Me move

Doce compasso

Doce melodia

Passo para lá

Passo para cá

Viro-me numa pirueta

E o mundo se transforma

O ritmo comanda

Os saltos desenham arcos no ar

A emoção me agita

E conduz os movimentos

Sinto que vou explodir

Cinco minutos de dança

Uma eternidade de sentimentos

A dança é viva

E pulsante em meu ser

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O dia em que quase morri.

Baseado em uma história bem recente.

 

Estou na varanda do meu apartamento, cigarro acesso, vento leva a fumaça para além do mundo que consigo imaginar. Telefone toca, minha noiva, ignoro. Ignoro por ignorar, estou deliciando-me de um momento de solidão único, impar, serene. Talvez até raro. As buzinas dos carros se misturam com as vozes e os murmúrios. Cai a noite, seis horas e contando, nesta etapa da minha vida eu já havia desistido de muita coisa, nesta etapa da minha vida eu apenas esperava o desmaio primordial. Mas estou na varanda.

Do meu apartamento.

As seis horas da tarde.

Um crepúsculo febril, uma noite quente, cervejas jogadas nas calçadas juntando barata, milhões de mortes acontecendo, milhões vidas nascendo, meus pensamentos não conseguem parara em minha cabeça, o silêncio lúgubre que vem em lufadas do interior de meu apartamento, como pancadas desequilibradoras que ameaçam lançar-me do vigésimo segundo andar. A bocarra da morte entre os carros, os furtos, os gritos, e os chiados, as milhões de crianças chinesas, os chinelos esmagadores. Tudo em um versículo de tempo, um minuto compactado em um segundo, um milésimo formulaúnico. Um chiste, beirando ao caos de novo mundo. Lá estavam as distantes pessoas em suas vidinhas, lá estava meu cigarro pela metade, o gosto da morte única na boa.

Minha noiva novamente ao telefone.

O tremular do modo silencioso, um zumbido tremelicante em meio ao caos ditatorial de buzinas e gemidos. O celular move-se alguns milímetros, aceso, gritante. Eu apenas observo, observo e noto, noto e vejo.

Percebo.

Espere ai. Eu não moro em um apartamento!

Tudo fica negro. O silêncio agora é assustador. O desmaio primordial que tanto quis? A doença macabra que me afetara silenciosamente agora dá as caras, colocando um ponto final para todos os meus problemas passageiros? O não suicídio, a morte covarde, o deitar em uma cama de hospital, tendo a pena de todos, as lágrimas e o esperar para a morte heroica daquele que luta contra o mal e sucumbe. Eu diria a todos que fui o herói grego, o espartano, o valente.

Meu verdadeiro sonho é ser o homem que digo que sou para as outras pessoas.

Eles me empurravam em uma maca.

O médico dizia zumbidos para minha noiva.

Minha cabeça doía e descansava. Um hiato.

Eu estava novamente no apartamento. Não sabia que lugar era aquele, era tudo muito estranho. A varanda era separada da sala por uma grande porta de vidro. A varanda não era tão cumprida, mas podia-se debruçar tranquilamente no parapeito e ter uma belíssima visão do largo de uma avenida que eu não sabia qual era. Dentro do ambiente, uma penumbra, semelhante a escuridão de uma casas em dia de blackout. Eu não reconhecia os rostos nos porta-retratos, nem o cheiro estranho do ambiente. A televisão, grande porem antiga não ligava, e os outros cômodos estavam trancados. Tudo se resumia aquela sala e aquela varanda. Estava calor, mas o vento frio incomodava. Os zumbidos dos carros eram escutados como um micro enxame. Algo lá fora que me dava arrepios.

Novamente meu celular toca, minha noiva tentando falar comigo. Desta vez eu atendo. Sua voz parecia chorosa, como se tivesse chorado a noite toda. Ela me disse que falou com o médico, ela me disse que tive um desmaio por conta de estresse, ela me disse que eu teria que fazer exames, ela me disse que eu poderia ter morrido.

Morrido. Eu dei um sorriso sem querer.

O desmaio primordial.

Ela terminou a ligação dizendo que eu precisava acordar.

Tudo negro.

Abro os olhos. Não identifico o lugar, mas o cheiro de remédio e doença é conhecido. Minha noiva segura minha mão, eu a reconheço pelo calor e pela macies das pequenas mãozinhas de pedagoga. Ela sorri com os olhos inchados, sorriso de alguém que muito chorou. Minha cabeça estava dolorida e enfaixada, senti o peso das bandagens e o seu desconforto. Uma enfermeira entrou na sala. Magra e ranzinza, não perguntou como eu estava, apenas pegou meu braço, o perfurou om um soro e o manteve ali, quieto.

