Amnésia

Acordei sobressaltado, e vi que não estava em meu quarto. Ouvi o apitar das máquinas, olhei em volta, e vi algumas pessoas deitadas em camas como a minha, todas ligadas à máquinas. Havia um tubo transparente enfiado em meu braço, mas ele não estava conectado a lugar algum, e eu sentia dores por todo o meu corpo.

“Que merda que eu estou fazendo aqui?”, pensei, olhando para o teto. Fiz a primeira coisa que me veio à cabeça, não de maneira racional, mas quase que instintiva: Levantei e abaixei meus quatro membros, um de cada vez. Perna esquerda? Ok. Perna direita? Ok. Braço direito? Ok. Braço esquerdo? Ok. “Pelo menos está tudo funcionando”, pensei. “Bom, vou ficar aqui de boa, até alguma enfermeira passar por aqui, aí eu pergunto para ela o que aconteceu”.

Meu rosto e minha mão estavam enfaixados. Eu usava uma camisola grande, sem cueca, e estava coberto por um fino lençol. Pensei que se tivesse uma ereção ali, com alguma das enfermeiras passando, seria o fim, mas então pensei que aquilo devia ser a menor das minhas preocupações.

Do meu lado direito havia várias pessoas dormindo, mas do meu lado esquerdo, apenas uma. Era um homem branco, careca, ainda vestido com as roupas corpos, apenas descalço. Seus pés estavam sujos, suas roupas eram humildes, e ele tinha um corte na cabeça com vários pontos fechando-o. Eu me perguntei o que teria acontecido com aquele homem. Seria uma facada? Uma garrafada? Seria ele perigoso? Talvez fosse apenas um acidente de moto.

Algum tempo se passou enquanto eu pensava, e uma enfermeira entrou no quarto e começou a olhar os pacientes dormindo. Quando ela se aproximou da minha cama, eu perguntei:

– Moça, você sabe o que aconteceu comigo?

Ela olhou para o meu rosto enfaixado por alguns segundos, então olhou em alguns papeis que estavam presos na borda da cama, e então disse:

– Você foi acidente de moto.

E então saiu andando rapidamente para fora do quarto. “Você foi acidente de moto”, essa frase nem ao menos fazia sentido, mas eu a entendi. “Bom, eu não tenho carta”, pensei “então devo ter sido atropelado por uma”. Mas eu não conseguia me lembrar. Fiz um esforço, mas as últimas imagens que vinham à minha cabeça eram eu saindo de casa para cortar o cabelo. Tranquei o portão, subi na minha bicicleta, desci com ela da calçada, e… Nada.

Minha família entrou no quarto um tempo depois. Pareciam bem preocupados, mas felizes em me ver acordado. Minha mãe disse que eu havia tentado cruzar a avenida na esquina da nossa casa com minha bicicleta, e uma moto me acertou no lado dela, me jogando no asfalto. Os vizinhos chamaram ela e ela estava lá quando o socorro chegou. “Mas o médico disse que você não quebrou nada”, disse. Ela disse que eles fizeram vários exames, tiraram minha roupa e me deram pontos depois que me trouxeram para o hospital. Eu não me lembrava de nada.

“Foi um milagre”, ela disse. Eu ri daquilo. Minha tia disse, mais tarde, que era meu anjo da guarda que me havia salvado. “Claro que foi”, pensei com ironia enquanto tomava um shake estranho que eles continuavam me servindo no hospital.

Tive alguns flashes de lembranças da cena de médicos ou enfermeiros me levando pelo corredor em uma cadeira de rodas, tirando minhas roupas e me colocando debaixo de um chuveiro frio. Eu estava tremendo, minha mão doía muito, e eles esfregavam um sabonete em minhas feridas, o que ardia bastante. Tirando isso, o dia correu normal. Uma enfermeira veio colocar uma fralda em mim um tempo depois. Disse que era para eu “não ficar com o bumbum de fora”. Eu estava mais preocupado era com a parte da frente, na verdade, e ela viu tudo.

No dia seguinte eu fui para casa. Eles me levaram em uma cadeira de rodas até a entrada, mas na verdade, nem era preciso. Nunca soube do motoqueiro. Minha família disse que ele havia chamado a ambulância e prestado auxílio até o final, então eles não iriam processá-lo. Meus membros estavam todos funcionando, então não me importei.

Um tempo depois, acho que no dia seguinte, estava contando para um amigo meu sobre o acontecido, e me lembrei de um sonho que havia tido no dia anterior ao acidente.

– Foi estranho, cara – eu disse – sonhei que estava deitado no asfalto quente da rua. Tinha algumas pessoas em volta, os vizinhos. Estava muito quente, mas aí senti um deles jogar água gelada de uma garrafa na minha testa, e o agradeci mentalmente por isso. Eu sentia uma dor inimaginável no meu corpo. Parecia como se cada osso do meu corpo, a parte central de cada membro e das minhas costas, doesse na mesma intensidade, e eu sentia aquilo e não conseguia me mexer, nem abrir os olhos, por causa do sol. “O que aconteceu?” perguntei. “Você sofreu um acidente”, um deles disse. “Não se levanta, o resgate já está vindo”, outro disse. “Levantar?”, eu pensei, “viado, eu não consigo nem me mexer!”.

