontro das minhas, fitou calmamente e carinhosamente meus olhos e disse:

– Eu te amo, Morte, não porque tenho vontade de morrer, mas a possibilidade de encontrar com você um dia me motivou a amar mais e ser realmente feliz. E chegou a hora de você me libertar da vida, eu à amei enquanto tive a oportunidade, agora corro para minha libertadora, você.

– Você é um velho estranho e sentimental, mas espero que se existir alguma coisa depois dessa vida, você encontre com a Barbara – falei enquanto expressava um sorriso discreto

– Obrigado, Morte, por me ouvir e principalmente me libertar – falou enquanto pegava o copo de veneno e tomava.

Não adianta me perguntar se ele encontrou a Barbara, se existe uma vida após a morte, no caso depois de mim, porque eu sei menos que você e continuo não acreditando no pós-vida, mas aprendi uma coisa valiosa naquele dia, algo que me fez amar a vida. Percebi que não somos rivais, ou simplesmente opostas como negativo e positivo ou herói e vilão, somos complementares. Vocês precisam brincar no parquinho que a vida oferece, curtir, aproveitar as coisas boas e ruins e então chegará um momento na velhice, ou antes, na sua hora, que precisará transcender, romper os limites do parquinho e é nesse momento que serei sua libertadora.

Ame a vida, por mais difícil que possa parecer, ela é única e moldada especialmente para você, termino com as sábias palavras do grande Renato Russo:

“É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã”.

Best-Seller de Sangue – Capítulo 01

-Por que simplesmente não me mata agora da maneira mais dolorosa e repulsiva que consegue imaginar? – Ela vocifera

-Você sabe a resposta querida. Te matar agora seria fácil e simples demais, quero que você sofra, que suas lágrimas se transformem em rios e no fim você se afogue nele.  Sou um poeta e até minha maneira de matar produz versos que se transformam em arte viva querida.

– Você é um monstro, um monstro grotesco e tirano – Ela fala enquanto cospe em Vince

– Não minha cara, eu sou um poeta, um escritor e nada mais. Só presenteio esse mundo insipido com poesia e morte. Agora se me permite, tenho outras coisas para fazer.

*****

O tempo da seca finalmente acabou…

As doces ondas do mar da inspiração tocam a minha pele calmamente, sinto um arrepio, é tão profundo que os pêlos do meu braço se arrepiam. A cada grito de dor e desespero que ele dá, mais as águas me tocam e mais ideias surgem em minha mente.

Sinto como se estivesse saindo do meu corpo e adentrando no nirvana, como se o céu não fosse o limite, e estou subindo, subindo e subindo cada vez mais, sendo inundado de uma felicidade sem igual. Paro um minuto e respiro fundo, deixo o doce aroma do sofrimento desse homem inundar as minhas narinas, e as súplicas pela sua vida agraciarem meus ouvidos.

Como pude demorar tanto para suprir essa minha sede por sofrimento?  Já estava quase enlouquecendo, mas hoje encontrei esse pobre desgraçado que encontrou no seu sofrimento um propósito, o de me inspirar e trazer de volta as ondas.

Devo ter no máximo 10 minutos antes que ele perca a consciência e pare de me alegrar com seu sofrimento, posso me deliciar com esse tempo, quem sabe até me tocar, toda essa tensão e sofrimento está em excitando profundamente ou posso simplesmente me presentear com um grand finale.

Pego Izabel em minha bolsa, ela está perfeitamente amolada e tão reluzente a clara luz da lua que entra pelas frestas do velho barracão, não poderia finalizar essa noite com perfeição sem minha amada foice.

Calmamente chego perto do homem, seus olhos me encaram em suplica, seus lábios contraem-se e novamente uma onda de suplicas invade o lugar.

– Por favor, eu imploro, não me mata. Eu não quero morrer!

– Qual o seu nome? – Calmamente pergunto enquanto encosto meu indicador em seus lábios.

– O que?

– Qual o seu nome homem? – Pergunto mais uma vez

– Fernando Raiz. Por favor, não me mata.