Ainda fiquei de observação. Eu entendi que um desmaio ocasionado por estresse em uma escada pode nos levar a quebrar o pescoço e morrer. Porém no meu caso só um pequeno ferimento e alguns dias de atestado. Também precisarei voltar ao médico, fazer mais exames etc. Os que saíram hoje não identificaram nenhuma bomba relógio, mas o doutor disse que eu precisava relaxar.

Sorri com desprezo.

Forma curiosa de encarar a morte, talvez uma forma covarde. Quando um médico diz que você quase morreu é uma boa forma de mensurar como somos suscetíveis a não estar mais aqui no dia de amanhã.

Travessia infernal. 

Me colocaram num pedestal 
me colocaram num altar 

esqueceram que podia errar 

que minha disposição humana é tropeçar. 

Em pouco tempo DITO E FEITO!

Errei perfeito. 

O mesmo povo que me endeusou 

ao inferno me condenou 

atearam fogo em tudo

não derramaram misericórdia um segundo 

fiquei em chamas 

sujo na lama 

DITO E FEITO,

me destruíram direito!

Conheci o desespero demoníaco na terra

nenhum medo supera.

Você chora você geme

ninguém é complacente!

Não existe luz no fim do túnel 

a calma borbulha 

o desprezo ardia

o calor acordava a agonia

a solidão vazia

rastejava ao passar dos dias 

o pensamento enlouquecia

bálsamo não alivia! 

A água fervente 

minha travessia

tinha que nadar 

até a pele queimar 

até o mal descascar 

até o pecado pulverizar

até a mancha secar 

até o passado desintegrar 

e outra criatura sair do quente mar.

Mergulhei sete mares em erupção,

mergulhei na falta de perdão.

Mergulhei na rejeição,

mergulhei na realidade 

ninguém era amigo de verdade.

Oh céus,

deus me perdoou e o pecador castigou! 

Matou minha moral

atribuiu justiça para fazer mal

nos ferimentos tacou sal

no coração sem batimento cravou um punhal.

Em cada braçada sangrava,

água avermelhada 

[eu] definhava

em cada sopro de vida 

desejo suicida.

Destroçada buscava a redenção, 

uma mão 

para me tirar dessa endiabrada emoção.

[ódio move a realidade]

Uma onda de ódio me engoliu,

o ódio poderoso explodiu.

O ódio que me deu coragem, 

o ódio me fez esquecer a vaidade. 

O ódio me ensinou a liberdade,

o ódio derramou milagre. 

O ódio estancou a ferida,

o ódio resfria e brilha. 

O ódio estimula quanto intriga,

ódio que salvou minha vida!

Ódio fez ressurgir a bondade em mim,

o ódio no maligno pois fim.

Saí do mar pois resisti, 

as ondas picantes sobrevivi.

Na beira da praia aprendi

depois do inferno o BEM pode ressurgir.

Theater of life

Às vezes eu tenho a sensação que todos estamos um pouco mais frágeis do que queremos admitir.

Durões é a impressão que as pessoas querem passar umas as outras, algumas até o são,  pois endureceram com o tempo, com os anos, e acima de tudo com os danos, mas a maioria só é encenação. E se todos fossem atores, talvez conseguissem sobreviver mais felizes do que na lucidez da vida real.

E no teatro da vida, temos os figurantes, os atores e o diretor. Mas o elenco é avulso, temos que contracenar sem ensaios, sem ler o roteiro ! Pois é tudo, sim tudo, tudo mesmo no improviso.

Quantas vezes na vida, enquanto todos dormem, homens só olhavam os céus.

Enquanto à brisa gélida da sua história passava por seus pensamentos enquanto seus olhos contemplando a noite fazia daquele momento uma inspiração.

Quantas vezes enquanto enxergava as estrelas daquele céu negro, entendia  que muitas vezes a gente é tão acostumado a não ouvir a nós mesmos, que não sabemos quando temos que nós ouvir.

Isso mesmo, não sabemos quando seguir a nossa intuição, as vezes, acho que até vezes demais, insistimos nas coisas. É assim mesmo, sabemos que tá tudo errado, mas não temos roteiro lembra ? E se nossas atitudes estiverem erradas, se estivermos perdidos, ou se até mesmo as nossas falas saírem ruins, não temos tempo para reconstruir, não da tempo de apagar e reescrever. A flecha lançada nunca volta, o tempo vai passar, o roteiro vai avançar e tudo vai continuar acontecendo. Você se adapta a peça, não é e nunca vai ser à peça que vai se adaptar a você.