Eu ri na hora que me lembrei dessa parte do sonho. Parecia surreal pensar naquela resposta naquela situação.

– Você falou isso para ele?

– Não, eu… Eu acho que só pensei. Aí uns bombeiros chegaram e foram me colocar na van do resgate, e eu me lembro que a dor que senti quando eles me levantaram para me colocar na maca chegou a um nível extremo. E aí eu ouvi eles fechando a porta da van. Espera aí…

– O que foi?

– Caralho, isso não foi um sonho, cara. Foi isso o que aconteceu mesmo!

Minha memória, não completamente, é claro, havia voltado, mas não da maneira que eu esperava. Eu simplesmente me lembrei de um “sonho” que havia tido antes, e voilá, lá estava ela de volta.

Eu não sei o que é mais bizarro: Você lembrar de uma dor excruciante que você tecnicamente não sentiu, mas sabe que sentiu por que as memórias dolorosas voltaram, ou pensar que quando eu estava agonizando no asfalto, a primeira resposta que seu cérebro conseguiu pensar em dar a um gentil cidadão que o estava ajudando foi com sarcasmo. Parece que o sarcasmo já virou parte de mim.

Ah não, me lembrei de algo mais bizarro do que isso. Quando disse para minha mãe que havia recuperado parte da memória, contei a ela a parte do vizinho gentil que jogou água sobre minha cara enquanto estava no asfalto quente. Quando disse aquilo, sua expressão se tornou uma de desconforto, ou até nojo, e ela disse:

– Ninguém jogou água na sua cara enquanto você estava no chão, filho – ela revelou – aquilo era seu sangue.

As vezes é bom você não lembrar de algumas coisas.

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O Dia em que virei Embalsamador

Dizem que você nunca esquece o primeiro cadáver que embalsama. Mas eu não me lembro do meu. Acho que era uma velha. Mas os primeiros três ou quatro eram tão parecidos: Velhos, gordos, frios, mortos que não consigo me lembrar ao certo.

Me lembro que uma delas era fumante… As veias da perna estavam tão entupidas que a máquina não conseguia bombear o formol pra dentro do corpo. Normalmente nessa hora é quando o sangue, empurrado pela pressão da máquina, começa a jorrar pelo nariz e boca do cadáver. Mas no caso da fumante, tudo o que saiu foi um líquido preto que parecia cheio de fuligem, serragem, ou carvão.

Um dos embalsamadores teve de abrir o peito dela com um costótomo – um alicate grande que serve para cortar costelas – para drenar o resto do sangue. Ele removeu o coração e os pulmões – que estavam negros – os embebeu em formol e os colocou de volta, enchendo o resto da cavidade de serragem de madeira, o que iria impedir que qualquer resto de líquido dentro dela vazasse.

Enquanto uma das alunas limpava o rosto do defunto com uma esponja e detergente, eu fui costurar a incisão que havia sido feita em sua coxa para a injeção de fluido na artéria femoral. E vou te dizer: Rapaz, aquilo foi difícil. O excesso de gordura debaixo da pele tornava aquilo muito escorregadio. A gordura entrava entre os dedos das luvas cirúrgicas e fazia com que a agulha escorregasse e quase perfurasse minha mão.

– Nunca costurei nem roupa – eu disse, lutando com aquela pele banhada em gordura cor-de-cheddar – tinha que começar logo com ela?

– É bom que daí você já aprende no modo hard! – o professor respondeu, enquanto observava os alunos trabalhando. Eu olhei de novo para aquele líquido preto que descia pelo ralo na mesa de metal e disse:

– Então esse é o nosso futuro? – me referia ao fato de eu e ele termos acabado com um maço de cigarros em uma tarde de plantão naquela funerária.

– Isso? Filho, o pulmão dela deve estar bem melhor que o meu!

O humor dos embalsamadores era, como esperado, mórbido. Pareceu o lugar certo pra mim, depois de ter decidido abandonar minha carreira brilhante ao lado da elite intelectual paulistana, indo a congressos e cursos renomados para aumentar o meu Lattes.

O que aconteceu? Bom, pra falar a verdade eu nunca gostei muito de pessoas, mas acho que isso já deu pra notar. Muitos me disseram que seria loucura seguir uma carreira na área da saúde ou da educação sendo um misantropo. Mas eu odiava a área de exatas. Eu havia feito um curso técnico de mecânica e odiado aquilo. Então eu havia caído em um dilema: Eu odiava trabalhar com pessoas, mas também não queria trabalhar com máquinas. O que restava então?