– Fernando meu caro, na vida todos temos um propósito, existimos, vivemos e morremos por ele, muitos como você só enxergam o motivo de terem nascido quando a morte bate na sua porta.

– Eu não quero…

– Silêncio, ainda estou filosofando – encarei-o advertidamente

– Você por exemplo, nasceu para me inspirar, melhor dizendo, para que o seu sofrimento me levasse ao mar da inspiração meu querido, mas não se preocupe, o seu nome será eternizado no meu próximo best seller, como personagem principal.

Aproximei meu rosto do dele, senti de perto o doce aroma do desespero misturado com suor e logo em seguida passei a foice no seu pescoço, o sangue jorrou como uma cachoeira de vida, passei o dedo em uma gota que escorria pelo seu peitoral e levei a boca, que sabor agradável, melhor que o mel.

Peguei meu telefone e liguei para Luiz, meu amigo de longa data e encarregado pela limpeza após cada momento de inspiração.

– Boa noite, Luiz.

– Boa noite Vince. Em que posso ajudá-lo?

– Sei que está tarde meu bom amigo, mas preciso que você faça aquela boa e velha limpeza.

– Sem problemas. Qual o endereço?

– Você já conhece o lugar. O velho galpão de grãos.

– Perfeito Vince, pode ir para casa descansar que cuidarei de tudo.

– Muito obrigado Luiz, vou escrever, as ondas voltaram a me tocar – Disse e desliguei.

*****

Ser um escritor é um dos ofícios mais inventivos que existe, a possibilidade de comandar vidas, construir universos fictícios, e principalmente fazer pessoas reais curvarem-se diante da história que você decide contar, entretanto, não é nenhuma dessas garantias que me inspiram a escrever e criar, mas a sensação, melhor definindo, o tesão de terminar algo formidável a ponto de ser considerado uma obra de arte para os críticos.

Ah os críticos, para muitos o pior pesadelo, os tiranos que fazem duras e insensíveis críticas, mas acredito que são simples expositores de escritores medíocres, que publicam qualquer besteira que lhes vem à cabeça. Minha relação com esses requintados senhores da leitura sempre foi exemplar, arrisco-me a dizer que glamorosa, afinal é a crítica sempre positiva de cada um deles que me motiva a escrever.

Tocar meus pés no oceano da inspiração da escrita não teria sentido, ou mesmo sentir as ondas em minha pele não traria o mesmo prazer sem as críticas positivas, melhor dizendo, sem o endeusamento que recebo tudo isso seria vago.

A glória é o que me move, na verdade a glória é o que me excita a sentar na mesa e começar a criar uma história, é tão libidinoso quanto sentir uma boca quentinha encostar em sua glande.

*****

 

 

 

 

 

Dedo no gatilho

Se a vida fosse um jogo de Blackjack: você tira duas cartas e somam 18 pontos. Você para, ou desce mais uma ?

Capítulo 1 – Como deveria ser.

A chuva bate no vidro dianteiro, fazendo barulho. Ela escuta sirenes cada vez mais próximas, a fumaça do seu cigarro sobe aos céus em pequenas baforadas.

O carro que está dirigindo vai de zero a noventa e seis quilômetros por hora em sete ponto três segundos, e nesse momento está a duzentos quilômetros por hora.

Tudo que ela vê está ali e logo some, desaparece da sua visão, está realmente rápido demais, como deveria ser em uma fuga.
No som do seu Impala 67 está tocando Should I stay or should I go do The Clash, no último volume e no banco de trás está Brian, estirado e sangrando.

– Bárbara acelera caralho, estou morrendo… meu deus eu fui atingido, estou morrendo porra. – Disse Brian entre berros.

Brian estava sangrando muito, o banco traseiro era uma banheira de horror, ele precisava estancar aquilo ou iria morrer antes de chegarem ao seu esconderijo, Bárbara não estava calma, como poderia? era adrenalina pura aquilo, ela precisava ser rápida, mas tinha polícia por todo lado, chuva forte e neblina na estrada que pegara, e seu parceiro não calava a porra da boca desde que fora atingido.