Esse meus amigos é o TEATRO DA VIDA, assim mesmo, sem música de fundo, no estilo Charlie chaplin: preto e branco, mudo, silencioso, mas vivo e nocivo.

Então vamos flutuando nessa vida, enquanto caminhamos de norte a sul, de uma ponta a outra, estamos contracenando, estamos virando a cada dia uma página diferente do roteiro, descobrindo um novo cenário, conhecendo novos coadjuvantes, e vamos vendo alguns que querem ser protagonistas de suas histórias e não fazem nada para que cheguem lá, outros até chegam lá, mas se esquecem que o lá muda. E é ai o negócio pega, a vida é isso mesmo, é sem propósitos, é sem conto de fadas, é crua, não é toda aquela novela das 8 que você vê e se encanta, a vida mesmo é viver e no final do dia estar consigo mesmo.

Não que não é bom viver, é bom para caralho, algumas coisas ainda valem a pena, como a família, amigos, estragar um pouco mais o figado a cada gole de álcool, ou até mesmo bom e velho rock n’ roll, explodindo os tímpanos com aquelas guitarras pesadas e baterias estrondando todo o ambiente, fora as melhores curvas do mundo, que são inspirações para os melhores dias de minha vida, se é que me entende!

Fora o trabalho que para mim já deixou de ser trabalho e se tornou o que amo fazer: Inovar e poder ajudar a vida das pessoas.

Não preciso nem mencionar escrever e ler não é mesmo ? mas para você talvez seja outras coisas que ti motivam na peça, ou que tiram seu sono e fazem você parar de atuar!

Ou talvez você pode se perguntar o que que te tira da cama ao invés o que que tira seu sono !

Só quero dizer que nesse teatro tem muita coisa para fazer, posso listar em ordem umas três ou quatro que são de longe as melhores, algumas delas exigem um alguém para fazer parte das cenas, e sabe ? temos todo o tempo do mundo para que sejam feitas, porém à maioria deixa para depois, achando que as coisas duram para sempre, que o roteiro é infinito, mas como o renato disse um dia em uma das suas letras: O pra sempre, sempre acaba !

 

Alá Akbar

Um All Star preto de cano alto, com os cardaços em xadrez, uma calça rasgada no joelho e uma regata escrito Rock n’ Roll meio desbotada. Uma garrafa de cerveja em sua mão, na outra um cigarro aceso, e o revezamento entre nicotina e álcool fazia com que adrenalina em seu corpo atingisse patamares altíssimos.

O ambiente era escuro, só clareava pela luz dos holofotes do palco pequeno daquele rock bar famoso na cidade de São Paulo.

A banda que tocava se chamava Raimundos, e diretamente de Brasília tocavam um som pesadíssimo, as rodas de bate-cabeça se formavam enquanto à garota bebia e observava os riffs e toda aquela energia.

Fumaça aos céus, muita gente entorpecida por álcool e drogas, jovens demais para serem cobrados pela vida, imaginavam eles que seus casacos de couro o protegeriam do mundo e nada temeriam enquanto estivessem com os dedos para o alto em formato de chifres e berrando a pleno pulmões o refrão de quero ver o oco.

O mundo para ela não importava mais, enquanto sacudia a cabeça para cima e para baixo e seus cabelos esvoaçavam ao vento, enquanto o álcool e a adrenalina faziam seu trabalho, nada e ninguém importava.

Ao fundo só ouvia o som uníssono de mais de quatro mil pessoas catando;

Meu ódio por automotores começou cedo
Depois que eu tranquei os dedo na porta dum Opalão
Meu pai de dentro se ria que se mijava
Achou que o filho festejava, era dia de Cosme e Damião
Depois do dedo, foi o braço, a perna, as costa
Tu duvida, bate aposta
Pois muitos vão lhe testemunhar
Tanta fratura que deixou a doutora louca
É pino até no céu da boca
Tu cansa só de tentar contar

Eu quero é ver o oco
É pedir muito uma enfermeira vir me ajudar?
Eu quero é ver o oco
Ó enfermeira, gente boa, vem me medicar

Eu quero é ver o oco
Eu quero é ver o oco

Mais ela não percebeu que os gritos do refrão pararam de ser música e se tornaram berros de desespero, ela demorou alguns segundos para ver que a roda que se abria em vários pontos não era para bate-cabeça e que as pessoas que começaram a trombar em si não estavam no empurra empurra habitual de shows.