“Corpos”, foi a resposta que me veio à cabeça no antigo apartamento em São Paulo, enquanto assistia a um filme no qual um garoto embalsamava corpos no necrotério com sua mãe. Estando em São Paulo, não foi difícil encontrar um local que oferecesse um curso disso, e eu não pensei duas vezes.

E lá estava eu, durante quatro dias, em um plantão de oito a dez horas por dia, aprendendo a milenar arte da preservação de cadáveres. Tá certo, não a milenar, eu não aprendi a arrancar o cérebro de corpos pelo nariz com uma pinça para mumificá-los (apesar de ter arrancado quilos de algodão pelo nariz com uma pinça para embalsamá-los), mas eu aprendi a como preservar um corpo e prepará-lo para uma última visita da família.

É engraçado, agora que pensei… Eros e Tanatos, sexo e morte. Eu me tornei um estudioso da sexualidade humana pela psicanálise e agora começo os estudos da morte pela tanatologia. Acho que Freud ficaria orgulhoso. E me pergunto em que resultarão todos esses estudos.

“Nós Temos que nos Posicionar”

Era uma sexta feira, último dia de aula da semana, e os alunos da minha sala decidiram ir até um bar para relaxar. Eu não estava muito afim de ir, por que já não via mais propósito naquele tipo de socialização. Eu simplesmente não conseguia me enturmar, e não gostava do ambiente que eles frequentavam. Eu preferia bares vazios e tranquilos, onde pudesse conversar sem ter de competir ou gritar, mas eles pareciam adorar lugares barulhentos e lotados, onde você não conseguia se virar na cadeira sem acertar o cotovelo em alguém sentado na mesa de trás.

Eu não esperava grande coisa, então, mas estava afim de beber, então acabei indo com elas. Corvo estava no meio deles. Ele não era da mesma sala, mas fazia o mesmo curso, e nessa época eu ainda não o odiava. Nós fomos juntos até o local, parecendo com uma daquelas hordas de zumbis que sempre bloqueiam as calçadas e aumentam minha misantropia, escolhemos uma mesa, sentamos, e ele foi pegar a primeira rodada de bebidas.

Assim que as garrafas chegaram, começamos a beber e conversar. No começo os assuntos eram os de sempre: Falar mal dos professores e comentar alguma coisa que tivesse acontecido em alguma balada, nada pelo que eu me interessasse. Mas então eles começaram a falar sobre política. As eleições seriam no próximo domingo e a situação estava caótica. O país estava polarizado, e as pessoas estavam preferindo perder amizades e brigar com familiares do que debater racionalmente. As pessoas nunca foram muito racionais, na verdade, mas naquele ano, estavam piores.

Vários dos que estavam na mesa falaram sobre as discussões e brigas que tiveram, pessoas com quem cortaram relações e bloquearam nas redes sociais por causa das diferenças de opinião. Logo aquilo se tornou uma grande câmara de eco, já que todos da mesa tinham uma visão mais ou menos parecida, e defendiam o mesmo candidato. Aquela conversa parecia mais com um monólogo coletivo.

Os ânimos do povo estavam elevados, mas eu estava apenas bebendo e lendo algo em meu celular, até que uma hora todos ficaram em silêncio e eu ouvi chamarem meu nome:

– David?

– O que? – disse sem tirar os olhos da tela.

– Sai da bolha, cara – Corvo disse – e aí, qual é sua opinião?

“Sair da bolha”. Aquilo era irônico, considerando que aquele grupo todo estava vivendo em uma grande bolha coletiva. Talvez eles estivessem com medo de que eu a estourasse.

– Sobre o que? – perguntei.

– Porra David – todos riram – estamos falando de política, e aí, o que você acha, vai votar em quem?

– Eu acho que o voto é secreto – disse, e enchi meu copo com mais cerveja. Alguns da mesa riram, outros pareceram ficar incomodados.

– Qual é, David, você está entre amigos! Ninguém aqui vai te julgar.

Eu ri e disse:

– Somos humanos, Corvo. Julgar os outros é o que fazemos. Mas não se preocupe, eu não me importo com o julgamento de vocês.

– Então por que você não fala?

– Por que eu deveria?

– Dialética, cara! Não é isso que a gente aprende? É no choque  entre ideias opostas que você cresce.

– Bom, eu já ouvi as ideias de vocês, e eu tenho as minhas, então pode deixar que a dialética eu faço na minha cabeça.

– Mas você não contribuiu para o debate do grupo.

– É que sabe, mesmo quando eu era católico, eu não era muito fã de contribuir com a cestinha das oferendas. E também nunca doei pra instituições de caridades. Acho q o que quero dizer é que nunca fui muito fã de contribuições

– Deixa ele – Débora, uma das alunas, disse, parecendo irritada – não adianta tentar falar com intolerantes.