– Brian, você precisa se acalmar e estacar a porra desse sangramento, somos só eu e você agora…tivemos um puta azar, Gritou Bárbara enquanto abria a porta luvas e pegava uma garrafa de Whisky já no final.

– Mas agora você precisa se concentrar em ficar vivo e me ajudar a sair dessa, então cala a porra da boca e toma essa garrafa de Jack Daniels para ver se você para de ser mulherzinha.

Brian estava pálido como um fantasma, segurando a ferida com ambas as mãos a fim de estancar o sangue, o medo estava o consumindo, mas não adiantava ter medo e ele sabia disso, olhou para baixo e era sangue demais, arrancou a garrafa da mão de Bárbara e bebeu como se fosse água, o álcool descendo por sua garganta em gargalos, fazendo-o queimar por dentro e a sensação era de puro alivio, precisava se concentrar, precisava se acalmar, pensava em como foi azarado, mas ainda estava vivo, ainda respirava e agradecia por isso, já seus outros parceiros não tiveram a mesma sorte.

Os cabelos de Bárbara esvoaçavam ao vento, enquanto o motor V8 de seis litros e setecentas, rugia na estrada e mostrava toda a potência dos seus trezentos e oitenta cavalos, a cinco mil e oitocentas rotações por minuto. O carro era rápido o suficiente para deixar os policias comendo poeira, deixando-a sempre com uma vantagem de praticamente um minuto, mas eles não desistiam, estavam em seu encalço e bárbara precisava fazer algo para despistá-los.

 

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Dedo no gatilho no Skoob

 

Áudio Drama:

Nunca tem fim

Cedo ou tarde descobrimos, que o futuro nunca foi tão incerto.

Capítulo 1 – Bater a massa.

Um, dois, três e na quarta vez que foi acertado, já sentia o gosto do sangue na boca, mas o agressor não parou e continuo no ritmo frenético de socos e cotoveladas no rosto.

Petros tentava se defender como podia, colocava os braços na frente do rosto, mas cada soco parecia ter um peso e a pressão de uma tonelada caindo sobre si, por vezes seus braços cediam e a saraivada de socos continuavam a deformar seu rosto, já fazem uns dois minutos que ele leva a sequência sem parar, seu olho esquerdo não abre mais, a cara está inchada e desfigurada, sangue sai do seu supercílio que está aberto como uma flor.

O homem tenta erguer os braços uma vez mais, e não consegue. Seus braços estão com hematomas de diversas cores e suas forças, nessa hora já se esvaíram. Ele se deu por vencido e está só aguardando que a luta acabe, mas ela não acaba, pois não é uma luta.

É um interrogatório e só terminará com uma confissão, que o sujeito se negou a dar.

Mas até aonde ele vai conseguir guardar seu segredo.

Mais uma sequência foi desferida com tanta força sobre seu rosto, que Petros perdeu a consciência.

E homem que estava sob seu tronco, gargalhou feliz enquanto arrastava o homem pelas pernas.

Conto completo com os demais capítulos disponíveis na Amazon por R$ 1,99:

Fração de segundos no Skoob

A escolhida

Assim que nasceu, a menina foi levada pelos velhos da aldeia. E como todas as outras que já tinham nascido antes dela, foi cuidadosamente examinada. Nua sobre a mesa, a começar pelos pequenos pés, ainda enrugados pelo líquido amniótico, até a cabeço, de onde foram raspados os poucos fios para que não ficasse nenhuma parte sem que mãos e olhos experientes apalpassem e esquadrinhassem. A busca estava se tornando cansativa. Anos a fio e a prometida não chegava. Os primeiros guardiões, jovens e destemidos que receberam a missão, agora anciãos, trêmulos, se agarravam numa profecia e tinham medo de começar a duvidar.
Mas, essa manhã, parecia diferente. O sol amarelado rompia as nuvens numa preguiça significante. A menina deixava-se examinar sem choro e sem protesto, como se aceitasse de antemão o destino que lhes impunham.
Atrás da pequenina orelha, um vislumbre de pele mais escura. Cochichos. Mãos nodosas apalparam, olhos neblinados de cataratas que nitidamente enxergavam o sinal. “É ela!”. E antes que pudessem se arrepender, e antes que o eco das vozes se perdessem, cobriram-lhe a cabeça para não expor o sinal divino e a levaram.
Cresceu pálida sem a luz do sol e desencantada sem a luz da lua. Sozinha no seu cubículo, tinha por brinquedo as pedrinhas que lhe ofereciam. “Brinque com elas. Ame-as. Toque-as. Brilhe-as.” Se chegassem e a encontrassem longe das pedras, não recebia as porções de comida. Aprendeu a reconhecer os ruídos bem antes que chegassem à porta. Rolava então os metais duros entre os dedos, esfregava-os na pele, lambia-os. Cheirava-os. Que mistérios teriam? Que mágica esperava que lhes fizessem? Notou que as mãos e os dedos foram se tornando calosos. Endurecidos começaram a dar formas às pedras. A primeira coisa que fez foi uma delicada bonequinha. Sua amiga. Mas tão silenciosa! Tão branca… furou o dedo num dos caquinhos e pintou-lhe a boquinha. A boneca sugou-lhe o dedo com força, corou as faces e sorriu-lhe agradecida. Naquela noite, quando chegaram os guardiões, falaram entre si entusiasmados. Rolaram a pedra vermelha nas mãos, tocaram a criança de modo imperativo, apontando-lhe o monte de pedras: Ao sair, levaram sua companheira.
Os dedos duros e ásperos da prisioneira lapidaram a noite toda. Na manhã seguinte uma fila de menininhas rodeavam-lhes os pés. Olhos abertos e faces pálidas voltadas para a translúcida menina, que sem medo, espetou os dedos e deixou o sangue cair sobre boquinhas sedentas.
Mas ao cair da tarde, entre risos entusiasmados, apertos de mãos e lágrimas de alegrias, as pequenas foram levadas embora, enfiadas em caixas e trancadas à chave.
A solidão é maior depois que se conhece companheiros. E a menina chorou pela primeira vez. E notou, então, que suas lágrimas também davam cor às suas pedras. Não vermelha. Um tom creme e suave que lhes tiravam a palidez e as embelezavam com brilho opaco. Assim chorou longamente sobre aquelas que dali a pouco teriam forma sob seus dedos fortes e ágeis.
Nos dias que se seguiram, não teve mais tempo de comer, beber e nem mesmo brincar com suas bonecas. Mal acabava uma leva, vinham-lhe roubar e presentear-lhe com novas pedras brancas e sem formas. A exaustão já estava tomando conta do seu corpo. Não vertia lágrimas e os dedos deformados clamavam por descanso. Foi então que lhe trouxeram algo diferente. Era um bloco inteiro. Duas vezes o tamanho dela mesma. Deixaram-no lá, não antes sem apontar-lhe o dedo de forma ameaçadora.
Estudou longamente o que tinha à sua frente. Pensou todos os poucos pensamentos que tinha acumulado em seus anos de solidão. E quando a decisão se concretizou, relaxou o corpo franzino e, com um sorriso pôs-se a trabalhar.
Começou pela parte de baixo e foi galgando a pedra enquanto lhe dava forma. Levou a noite toda. A manhã ainda a encontrou trabalhando. Quando finalmente desceu e contemplou sua obra, chorou. E desta vez foi de felicidade. Lavou-as com suas lágrimas quentes e salgadas, esfregando a nova forma vigorosamente. Foi doando a cor necessária e quando julgou pronta, furou mais uma vez o dedo.
Levou a gotinha aos lábios recém-formados e deixou ser sugada. Teria caído quando as forças a deixaram, mas braços fortes e maternais a apertaram contra o peito.
Quando a tarde a porta se abriu para a próxima visita e busca, uma figura poderosa os aguardava. Assim que tentaram se aproximar, mãos pétreas e dedos em ristes os afastaram. Lá fora a liberdade as esperava.