Algo estava errado. Bloom!

Havia sangue por todos os lados, choros, berros de agonia que transcendia as barreiras do som daquela banda, que agora era só um zunido distante o bastante para não ser reconhecido.

KABUM!
Era o álcool ? Caralho só podia ser o álcool. Que brisa era essa ? Eu vi pessoas explodirem sorrindo e matando milhares ao seu redor.

Bloom!

Cadê toda aquela energia ? Onde estão as rodas. Onde ela estava, só precisava acordar daquele pesadelo.

Mas era tão real, lembrava-se de ter se arrumado e de sair de casa para o show.

Sabia que beberá demais da conta, mas isso era loucura, as pessoas estavam mortas e o show havia se tornado um campo de guerra em uma fração de segundos.

Ela viu um homem se arrastar sem as pernas, e em outra ponta uma mulher desesperada sem o braço.

Ela só se deu conta que era realmente a realidade, quando um garoto de jaqueta de couro passou correndo e trombou nela, ambos caíram e ele disse;

– Alá Akbar.

 

Volta pra mim!

Senti tua falta meu amor…

Faz tempo que teu sorriso se apagou,

Queria ver teu olhar de criança novamente

Queria te sentir dentro de mim inteiramente.

 

Volta que essa casa ainda tem teu cheiro.

Tá lá tua toalha secando no varal,

A fronha ainda tem o perfume do teu cabelo

E eu estou aqui inteira, pra você me habitar.

 

Ontem olhei no espelho e me vi sem ti.

Não tem sentido, tu perdida, e eu aqui.

Dá vontade de me esvair de vez

Pra encontrar contigo, massa que me refez;

 

Volta, que meu peito tá aberto,

Porque sem ti, meu destino é incerto

Porque é loucura ficar sozinha

E ser metade nesse caminho.

 

Meu coração tá pela metade

Porque sem você é só isso que sou

um sol que brilha, mas não esquenta

fogo, que ilumina, mas não queima

 

Um corpo físico que a alma deixou

 

Volta minha alegria…

Volta luz do dia…

Volta fantasia…

Volta pra eu ter harmonia.

 

Vem e me abraça por dentro

Faz sair de mim teu rebento

e me leva a crescer sem temer

me faz de novo de tua morada!

 

Não quero mais ser sozinha, quero estar com você!

Volta minha alma pra mim!

 

 

O culto à masculinidade

Gosto de refletir, quem acompanha meus textos já percebeu isso.

E dessa vez quero falar sobre um assunto que vêem me incomodando faz um tempo, mas gostaria de falar dele quando tivesse uma opinião formada, uma clareza de ideias, não que seja absoluta a minha verdade e ou meus pensamentos, longe disso. Quero falar com vocês sobre masculinidade e como ela vêem erroneamente sendo ensinada as pessoas, em como essa masculinidade tóxica que aprendemos e passamos de geração em geração vêem causando efeitos colaterais em nossa sociedade.

Bom, hoje o texto vai ser longo, pesado e muito reflexivo, então se estiver disposto: embarque nessa viagem e vamos pensar.

Primeiro quero deixar claro, que a crítica desse texto é sobre como nós homens estamos nos prejudicando e prejudicando outras pessoas, por acharmos que masculinidade é uma dessas coisas abaixo:

“homem não chora”, “homem tem que ser forte”, “homem não deve falar sobre sentimentos”, Macho de verdade quer sexo sempre que possível, nunca nega uma trepada. Se não transa, é um bosta. Agrada mulheres para no final das contas, transar.

E se fosse possível ter sexo à vontade sem um relacionamento estável e comprometido, soltaria fogos. Macho de verdade não entende sinais, não pode entender isso de emoções também, pois tem que deixar essas coisas para as mulheres.

É agressivo e usa a força com quem ultrapassa seus limites, que devem ser sempre entendidos e respeitados, mas nunca esse homem respeita os limites dos outros e diz que é controlado, mas no final é impulsivo quando ofendido. Tem que ser ambicioso, desdenha de quem não deseja mais da vida, fora que despreza comportamentos que indiquem fraqueza, vindos de outros homens. Pois a fraqueza de mulheres já é esperada, e ele mesmo agir assim? isso é totalmente intolerável.

Sabe masculinidade e feminilidade, até certo ponto, são cultuadas, ora mais para uns, ora mais para outros. Desde primórdios sabemos que os homens e mulheres deveriam restringir-se ao seu papel social de acordo com a sua identidade biológica, de macho e fêmea, e por isso, sua escolha afetiva e sexual deveria voltar-se para o sexo oposto ao seu. E a norma desviante desse padrão era totalmente repelida e punida.