– Eu não sou intolerante – respondi – intolerância é você excluir alguém por causa da sua opinião, ou querer forçar a pessoa a concordar com seu ponto de vista. Você tem direito a sua opinião, e eu devo respeitá-la. Mas eu não preciso ouvi-la. Existe aquela frase “posso não concordar com você…”, mas eu acrescentaria no final: “longe de mim”.

A mesa ficou em silêncio. Eu terminei meu copo e então disse:

– E afinal, por que vocês querem saber minha opinião? Eu não sou seu chefe, nem seu empregado, nem seu namorado, nem seu terapeuta. Não sou político, professor ou formador de opinião. Estamos no mesmo nível, então minha opinião não importa. Para que precisaríamos saber a visão de mundo um do outro? Pra ter assunto para as conversas de bar? O único motivo que as pessoas dão sua opinião é para que tenham suas ideias validadas pelas outras pessoas, para que alguém diga a elas “Você está certo”. Mas vocês já têm uma mesa inteira fazendo isso, além dos seus amigos nas redes sociais, então não precisam que eu participe. Já que é assim, eu prefiro continuar lendo do que dizer o que eu penso. Afinal, nada do que vocês falaram faz a menor diferença, de qualquer forma.

– Como assim não fazemos a diferença?! – Corvo disse, parecendo realmente irritado dessa vez – você acha que o que a gente faz aqui não importa?!

– Não – respondi calmamente – essas discussões acabam sendo apenas masturbação mental. Somos apenas formigas correndo de um lado para o outro em um aquário, com a ilusão de que fazemos alguma diferença, enquanto os humanos na capital decidem o nosso futuro. Seu posicionamento não importa. Brigar com amigos e famílias tentando convertê-los ao partido político que vocês apoiam é inútil. Cada um de vocês é apenas um voto dentre centenas de milhões, e toda a manifestação política que vocês fazem nas redes sociais ou na faculdade acabam sendo vistas apenas por aqueles que já concordam com vocês, já que aqueles que discordam bloquearam ou foram bloqueados por vocês. Então é, eu acho tudo isso uma grande perda de tempo.

A mesa ficou em silêncio. Corvo ficou sem palavras. Pensei novamente em voltar a ler, mas então uma das garotas disse:

– Mas David, nós temos que nos posicionar.

– Não, não temos não. Na verdade tudo o que temos que fazer é respirar, comer, beber, excretar e dormir. O resto todo é opcional. Aliás, já que eu já comi e bebi, e estou sempre respirando, acho que vou para casa excretar e dormir. Boa sorte no domingo.

“Vocês são O Futuro. É preciso ter Esperança”

Quando Roberto entrou na faculdade, ele queria mudar o mundo. Ele sempre havia se interessado por causas sociais, e tinha a ideia de quando se formar, trabalhar no Estado, dando aula para a população carente, e com isso dar oportunidade para que minorias pudessem melhorar de vida e consequentemente, melhorar o país.

Ao invés disso, Roberto acabou dando aula em um cursinho pré-vestibular em uma escola de elite de uma grande capital do país. Seu salário era superior ao de muitos outros professores com mais tempo de trabalho do que ele, e dezenas de vezes superior ao que ele receberia trabalhando no Estado. As vezes ele se sentia culpado por ter escolhido o dinheiro ao invés das causas sociais, mas de tempos em tempos, para se justificar na sala, ele dizia aos seus alunos:

– As vezes eu queria dar aula no Estado, para populações carentes… Mas eu penso também que aqui eu posso fazer uma diferença maior, por que vocês serão os médicos, advogados e juízes do futuro, e com isso vocês poderão fazer a diferença no país. Eu estou fazendo a minha parte. É preciso ter esperança.

Aquilo normalmente era o bastante. Quando ele dizia aquilo, ele se lembrava de uma professora que havia tido no curso preparatório que fez para entrar na faculdade onde se formou. O nome dela era Carla.

Quando Carla entrou na faculdade, ela queria mudar o mundo. Sempre havia se interessado por causas sociais, e tinha a ideia de que quando se formasse, iria trabalhar no Estado, dando aula para a população carente, e com isso dar oportunidade para que as minorias pudessem melhorar de vida e, consequentemente, melhorar o país.

Ao invés disso, Carla acabou dando aula em um cursinho pré-vestibular renomado em uma grande capital do país, onde ela conheceu Roberto, um aluno que queria se formar na mesma profissão que ela, e que, assim como ela, tinha ideias de mudar o país. Carla se viu nos olhos de Roberto, e, mesmo sabendo que ela havia traído seus valores iniciais e escolhido o emprego que dava mais dinheiro ao invés daquele que ajudaria as minorias, ela viu em Carlos sua chance de redenção, e disse para si mesma:

– Eu escolhi trabalhar para os ricos, mas aqui estou fazendo a diferença. Olhe para esse aluno e todos os outros: Eles serão os profissionais do futuro, que irão fazer a diferença no país. Eu estou fazendo a minha parte. É preciso ter esperança.

Aquilo fazia com que ela se lembrasse de seus tempos na faculdade pública onde havia se formado, e de uma professora que era sua heroína, e serviu de inspiração para seu interesse pelas lutas sociais. Seu nome era Maria.

Quando Maria entrou na faculdade, ela queria mudar o mundo. Sempre havia se interessado por causas sociais, e tinha a ideia de que quando se formasse, iria trabalhar no Estado, dando aula para a população carente, e com isso dar oportunidade para que as minorias pudessem melhorar de vida e, consequentemente, melhorar o país.

Ao invés disso, como o salário era ruim, ela se especializou, fez mestrado e doutorado, e quando um concurso público saiu, ela conseguiu passar e foi lecionar em uma universidade pública de renome na capital. Ela pensou que lecionando em uma universidade pública estaria ajudando a população carente a melhorar de vida, e assim cumprindo uma função social. O problema é que quase nenhum de seus alunos vinha da população carente. A maioria deles era filho de pais ricos e haviam entrado na faculdade após fazer um curso preparatório pré-vestibular de elite, como Carla, que adorava suas aulas. Nenhum deles estava ali por não conseguir pagar uma universidade particular, e sim para ter um diploma melhor, o que daria uma vantagem na hora de conseguir um emprego que pagasse um salário melhor.

Como o emprego de Roberto. Ou de Carla. Ou da própria Maria.

Ela se sentiu meio culpada por estar traindo seus valores iniciais, mas de tempos em tempos, ela dizia para si mesma, para se justificar:

– Aqueles serão os professores do futuro. Eles poderão trabalhar para o Estado, ajudar na rede pública e ajudar as minorias a melhorar de vida. Eu estou fazendo a minha parte. É preciso ter esperança.

Maria, Carla e Roberto pregavam para seus alunos que eles deveriam escolher o caminho que servisse para melhorar o país. Maria, Carla e Roberto criticavam os alunos que diziam preferir escolher o emprego que desse mais dinheiro. Maria, Carla e Roberto escolheram o caminho que pagava mais dinheiro.

 O mundo está cheio de Marias, Carlas e Robertos: Pessoas que ao invés de sacrificarem a si mesmas pela sociedade, gentilmente cedem seu lugar na fila para os profissionais do futuro em troca de um salário melhor. Elas não precisam se sacrificar, por que você é o futuro, e fará isso no lugar delas. Elas não precisam escolher o pior emprego, que paga menos e tem piores condições, por que você é o futuro, e fará isso por elas. Deixem que você, profissional do futuro, faça aquilo que elas não querem fazer, afinal, elas estão fazendo a parte delas – e recebendo bem mais do que você por isso.

Deve ser por isso que essas pessoas falam tanto sobre ter esperança: É preciso ter esperança no futuro, nas gerações futuras, nas crianças, nos alunos. Por que a esperança que elas tinham nelas mesmas, de fazer algo para mudar no presente já morreu há muito tempo. Ou talvez nunca tenha existido.

“Sexo é Superestimado”

Eu sempre achei John meio estranho. Não no sentido comum da palavra “estranho”, pois todos meus amigos se adequariam a essa descrição, mas ele era um cara que parecia conseguir se adaptar a qualquer contexto que estivesse (apesar de, curiosamente, não conseguir terminar nenhuma faculdade). Ele parecia se dar bem tanto estando sozinho comigo, conversando sobre temas profundos e filosóficos, quanto com os zumbis, de divertindo com banalidades mundanas do dia-a-dia. Eu cheguei a achar que ele era ambivertido, um tipo mais raro de personalidade, mas um dia ele me explicou como funcionava:

– Ah, desde o ensino médio eu sempre gostei de filosofia e temas mais profundos, mas sempre que eu começava a falar as pessoas achavam chato e só queriam falar merda. Então eu resolvi que só iria falar merda com elas.

Sua escolha havia sido o oposto da minha: Eu havia percebido a mesma tendência nos zumbis, mas, ao invés de me adaptar, preferi pagar o preço da solidão e conversar sobre meus assuntos com os poucos amigos que fiz, ao invés de me misturar à horda. Nunca me arrependi.

Era noite, e eu estava esperando por ele, que iria me dar uma carona para nós irmos em um bar de zumbis. No caminho ele me disse algumas das suas ideias sobre os seres humanos serem almas iluminadas que vieram a esse mundo para evoluir, cada uma seguindo seu próprio caminho. É uma crença comum nos dias de hoje, mas eu o lembrei de um dia em que estávamos fumando um beck enquanto ele dizia coisas pornográficas para uma garota que havia conhecido no Tinder e eu perguntei por que ele falava aquelas coisas que pareciam não ser o que ele realmente pensava. Nesse dia, a resposta que ele havia me dado foi:

– Por que as pessoas são lixo. Eu falo o que elas querem ouvir para conseguir o que eu quero delas.