Mas hoje sabemos que isso não é o que ocorre de fato, tivemos algumas revoluções nos últimos séculos e algumas foram satisfatórias e que fizeram com que a sociedade tivesse uma aceitação maior de homossexuais e bissexuais, ainda que exista preconceitos contra esses grupos, a sociedade caminha para que esses preceitos não sejam algo normal e tolerável. Assim como sabemos que movimentos feministas causaram grande impactos fazendo com que a mulher tenha um papel social mais participativo em todas as áreas, com direitos iguais aos homens e isso, meus amigos, é demais.

A luta delas ainda é árdua, pois existe muito machismo e com esses avanços, a masculinidade toxica foi crescendo, e os homens foram criando mais barreiras para não se parecerem com os esteriótipos femininos, então na mente desses machões para ser homem você tem que ter culhões, seu orgulho nunca pode ser quebrado, fora que uma vez dito algo, jamais poderá voltar atrás sobre o que foi dito, assim colocando muitas vezes sua parceira em situações abusivas, e não se esqueça que homem não chora não, você é homem ou não é ?

Os homens cresceram ouvindo que demostrar qualquer coisa faz dele menos homem, que ser sentimental é coisa de mulher, que qualquer coisinha e eles ficam parecidos com uma mulherzinha, sendo que não tem nada de errado em ser uma mulher e muito menos em demostrar sentimentos.

Vi e ouvi essas coisas minha vida inteira, vejo até hoje e sendo homem sempre digo que homem não tem que seguir nada disso, homem é gente, homem é humano, homem tem sentimentos sim, pode chorar sim, pode fazer o que quiser, desde que não prejudique outras pessoas. Sabe não afeta sua masculinidade falar sobre os sentimentos, você não tem que provar nada para ninguém, não tem que pegar trinta mulheres numa noite para falar que é macho, não tem que assediar ninguém para depois contar para os amigos, não tem que tratar mulher como se fosse descartável ou lixo, não tem !

Sua virilidade não é o que vai definir se você é homem ou não, acho que somos todos mais frágeis do que demonstramos, mas ai você é pilhado e bombardeado por esse machismo desde cedo, isso afeta os homens com toda certeza, por isso vemos homens achando que mulher é inferior, que mulher só é pra pegar e descartar, que mulher é isso e aquilo… é difícil tomar consciência de que esse pensamento é errado, de que esse comportamento hediondo e machista é injusto para dizer o mínimo, é complicado entender isso sendo que tudo que você escutou desde pequeno era que isso é uma verdade absoluta sabe ?

E então os caras se reprimem, não falam sobre seus sentimentos, sobre suas tristezas, pensam que precisam ganhar dinheiro para sustentar suas famílias se não nunca estarão fazendo seu papel de homens na sociedade, que são uns bostas, tem muitos caras que estão sofrendo por aí com seus psicológicos arruinados, e não é por acaso que a taxa de suicídios entre homens é muito maior do que em mulheres, homens não estão falando sobre seus traumas, sobre suas tristezas, sobre as coisas que os deixa efêmeros, homens não estão liberando a pressão social que carregam nos ombros e isso está causando consequenciais terríveis sobe eles.

Precisamos efetivamente mostrar que homens também são gente, que também podem ser seres humanos e ensinar desde cedo para a nova geração que eles não são feras de pau duro que caminham.

Suas competições de quem tem o carro melhor, a mulher mais gata do lado, ou quem ostenta mais do que o outro, vemos os machões tentando mostrar sua virilidade com quantos filhos conseguiram ter e falando somente sobre seus paus ou quantas vão pegar e ou pegaram… Homem é ensinado assim, desde pequeno, nas rodas de amigos, é o que vemos em filmes, séries e novelas, a maneira como a imagem do homem é construída, que é passada.

Sabe até quando uma tia ou um parente próximo vê o moleque e já fala bem assim:

Esse aí vai comer todas as menininhas… Mas quando esse mesmo menino se machuca à primeira coisa que falam para o garoto é:

Não pode chorar, segura esse choro menino, você é homem ou não é ?

Essas coisas influenciam na criação da criança, e o garoto cresce achando que masculinidade é isso, se torna adolescente com esse monte de merda na cabeça e se não tiver pegando ninguém acha que tem algo errado consigo, pois na roda de amiguinhos só o que falam é de como a fulana tem um rabo grande ou como os peitões da outra são maravilhosos.