Quando apontei essa incoerência para ele no carro, ele disse que aquilo era a droga falando, e que aquele “não era ele”. Ele me deu outro exemplo de quando estava bêbado em um bar e sua ex namorada chegou e ele foi escroto com ela.

– No dia seguinte em pedi desculpas e disse, “o John daquela noite não era eu”, “eu não sou assim”.

Claro que aquilo não passava de má fé, mas eu estava tentando evitar fazer análises psicológicas de suas ações, já que ele não as admitia e aquilo o deixava irritado, então eu fiquei em silêncio.

O plano era dar carona para mais um amigo e ir para o tal bar. John disse que não queria fumar ou ficar bêbado naquele dia, estava querendo viver “consciente” das coisas ao redor, e “evoluir”. Nós pegamos seu amigo, Kurt, um zumbi básico, mas divertido, na casa dele e seguimos para o local.

No meio do caminho descobri que duas colegas minhas estavam no bar, e quis apresentá-las a John, já que já havia mencionado seu nome para elas e vice versa. Assim que os dois as viram sentadas em uma das mesas, disseram:

– Nossa, elas são bonitas – John disse.

– É – eu respondi.

– Você já pegou? – Kurt me perguntou, sendo previsível.

– Não – respondi.

– Mas você quer pegar?

– Não – respondi, meio irritado.

Eles pareceram achar aquilo estranho. De qualquer forma, elas não ficaram muito tempo. Nós juntamos as mesas e nos sentamos com outras pessoas que eles conheciam, e pouco tempo depois elas foram embora.

Não demorou muito e John e os outros já estavam bêbados. Uma das garotas da mesa acendeu um baseado e nós fumamos. Os planos de John já haviam ido por água abaixo, pra variar. Os assuntos foram para o lado de sexo e encontros, e ele disse:

– Essas mulheres do Tinder estão muito chatas, velho! Você olha o perfil de uma delas e vê o que? Que querem romance e andar de mãos dadas? Tinder não foi feito pra isso! Eu não quero isso, eu quero só alguém pra usar uma droga e foder sem compromisso!

Todos riram. A válvula já havia sido desligada.

Um tempo depois eu saí para fumar um cigarro. John me seguiu, pedindo um, e me perguntou se eu havia me irritado com a fala de Kurt sobre minhas colegas.

– Não, eu não ligo para o fato de “pegar” ou não. O que me incomoda é que parece que existe um tipo de válvula na sua cabeça que, enquanto estamos juntos você é um puta filósofo, mas aí quando entra mulher no meio, você e o Kurt viram dois animais burros que só querem trepar. Aí no dia seguinte a consciência volta, você se arrepende e fica pensando no que está fazendo com a sua vida.

Ele riu e concordou. Disse que era assim mesmo, e então disse:

– Mas um amigo meu, muito sábio, já disse: Tudo o que você faz na vida é pra comer alguém.

Eu ri.

– Essa deve ser uma das coisas mais idiotas que você já disse – respondi – e olha que já foram várias.

– Por que? Não é isso que Freud fala?

– Freud? Não. O que ele diz é que todo prazer que nós sentimos com a arte, a ciência, religião e outras coisas são uma sublimação do desejo sexual. Mas não quer dizer que por que “o carro é um símbolo fálico para o homem” você, ao invés de ter um carro, tem que sair mostrando seu pau por aí. Eu prefiro o que meu amigo disse, mesmo que piada, uma vez: “O sexo é superestimado”.

– O que? – ele riu, e quase engasgou com o cigarro.

– Sexo são hormônios, cara. Liberados no seu sangue. Não é diferente de comer algo gostoso, no sentido literal, cheirar pó, fumar um beck ou bater punheta: Você goza e depois acaba. Não existe nada de grandioso nisso. Aqueles que se vangloriam dizendo “Comi fulana”, “transo muito”, “sou ‘transudo”? Parabéns, quer dizer que depois de milhões de anos de evolução da espécie, você se tornou tão foda quanto um coelho, que só sabe comer, cagar e foder. Não tem sentido nenhum nisso.

– Você está é com inveja, por que não come ninguém – ele disse, mais sério.

– E você reduz todo o potencial humano a uma foda. O Clóvis* mesmo disse, cara, falando sobre a felicidade humana: Um gato é um gato. Ele está feliz quando suas necessidades básicas estão satisfeitas. Ele sente tesão, fome ou frio, e quando trepa, come e se aquece, está feliz. Mas nós não somos gato. Nós não temos instintos, nós precisamos de mais do que isso para viver bem. Nós temos um intelecto que nos permitiu levar o homem para a Lua e combater doenças. Agora se você quer passar o resto da sua vida vivendo como um porco, isso é problema seu.

– Você é muito chato, cara – ele disse, agora visivelmente irritado.

– Nah, eu só sou sincero – Eu respondi. Meus planos de reprimir minhas análises psicológicas para não causar essa situação também haviam ido por água abaixo. Agora era tarde para voltar atrás.

– Tá bom, espertão – ele riu com desprezo – volta a falar comigo quando você conseguir ser mais humilde – aquilo parecia piada, já que John era uma das pessoas mais arrogantes e menos humildes que eu conhecia.

– Claro, e você volte a falar comigo quando a válvula da sua consciência voltar a funcionar e você quiser falar de coisas mais interessantes. Mas não venha com aquele papo de “ah, por que eu faço isso?”, “o que estou fazendo com a minha vida?”, por que eu já cansei do seu ciclo hedonista-masoquista de repetição.

– Vai pro inferno, cara – ele disse e voltou para o bar.

– Relaxa, eu já estou lá.

Pelo visto eu teria de voltar a pé para casa.

 

 

*Clóvis de Barros Filho, filósofo brasileiro

As Pessoas Boas

Os estoicos diziam que nós não sofremos pelas coisas em si, mas pela interpretação que fazemos delas. Sofremos também por nos importarmos com as coisas das quais não temos controle. A chave para a felicidade, então, segundo eles, seria nos importarmos apenas com as nossas escolhas, e não com eventos causados por outros e que não podemos mudar. Isso poderia ser resumido muito bem em uma frase de Dalai Lama, que diz: “Se o problema tem solução, então não há por que se preocupar. Se o problema não tem solução, a preocupação é inútil”.

Parece uma boa filosofia. Quando algum sábio oriental ou filósofos ocidentais falam sobre ela, todos aplaudem, concordam, copiam suas frases em suas redes sociais. O problema é que quando você, pessoa normal, diz algo do tipo, a reação é diferente: Você não é um sábio estoico, você é um conservador alienado.

Hoje em dia existe uma exigência em certas partes da sociedade, normalmente de professores e profissionais das áreas de humanas, de que todos devam ser “engajados”. Todos devem se “importar com o coletivo”. Não importa se você mora no interior de São Paulo, você precisa se importar, se preocupar com tudo: Com as crianças que passam fome na África, com Trump e os mexicanos que estão sendo separados de suas famílias na fronteira, com os imigrantes sendo mortos no Oriente Médio, com os moradores, desculpe, com as “pessoas em situação de rua” (é muuuuito importante usar o termo politicamente correto) que vivem nas capitais, com as famílias indígenas sendo exploradas por latifundiários no norte do país, com as políticas do uso de agrotóxicos em alimentos transgênicos, com os pobres animais que são mortos em abatedouros ou torturados em laboratórios de pesquisa… O mundo é um lugar horrível, então a lista é interminável, mas não importa que a sua indignação seja inútil, e que você não consiga mudar nem afetar significativamente nada disso com o que você se preocupa, você precisa se preocupar com tudo isso. Isso é, se você não quiser ser uma pessoa má.

Eu viajei para o norte, recentemente, com um grupo de turismo. Fiquei no quarto do guia, que era dono da agência de viagens e comunista. Depois de nos levar em uma escola ribeirinha para nos mostrar o martírio das professoras e das crianças naquele lugar e de chorar escondido atrás de uma das casas (apesar de ver aquela cena no mínimo uma vez por ano em suas viagens), já de volta no hotel, ele nos fez um discurso sobre como aquela vida era difícil e sobre como “coxinhas” eram “filhos da puta” por falarem sobre “meritocracia”. Talvez por causa de todo seu ódio e preocupação, ele era gordo, fumava um maço de cigarros por dia e suspeito fortemente que fosse alcoólatra. Se o sentido da vida é ser mártir, este aí não deve estar muito longe de fazer o sacrifício final. Mas acho que Dalai Lama não aprovaria.

Enquanto estávamos no quarto, ele me perguntou o que eu fazia da vida. Disse que era estudante, e havia vindo na viagem por querer conhecer como as pessoas viviam ali. Nós havíamos visitado um homem que morava sozinho com sua família em uma casa na beira do rio e eu perguntei a ele se não se sentia sozinho por viver tão isolado. Ele disse que não, por que sempre que ouvia o rádio, ouvia como a vida na cidade era violenta e ele preferia continuar ali. Culpa das pessoas más. Eu disse ao guia que tinha uma ideia de fazer algo semelhante no futuro, viver isolado das pessoas em geral. Nisso ele respondeu:

– Ah, se eu tivesse coragem eu também faria isso, mas não consigo. Teve um cara que se formou comigo que fez isso, foi viver em uma cabana sozinho no meio do mato. Eu disse a ele que ele era louco, mas sabe o que ele me respondeu?

– O que?

– “Louco é você, cara, que vive no meio dessa loucura toda. Me diz aí, qual a primeira coisa que você faz quando chega na sua casa?” e eu “sei lá, acendo a luz? Ligo a TV?” e ele “a primeira coisa que você faz é trancar a porta. E eu nem porta na minha casa tenho, irmão”.