E esses adolescentes crescem mais e se tornam adultos, e ai vemos o que acontece hoje em dia, mulheres sendo assediadas em transportes públicos, na rua, no trabalho e até em suas casas, fora na vizinhança. Deixamos o mundo hostil para elas de um jeito que existe até uma palavra para o crime que causamos diretamente a elas: feminicídio.

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Ficamos tão machistas que alguns pensam que é certo aquele ditado que lugar de mulher é esquentando a barriga no fogão e esfriando no tanquinho, e que pensam que ser macho é dar cantada em mulher na rua, que é bonito ficar assediando as garotas no ônibus ou no trem, que é legal tratar à colega de trabalho um pouco melhor por ela ser mulher e quem sabe possa comer ela depois.

Sabe esse texto é para aqueles que esperam a garota passar para falar algo no ouvido dela, é para os babacas que gritam de seus carros coisas do tipo OLHA QUE SAÚDE, O LÁ EM CASA, QUER UMA CARONA? COISA LINDA. GOSTOSA SE EU TE PEGO TE QUEBRO NO MEIO, entendam que esse texto é para mostrar a essa sociedade machista, que acha que masculinidade é ser superior, esse texto é para mostrar que o machismo já deu, que isso é errado, é coisa para ficar no passado, esse texto é para conscientizar as pessoas e a sociedade de que em uma pesquisa no datafolha em 2015 mostrava que 74% dos entrevistados que afirmaram que já foram assediados eram mulheres e que dessas 39% dizem que foram assediadas na rua, em uma outra pesquisa no mesmo ano de 2015, ao todo, 77% das entrevistadas afirmaram que foram vítimas de algum abuso físico sexual e 10% desses crimes ocorreram dentro de casa. As jovens foram abusadas por irmãos, pais ou parentes próximos.

Você consegue entender o quão hediondo isso é? o quão repugnante essa porra está se tornando?

Já em 2016 em uma nova pesquisa esse número aumentou para 86% das mulheres brasileiras que sofreram assédio em público e o Brasil registrou, nos dez primeiros meses do ano de 2016, 63.090 denúncias de violência contra a mulher, isso sem contar muitas que não contam o que estão passando e não entram nas estatísticas e somente com os dados da pesquisa de 2013 o brasil já entra na lista do quinto pais mais violento contra as mulheres.

E isso não é por acaso, é por conta da forma que criamos e deixamos cultural essa masculinidade tóxica, toda essa baboseira que homem pode e mulher não, que homem é superior e coisas do tipo. Mas sabe isso não quer dizer nada se não fizermos diferente, se você que está lendo tem um filho, o ensine diferente, não de exemplos de que ele possa se espelhar mesmo que inconscientemente, não deixe que o machismo seja natural para ele.

E se você for homem, pense à respeito do que você faz ou deixar de fazer achando que vai afetar sua masculinidade.

Tudo isso é foda para caralho, eu sou um cara que reflete muito sobre isso: masculinidade, sobre machismo e sobre como a cultura que vivemos, a criação que temos vai nós influenciando sabe? Claro que não determina quem você vai ser, mas influência.

E se você não parar para pensar sobre essas coisas, você vai fazendo e achando que é normal, que é natural e quando vê se tornou um boçal, que faz mal para as pessoas ao seu redor e achando que tudo que importa é você ser o durão, o macho alfa e o restante que se foda e te sirva, e isso tudo é bullshit, o máximo que você vai ser é um babaca.

Sou homem, tenho minha masculinidade e sou heterossexual, mas quando estou numa roda cheia de caras, as vezes tenho nojo deles, sabe a maioria não vê mulher como uma pessoa, como alguém que tem sentimentos, só vê como objeto mesmo, tratam como se fossem lixo, acho ridículo. Sabe as coisas que falam, que se vangloriam de terem feito, é  tão raso, são pessoas sem caráter, é patético, chegam e batem palma, disputam quem comeu ou pegou mais e não sei o que, com a maior naturalidade do mundo, para eles realmente isso é normal e é por isso que vejo bem com quem fazer amizade, somente porque não suporto essas coisas, esse tipo de pessoa !

Falar de mulher todos falamos, não estou querendo dizer que isso é errado, os puritanos que se fodam, ambos machos ou fêmeas falam sobre de quem gostaram ou tiveram atração, com quem sairão, se pegaram ou enfim… foda-se, o que estou querendo dizer é quando pessoas são apenas objetos umas para outras, e sei que para os machões que tem essa masculinidade toxica e que precisam se provar o tempo inteiro as garotas não passam disso: Sexo.