Eu achei interessante o fato de ele achar que foi a violência das “pessoas más” que me fez ter a ideia de me isolar do mundo, assim como fizeram com ele e seu amigo. Em nenhum momento ele pensou que pudesse ser, na verdade, a violência das “pessoas boas”, como ele. Por que das pessoas más, com alguns recursos, você pode se defender, colocando muros, alarmes e sistemas de segurança em sua casa. Mas essas “pessoas boas” estão em toda parte: No seu trabalho, na sua escola, no meio da rua e na sua própria família. Hoje elas infestam também as redes sociais, vigiando cada palavra que você escreve, na esperança de encontrar alguma maldade para combater e ganhar curtidas.

Não são as “pessoas más” que fizeram da minha vida e da de muitas pessoas à minha volta um inferno. Muitas das vítimas das pessoas más aceitam com resignação a condição na qual foram colocados pelos “opressores”, e ainda assim tentam ser felizes e extrair algo de valor de suas vidas. Tentam não se importar com o que sabem que não podem mudar, como os estoicos e os budistas. As “pessoas boas”, ao contrário, não ficam felizes a menos que todos ao seu redor estejam como elas: Sofrendo, revoltadas e preocupadas com tudo. São melancólicas masoquistas, que, como disse LaVey, “não se definem pelo que são, mas por aquilo que são contra”. Seu martírio é o que dá sentido a suas vidas, e aqueles que não querem servir de mártir são alienados, devem ser convertidos ou humilhados. Esses são os zumbis dos quais eu quero distância.

Eu não sou contra nenhum tipo de revolta, nem mesmo aquelas que são nitidamente inúteis. Mas quando esses mártires não aceitam defender seus pontos de vista sozinhos, e querem converter todos ao seu redor com sua ideologia, como se fosse um cristianismo 2.0, um vírus degenerativo que te impede de ter uma vida feliz, aí eu acho que essas “pessoas boas” são um problema. E quero que elas vão para o inferno.

A Mídia e os Ratos

O alarme do celular tocou as 5h20 como tem tocado ultimamente e eu me preparei para um novo dia. As 6h17, quando subi para tomar café, minha mãe estava ouvindo o rádio e eu ouvi a notícia de que a “menina Vitória”, a garota de 12 anos que havia desaparecido e cujo corpo fora encontrado, havia sido morta por “asfixia mecânica”. Só disseram isso. Não era nada sobre o início ou o desfecho do caso, apenas a causa da morte. E enquanto eu tomava meu café e me preparava para sair, me perguntei qual era a utilidade de saber, as 6h17 da manhã, que a garota de 12 anos morta havia sido enforcada.

Eu até entendo pessoas quererem saber o desfecho do caso de uma garota desaparecida, se ela foi encontrada, se a justiça foi feita, mas qual a relevância de saber o método pelo qual ela foi morta? Por que na verdade isso não muda nada na vida de ninguém que não esteja diretamente envolvido com o caso. Parece apenas mais um circo temporário da mídia: Uma criança morre e a audiência dispara. Pode ser a menina Vitória, a menina Isabella ou o Menino João. Ou podem ser outras tragédias, como aquela garota que sofreu o estupro coletivo, alguém se lembra dela? Ou a tal deputada que foi assassinada junto aos outros 18 políticos pela milícia no Rio? Ela continua presente?

As notícias têm prazo de validade. Ainda mais agora que os gênios descobriram a existência de “fake news”, elas são produtos que entram e saem das prateleiras e são consumidas em um tempo específico pela população. Hoje existem ainda algoritmos que permitem que nós vejamos apenas aquilo que queremos ver – como se já não fizéssemos isso antes, sem a ajuda das máquinas – o que torna esse mercado ainda mais competitivo. A consequência na prática disso é a existência atual de dezenas de grupos polarizados, tanto pessoalmente quanto nas redes sociais, onde todos se reúnem para falar mal do outro grupo, mas os grupos mesmo, nunca conversam entre si. Tornam-se “câmaras de eco”, onde os membros de cada grupo só repetem aquilo que querem ouvir.

Alguém com um senso crítico mais desenvolvido pode até perceber isso tudo e criticar a apatia com que todos os outros recebem o que é ofertado a eles. Ele sente raiva e critica, mas sabe que apesar de toda sua raiva ele é apenas um rato em uma gaiola, e se ele é consciente e os outros alienados, não importa, pois continuarão sendo ratos na mesma gaiola, condicionados a reagir da forma que esperam que eles reajam a estímulos externos, vindo do mundo de fora, que eles não sabem como é e nem têm ideia de como funciona.

No final, conscientes ou não, como acontece com esses ratos de laboratório, o grande experimentador nos levanta pelo rabo e corta nossas cabeças, pois já não estamos aptos a viver nesse mundo depois do que foi feito conosco.