E se você é um desses e está lendo, digo para você que não adianta você comer uma loirinha, morena ou uma ruivinha, e discutir sobre qual delas gozou melhor com seu pau e ou qual era mais habilidosa em um blowjob, isso não vai te fazer mais homem, mais masculino ou menos afeminado. Isso só quer dizer que você teve uma transa muito boa.

Eu cresci ouvindo e vendo coisas machistas minha vida toda, por um tempo da minha infância e adolescência achei até que era normal, mas com o tempo fui vendo o quão horrível isso era, o quão errado eu também estava e que não queria ser mais um babaca no mundo, pois esse mundo está lotado deles já !

Eu choro, eu demostro meu amor pelos meus amigos, sim até os homens! Pela família e não tenho vergonha disso… sei que sou homem, tenho minha masculinidade e sei do que gosto e não é uma demonstração do meu afeto que vai mudar isso !

Mas todos somos mais frágeis do que demonstramos lembra ?

Então a maioria dos caras precisam de auto-confirmação, precisam se provar… e sua maior fragilidade está em não conseguirem demostrar, em se privarem de ser pessoas e terem relações afetivas verdadeiras com os outros, em pensarem que não podem porque se não vão ser viadinhos… e tá aí outra coisa que acontece para machões se acharem no direito de serem idiotas, babacas e ou brucutus; para não se parecer viado, bicha ou qualquer uma dessas palavras que eles amam usar para dizer que o cara é homossexual, afeminado, ou algo do tipo.

Como se por eles serem homossexuais fizessem deles menos do que outras pessoas, essa correlação que acontece é complicada demais, essa homofobia generalizada, esse preconceito que misturado com o machismo se potencializa e faz da masculinidade tudo que ela não deveria ser, como as características abaixo:

  • agressividade excessiva
  • medo de ser gay
  • medo de ser fraco
  • medo de ser feminino
  • busca por ser percebido como altamente sexual
  • fechamento emocional (evitar vulnerabilidade)
  • obsessividade com poder e dinheiro (expressadas de modo comum em relações auto-destrutivas com o trabalho)

O uso da palavra “medo”,  está relacionado ao motivo para usarmos como xingamento constante o fato de alguém ser gay, fraco ou feminino.

Odiamos aquilo que de algum modo tememos – seja por medo do contágio ou da identificação com o outro Jose Léon Crochik comenta sobre, em seu livro Preconceito, indivíduo e cultura.

Existe até mesmo o absurdo argumento de defesa “gay panic” (pânico de gays), que pode ser usado nos tribunais dos EUA para atenuar as penas em casos de assassinato. A “gay panic defense” diz que avanços indesejáveis de homossexuais podem levar a “violenta insanidade temporária”.

Essa construção de identidade baseada no medo é explicada na imagem a seguir:

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A imagem foi originalmente concebida pelo professor, psicólogo e pesquisador Jim O’Neil [ http://jimoneil.uconn.edu/ ]. A versão acima foi apenas traduzida por http://www.geledes.org.br.

Nesse contexto alguns clichês aparecem e não é atoa demostramos nossa força a todo instante, no auge de nossa capacidade de machões.

nos dividimos em quatro partes:

Os musculosos: malham, brigam, exibem os bicéps e tricéps.

Os inteligentes: articulam, comandam, estudam, dominam temas complexos e exibem seu conhecimento.

Os bons em games: acumulam mortes, pontos, rankings, medalhas e os exibem nas comunidades online, notórias pela presença massiva de outros homens.

Os ricos: gastam, acumulam, vivem experiências de riqueza, se gabam sobre como o que importa não é o que você tem, mas o que você é, e em seguida ostentam o que possuem.

O ponto é ressaltar o narcisismo tão comum a nós. Sabe esse desmedido senso de auto-importância, talvez só equivalente ao pânico de sermos desimportantes, fracassados e ou fracotes.

E esse tipo de esteriótipos prendem nós homens ao que é conhecido como “The Man Box”  que significa em uma tradução livre “A Caixa do Homem”:

The Man Box.001.jpeg

Com uma pequena analise da caixa do homem, você consegue perceber que o resultado dela são homens com emocionalidade restrita, sufocados, que acabam por adoecer e morrer, ou se autodestruir mais cedo.

Para se ter uma ideia, no Brasil, a expectativa de vida de homens está sete anos abaixo das mulheres.

Muitos homens ao redor do mundo sofrem de “Alexitimia”, uma condição caracterizada pela dificuldade em identificar e expressar os próprios sentimentos. Há pessoas que se sentem confortáveis sendo desse modo, mas outras tantas, não.

É como se homens passassem tanto tempo temendo se associar a qualquer coisa vista como emocional demais – ou seja, supostamente “mulherzinha demais” – que, quando precisamos dessa habilidade, nem sabemos como usar. E não por má vontade, mas pela mais pura e simples falta de treino.

No ápice, quando o homem se vê em um limite, isso leva à depressão, até mesmo ao suicídio.

Essa masculinidade que vivemos, aprendemos e repassamos é toxica, faz com que busquemos a todo momento provar que somos machos, fiquemos com tendencias a violencia, nós fechamos emocionalmente e nos tornamos homofobicos, fora nossa obsessão por dinheiro, mulheres e poder.

Ao meu ver precisamos eliminar e combater essa ignorância, essa irracionalidade que temos, e começar a pensar a respeito do que fazemos, de nossas atitudes como homens, não importando se é negro,branco, pardo, deficiente ou não. Com isso vamos fazer do mundo um lugar melhor, iremos passar a ensinar nossas crianças que masculinidade não tem nada ver com gênero ou orientação sexual, mostraremos que somos todos humanos complexos, nada é tão simples quanto parece e a vida vai nós ensinando isso.

E não significa que devemos proibir homens de expressarem sua agressividade ou sexualidade, existe à personalidade das pessoas também, mas repense ou reflita ao menos uma vez o porque você é do jeito que é.

Não quero com meu texto obrigar ninguém a sair falando dos sentimentos ao acordar.

Não quero que você mude o que você é, quero que pense e reflita a respeito do que você está se tornando, do que você está repassando para outros, de como suas atitudes vêem afetando você e as pessoas ao seu redor.

Atacar a masculinidade tóxica é buscar liberdade para todos, é deixar enfim a vida mais leve.

É permitir as pessoas escolherem sobre como desejam ser, sem que isso coloque em risco o quão homem ou mulheres elas são.

E para finalizar quero deixar aqui alguns termos e seus significados, para que vocês machos entendam que algumas de suas atitudes podem ser até crimes:

Assédio verbal
Palavras desagradáveis, ameaças ou cantadas sem consentimento de ambas as partes. É uma contravenção penal e o autor pode ser multado.

Ato obsceno
Ação de cunho sexual em local público a fim de constranger ou ameaçar alguém. É crime.

Assédio sexual
Constrangimento ou ameaça para obter favores sexuais feito por alguém de posição superior à vítima. É crime.

Estupro
Obrigar alguém, ou tentar perante violência ou ameaça, a ter relações sexuais ou a praticar outro ato libidinoso. É crime.

Bom vou deixar aqui as fontes da pesquisa realizada, que apontam dados e afirmam argumentos mostrados no texto acima e alguns podcast com depoimentos para que possam ouvir:

 

https://www.papodehomem.com.br/os-homens-estao-morrendo-porque-nao-conseguem-falar

https://www.geledes.org.br/masculinidade-toxica-comportamentos-que-matam-os-homens/

2013
https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2013/03/08/52-das-mulheres-ja-sofreram-assedio-no-trabalho-falta-de-provas-dificulta-condenacoes.htm

2015:

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2015/06/02/internas_polbraeco,485270/pesquisa-revela-que-77-das-mulheres-foram-assediadas-sexualmente.shtml

http://g1.globo.com/hora1/noticia/2015/05/pesquisa-revela-que-77-das-mulheres-ja-foram-vitimas-de-assedio-sexual.html

data folha 2015:
http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2015/11/1703472-mulheres-sofrem-mais-assedio-no-transporte-publico-segundo-datafolha.shtml

2016
http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-05/pesquisa-mostra-que-86-das-mulheres-brasileiras-sofreram-assedio-em

http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-tem-1-denuncia-de-violencia-contra-a-mulher-a-cada-7-minutos,10000019981

VIDEO SOBRE com estatisticas 2016:

http://noticias.r7.com/jornal-da-record/videos/estatisticas-revelam-nove-entre-dez-mulheres-sofrem-assedio-sexual-no-brasil-20052016

http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-05/pesquisa-mostra-que-86-das-mulheres-brasileiras-sofreram-assedio-em

DENÚNCIAS
O Ligue 180 foi criado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres para servir de canal direto de orientação sobre direitos e serviços públicos para a população feminina em todo o país.
A ligação é gratuita e a principal porta de acesso aos serviços que integram a Rede Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, sob amparo da Lei Maria da Penha, além de ser uma base de dados privilegiada para a formulação das políticas do Governo Federal nessa área.